1. o meu médico 2. “another step” 3. sobre esta nossa coisa íntima 4. minudências minhas
(Imagem daqui)
1. o meu médico 2. “another step” 3. sobre esta nossa coisa íntima 4. minudências minhas
(Imagem daqui)
Eu e o dinheiro temos uma relação platónica: amo-o muito mas nunca lhe toquei. Somos, apesar de tudo, fiéis um ao outro, tanto quanto o permite esse ascetismo que nos envolve: ele anda por outras mãos, pensando em mim, no que eu lhe faria se um dia o tivesse… Por meu lado, nunca lhe imaginei um substituto mais vantajoso.
Como acontece com todos os amores platónicos que um dia deixam de o ser, acredito que, uma vez tendo-o, perderia por ele o apetite. Os que o têm todos os dias vejo-os eu inconformados e ansiosos, insatisfeitos de corpo e alma, tentando sempre conquistar outro e outro e outro. Tarefa inglória, repetitiva, monocórdica, anorgástica…
Mas eu não. Eu divinizo-o, como divinizo o tempo, as hóstias e as próprias deidades. Sublimo-o. Adoro-lhe de longe as transcendentes moradas (CGD, BPN, BES, e outras catedrais) e mordo o lencinho de donzela recatada…
Tem vezes que babo…
(Imagem daqui)
Há três anos no tralapraki
“Conjurações contra João Efémero”
(João Efémero era o autor e ainda nem suspeitava até que ponto era realmente efémero)
… de querermos sempre manipular a opinião dos outros
O esforço recorrente de tentarmos virar a opinião pública a nosso favor é mais velho que o mundo. Mesmo nós, que do poder só temos a barbatana, gostamos quando alguém diz bem do que fizemos ou enaltece as nossas posições e argumentos. Amigo meu chama-me inteligente e talentoso e di-lo aos outros completamente à borla. Essa história de que os amigos são quem nos fala a verdade é pura léria. Para que quero um verdadeiro amigo que olha de lado para o que faço, que está sempre pronto a aporrinhar-me com moralismos, que só sabe é chamar-me a atenção para as minhas burrices e infracções? Quero é amigos que me lisonjeiem, que acenem cordatos e respeitosos quando falo, que riam alvares das minhas piadas tontas. Quero lá saber do que eles pensam lá por dentro! O que me interessa realmente é que todos acreditem que eles são sinceros, ainda que nunca o tenham sido, nem façam planos para o ser.
E só tento agarrar-me à barbatana do poder… a caudal…
(Imagem daqui)
Acabei por duplicar o “tralapraki”, com medo de o perder. Meu único filho, sabem… Bom, mas baptizei-o de “opacidades”, porque sim. Igual até agora mas, a partir daqui, acho que me proponho divergi-los no que for possível. O trala continuaria a ser um repositório de assuntos da área da educação e da sociedade. O babel teria um destino mais triste, mais sombrio, talvez mais aprimorado, sei lá. Já o "ligeiríssimo" ficar-se-ia pelas trivialidades. O ligeiríssimo nasceu para ser o puto irrequieto do trala, enfim, uma tentativa de participar na comunicação mais juvenil. Falhou no intento, é claro. Falharam todos. E afinal, para que serve um blogue senão para falhar, em vez de nós? É isso, façam um blogue e vejam-no aparvalhar-se todo. E vocês seguros e intocados por detrás dele…
(Imagem daqui)
Apesar de não ser o que mais atrapalha nas escolas, atrapalha mesmo. E não é o que mais atrapalha, realmente, pois o que, na escola pública, mais atrapalha são todos aqueles que providenciam, defendem e sustentam a existência de todas estas (e muitas outras) atrapalhações. É que as atrapalhações atrapalham, mas não atrapalham sozinhas, não atrapalham sem os atrapalhadores de serviço… Para eliminar as primeiras, há que apear os segundos. Assim, tout court.
Segue um texto de Ramiro Marques, enviado por Ana Bela Canotilho
A tralha que atrapalha
Por que será que a opinião pública tem sido pouco alertada para a tralha que atrapalha? Por que será que o processo negocial, que se arrasta há quase dois meses, não inclui a questão da tralha que atrapalha?
Não há um único professor no país que não saiba qual é a tralha que atrapalha.
Até os inspectores - guardiões da tralha que atrapalha - sabem qual é a tralha que atrapalha.
Até os burocratas que trocaram a sala de aula pelas equipas de "apoio" às escolas sabem qual é a tralha que atrapalha.
E até mesmos os aposentados que integram o CCAP sabem qual é a tralha que atrapalha. Não porque conheçam a realidade das escolas - já que fugiram delas em bom tempo - mas porque ouviram falar da tralha que atrapalha.
Mas, admitindo que haja algumas almas bem intencionadas, embora ignorantes, nas equipas de avaliação externa das escolas, no CCAP, nas equipas de "apoio" às escolas, na DGRHE ou nas DRE, deixo aqui a lista da tralha que atrapalha:
Os projectos curriculares de escola. Não servem para nada: só atrapalham sobretudo porque há quem os altere todos os anos. Já contaram as milhares de horas perdidas pelas equipas e comissões permanentes de revisão dos projectos curriculares de escola e dos projectos educativos de escola?
Os projectos curriculares de turma. Servem para alguma coisa? Sim: para perder tempo.
Os planos de recuperação. Servem para quê? Socializar os prejuízos e privatizar os benefícios. Desculpabilizar e construir sucesso educativo de forma fraudulenta.
Os planos de acompanhamento. Idem.
Os planos de "melhoramento". Idem.
Os relatórios sobre os planos de recuperação e de "melhoramento" (sic). Idem. Monumentos à novilíngua e à trafulhice pedagógica.
Acabem com a tralha que atrapalha. A opinião pública compreenderá que a tralha que atrapalha é nociva ao ensino.
Gostava de ouvir os responsáveis do ME a falar na redução ou eliminação da tralha que atrapalha. Não ouço. A tralha que atrapalha obedece ao plano.
(Enviado por Ana Bela Canotilho)
(Imagem daqui)
O samba em Chico Buarque – “Ela faz cinema”.
(Desligue o rádio do blogue à direita e ouça, clicando no play acima.)
| Quando ela chora | E a cada vez que o perdão Ela faz cinema |
(Imagem daqui)
Nota: Nesta rubrica. tenho vindo a publicar alguns ficheiros de audio. Assumo como legal esta actividade, mais por razões de natureza consuetudinária do que por verdadeiro conhecimento da lei de autores. Qualquer entidade que vislumbre um quadro de ilegalidade neste acto deverá fazer-me saber e a rubrica será de imediato cancelada.
Alguns de nós sofremos de profundidade crónica. A velhice afundou-nos o pensamento a níveis onde os jovens já não alcançam. Qual poço de engenho nos estios mais longos, as nossas águas caem, como a nossa força, num vislumbre mais real que desejado da nossa inquietante e irremediável solidão. No fundo do poço, ébrios das nossas soberbas inteligências que ninguém mais pressente ou deseja, vegetamos por dentro de nós, mexendo e remexendo memórias magras, no estertor do entendimento universal, no paroxismo de todas as dores…
(E, silentes, arrefecemos.)
(Imagem daqui)
“Está decidido. Vou pedir a reforma antecipada”
“Mas, se pedes agora, vais ter um corte maior que o corte inglês”.
“Está decidido. Não peço”.
“E quando pedes?”
“Mais tarde”
“Mais tarde, com o aumento do tempo da reforma, o desconto tenderá a ser maior”.
“Está decidido, vou pedir a reforma antecipada.”
“Com apenas 31 anos de serviço, dão-te à volta de 50 por cento. A menos que ganhes muito bem…”
“Está decidido. Não peço.”
“O FMI diz que o país está à beira da bancarrota, como a Grécia. Se cairmos mesmo na tal bancarrota…”
“Está decidido. Vou pedir a reforma antecipada.”
“Em qualquer caso, serão sempre os reformados e os pensionistas a pagar a crise.”
“Está decidido. Decido amanhã.”
Aqui, Cavaleiros do Norte, de Viegas, um repositório pitoresco de histórias de guerra em Angola, nos idos de 74.
Fui maltratado hoje. Como ontem e anteontem. É como se de repente a vida fosse só o lado mau da vida, o gémeo travesso dela, um menino que fere com a inocência, um garoto da rua que mata distraído.
Há tempos que é assim. Dificilmente atravesso ileso as multidões do quotidiano. Não me exponho um dia sequer sem, pelo menos, um bom arranhão. Mas hoje fui mais zurzido. Voraz, a vampirina vida mordiscou a minha tranquilidade. Na jugular.
(Calma. Eu disse só “mordiscou”. Ainda me terão amanhã para me queixar de novo…)
(Imagem daqui)