19 de abril de 2008

Terceiro assalto de um duelo de florete entre dois virtuosos cavalheiros sobre relvado a perder de vista junto à piscina azul da controvérsia educacional

florete Caro Dr. Luís Grave Rodrigues,

O senhor é um conceituado advogado da nossa praça, possui uma retórica brilhante, sabe o que é, sabe o que representa, enfim, tem consciência de si mesmo. Os professores não. Os professores não têm identidade. Não existe uma consciência colectiva entre os professores. Dificilmente encontramos um deles igual ao outro. Não existe unidade entre eles, nem ao nível das suas substâncias, nem ao nível dos seus anseios, nem ao nível dos seus sistemas valorativos, nem das suas formações iniciais ou contínuas, nem das suas práticas pedagógicas, nem das suas áreas disciplinares. Poderíamos, quando muito, afirmar que existe alguma semelhança entre dois professores da mesma idade, possuidores de uma mesma licenciatura, pela mesma universidade, situados no mesmíssimo escalão, leccionando os mesmos curricula aos mesmos níveis de ensino e em turmas semelhantes em idade e indisciplina. Para lá desta presumível equiparação, os professores são todos irremediavelmente diferentes. Irremediavelmente desunidos.

Como pode então o Dr. Luís Grave querer que os professores produzam um (e só um) sistema de avaliação para opor ao que ora se lhes oferece? Impossível. Os professores podem apresentar centenas de sistemas de avaliação diferentes, cada um deles merecendo apoio apenas de porções ínfimas de todo o corpo docente nacional. Um professor de Educação Física ou de Moral ou de TIC não subscreverá, certamente, a mesma paramétrica avaliativa que um professor de Matemática, Física ou Línguas Estrangeiras, a menos que essa paramétrica seja generalista, só de natureza administrativa e relacional e, por conseguinte, imprestável. Há, na verdade, pouco em comum nas práticas pedagógicas das disciplinas que acima confrontei. Nunca será possível construir um sistema, qualquer que ele seja, que se possa, em rigor e honestidade, aplicar a todos. A menos que um qualquer sindicato, de entre os inúmeros existentes na carreira docente (facto que só atesta a insolúvel dispersão e desunião dos seus associados), se sente junto do Ministério e apresente uma proposta alternativa, de natureza e autoria absolutamente individuais. Mas isso foi o que acabou de acontecer e já metade dos professores veio, de imediato, contestá-la.

É todavia possível detectar, entre os professores, um anseio comum que, no entanto, de pouco servirá: os professores querem ser avaliados do mesmo modo que todos os restantes grupos profissionais. Se o método de avaliação da Ministra da Educação é assim tão bom, aceitaria o Dr Luís Grave Rodrigues aplicá-lo aos médicos, aos advogados, aos juízes, aos engenheiros, aos padres, aos jornalistas, aos escritores ...? Experimente. Facilmente se depararia com a sociedade paranóica que tal avaliação engendraria.

Só os professores, pelos vistos, é que merecem uma sociedade assim. E brevemente irão inaugurá-la...

Poucas profissões foram alguma vez tão "avaliadas" como a de professor. Há já vários anos que todo o professor está, sistematicamente, sob reparo social e sob o impacto de enraivecidas suspeitas: suspeitas dos alunos, suspeitas professordos pais, suspeitas dos colegas, suspeitas dos seus naturais enquadradores (Coordenadores de Departamento, Conselhos Pedagógicos, Directores de Turma, Conselhos Executivos e até Pessoal Auxiliar da Acção Educativa). Ah, pois, não sabia?

Com todo o respeito e consideração.

 

(Imagens tiradas daqui e daqui, respectivamente)

1 comentário:

Tony disse...

Bom artigo e boa resposta, João!
Mas já agora, deixa-me puxar um pouco a brasa à minha sardinha...
Não duvido que os professores são escrutinados de várias formas e sempre o foram (tenho uma professora em casa).
Mas poucos darão conta que nós, juízes, também o somos: temos, desde logo, a avaliação profissional do Conselho Superior da Magistratura (existe um corpo de inspectores), pelo menos de 3 em 3 anos, com notação, que é a base para a progressão na carreira.
Mas também temos outras "avaliações", quiçá mais duras, especialmente nos tempos que correm: dos advogados, dos jornalistas (enfim, dos media), das testemunhas, dos arguidos, da opinião pública - que recentemente descobriu que havia Tribunais...
Naturalmente, sou favorável à avaliação profissional, desde que ela seja feita de modo justo e imparcial, com regras pré-estabelecidas e critérios objectivos.
No mais, o que mais vemos por aí é folclore e espuma...
Um abração.