16 de junho de 2012

Espectáculo!!!...

Dois dos meus alunos do 10º ano pegaram-se ontem numa interessante cena de pancadaria.

Ao contrário da habitual reacção que desencadeio quando a pancada se dirige a mim próprio e que é, no mínimo, instantânea, desta vez demorei o tempo que achei necessário para perceber o facto e, obviamente, para tentar prolongar o mais possível o íntimo prazer que me estava a dar ver outros, que não eu, apanhar uma valente coça

De modo que deixei, calmamente, as mesas estatelarem-se ao longo da sala, os sopapos estalarem de ambos os lados, os olhos matizarem-se alegremente de roxo e os narizes esborracharem-se sob o impacto de murros e cotoveladas. (Um espectáculo gratuito, de tão elevada qualidade, não acontece todos os dias. A sua estranheza fazia dele um momento histórico digno de um post, uma crónica, um compêndio de civilidade e etiqueta).

Não sei que pensamentos ou sentimentos a restante turma desenvolveu mediante o inusitado espectáculo. Quanto a mim, tive tempo de sobra para a íntima e, obviamente, reprovável alegria de verificar que dois alunos da pior espécie representavam ali, diante dos meus olhos alegremente atónitos, a cena que tantas vezes eu próprio tinha sonhado.

Introduzamos aqui um pouco mais de precisão: a cena recorrentemente sonhada não era exactamente esta. Ela envolvia, de facto, três actores e não apenas dois. Havia um primeiro actor, único protagonista digno deste nome, eu, esmurrando aqueles dois, ou quaisquer outros dois, já que a turma é generosamente rica em espécimes deste jaez.

Sonhos são sonhos e, seja pelo estatuto do aluno, seja pela arrogância e voracidade dos pais, ou seja pela minha notória decrepitude, a cena, do modo como tantas vezes foi desenhada, nunca aconteceu de facto, graças a Deus e aos obstáculos com que sempre atravanco a distância que separa o sonho/desejo da realidade/facto.

Mas não me queixo. A cena foi diferente, eu não estava nela, mas foi igualmente enternecedora e totalmente satisfatória.

Ao fim de vários segundos de divertidíssima violência, um pouco antes de os primeiros pingos vermelhos aflorarem ao trombil dos contendores, acabei finalmente por intervir em nome do regulamento geral dos espectáculos, expulsando-os da sala, marcando faltas disciplinares e tomando algumas notas para uma futura participação de ocorrência.

Aconteceu ontem, na última aula do curso, facto que impossibilita o acesso a qualquer hipótese de repetição da cena, pelo menos neste ano lectivo. Enfim, antes pouco que nada!

Tudo terminado, havia em alguns rostos o desânimo do fim do circo. Quanto ao meu rosto, nada posso garantir sobre o que nele havia... (Não possuo feedback autónomo sobre as minhas expressões faciais).

     Post  840           (Imagem daqui)

3 comentários:

odete ferreira disse...

O circo dentro da sala de aulas não é mais do que a reprodução do circo no exterior. O que nos descansa mais agora é que que os pais dos infractores vão pagar coimas :)
O teu humor continua em alta. Para esconjurares estes tempos, basta escreveres como o fazes. Basta retratares como o fazes.
Abraço

Anónimo disse...

Não é todos os dias que se assiste in loco a uma cena digna de filmes de Rambo. É sempre uma situação infeliz, o que não impede de dar alguma satisfação aos espetadores... Gostei muito do texto, com umas pitadas de ironia e humor infalíveis!
Marla

Fátima Laouini disse...

Do melhor! De igual modo, adorei ler os comentários.