25 de novembro de 2012

Sobre a posição do povo povo (o povil, estão a ver?) quanto ao aporrinhamento sem tréguas que o vai domesticando…

Num aspecto estou em completo e ovacionado acordo com o dito Exército Lusitano, aquele que tem voz sintética de mulher. Minha aclamada concordância vai para a sua sugestão de que as manifestações passem a ser silenciosas e sentadas. Se acrescentar a isto a existência de um revisor oficial para os cartazes, com o fim único de corrigir os erros ortográficos e o mau gosto da literatura expontaneisto-panfletária, ficaremos, de facto, com manifestações eficazes e inteligentes. Mantenhamos a boca fechada e pareceremos logo muito menos idiotas. E que isto seja uma ordem a ser escrupulosamente cumprida, excepto no caso das pessoas constipadas que, obviamente, têm que respirar por ela, dado que, por princípio generalizado em casos de constipação, poderão ter o nariz entupido.

Estes manifestantes, embora sabendo exactamente o que os trouxe à manifestação, esconderão do seu inimigo as suas intenções, estratégias ou desígnios, deixando milhentas hipóteses de interpretação ao dito cujo, enfim, semióticas variadíssimas e contraditórias, facto que poderá mesmo contribuir para o próprio desenvolvimento intelectual do inimigo do povo, de ordinário tão tacanho e limitado. Trata-se de fazer o bem a quem nos faz mal ou, dito de outro modo, aniquilar o adversário com amor, carinho e total ausência de decibéis. Manifestações deste tipo conduzirão a uma vitória esmagadora do povo e da classe operária e cumprirão, em simultâneo, Gandhi, Cristo, Krishna, Buddha e mesmo Platão e Diógenes, sem falar no próprio Marx, cujo “Capital”, apesar de especialmente palavroso, está, de facto, embrulhado num celofane de silêncio dúbio que aniquila, de modo semelhante, capitalistas e proletários…

Quanto à posição sentada que o Exército Lusitano tão sabiamente preconiza, considero-a, indubitavelmente, mais cómoda e pertinente que aquela que ostentamos agora: de pé, de joelhos ou de cócoras. De facto, sentados no chão e de mãos dadas, homem e mulher, lado a lado (no meu auspicioso desejo, homem e garota boazona), ali, olhos nos olhos, mão na mão, joelho com joelho, estaremos realmente unidos, lutando, ferozmente calados, pelos nossos direitos e, ao mesmo tempo, quem sabe, combinando, mão na mão, olhos nos olhos, joelho com joelho, horas extraordinárias para depois do jantar, horas de que o país tanto necessita para equilibrar balanças e  inverter o estado da demografia a nosso favor…

Tudo faz sentido.

(Onde carai fica isso do Exército Lusitano? Quero alistar-me, porra…)

     Post 867       (Imagem daqui)

3 comentários:

Faty Laouini disse...

Hehehe, gostei tanto:) Será que podemos derrotar o inimigo com a ironia? Sempre era mais divertido:)

Anónimo disse...

Muito bom! Essa ideia de sujeitar os cartazes ao lápis azul é soberba!Acabam-se os atropelos à língua camoniana! E podem contar com minha presença se o meu "auspicioso desejo" se concretizar: mulher e garoto bonzão, lado a lado! eheheh beijinhos Marla

Anónimo disse...

Muito engraçado.
E.Nat.