Formiga Bossa Nova
Já no tempo do Tilo’s Combo este país tinha mais cigarras que formigas. Quase tenho, sobre o assunto, duas certezas mais ou menos pacificadas: a primeira é que este tema, (gravado em 1945 por Tilo’s Combo e mais tarde por Amália, de Alain Oulman sobre poema de Alexandre O’Neil) deve ter sido uma das mais importantes bandeiras da recuperação salazarista do cagaço da segunda guerra. De facto, passados que eram os anos da calamidade europeia, Salazar precisava de um hino popular para escravizar o povo com vista ao urgente enchimento dos cofres do estado; a segunda quase certeza é que este tema recorrente terá chegado aos ouvidos dos novos escravizadores do povo. A história ditou-lhes que o tema terá, ao tempo, surtido efeitos maravilhosos na tarefa de escravização dos portugueses obscenamente perdulários. Obviamente, a referência ao tema, magestosamente pronunciada pelo senhor primeiro-ministro e por um monte de banqueiros poupadinhos, traria de volta a apologia da afadigada formiga e a condenação da devassamente dissipadora cigarra que, como sabemos, somos todos nós, os devassos cantadores da coceira generalizada, arranhando os tomates bem acima das nossas possibilidades. (Bem sei que esta última alusão é escandalosamente sexista, já que mulher não pode, de facto, entregar-se a tal actividade, a menos que, como companheiras dedicadas e solidárias, ajudem os homens nessa árdua tarefa, até à total pacificação de todos os pruridos…). Fica aí, portanto, o hino ao trabalhinho mal remunerado e ao silêncio respeitoso dos escravos.
Post 876
Três horas da tarde. Uma tasca às moscas. (Muito poucas, visto que estamos no Inverno) 
Não sei se vamos ter fim do mundo, mas pelo menos o fim de semana já aí está. E onde há fumo, há fogo. Hoje, o meu fim do mundo começou como o meu fim-de-semana – a tomar o pequeno-almoço na cama. Não pensem que costumo tomar o pequeno-almoço na cama. Na verdade, nem costumo tomar pequeno-almoço. Esse luxo estava a levar-me a uma descapitalização sem retorno. Não, as nossas mulheres servem-nos o pequeno-almoço na cama apenas quando suspeitam que poderá ser o último, sobretudo por nossa parte. Foi o caso. E sabem que mais? Acho que isso é o fim do mundo. Não precisamos de outro para o escândalo ficar completo.
Após a leitura do
O Gérson do 9º ano tirou outra positiva. Desta vez a Ciências.
Num aspecto estou em completo e ovacionado acordo com o dito Exército Lusitano, aquele que tem voz sintética de mulher. Minha aclamada concordância vai para a sua sugestão de que as manifestações passem a ser silenciosas e sentadas. Se acrescentar a isto a existência de um revisor oficial para os cartazes, com o fim único de corrigir os erros ortográficos e o mau gosto da literatura expontaneisto-panfletária, ficaremos, de facto, com manifestações eficazes e inteligentes. Mantenhamos a boca fechada e pareceremos logo muito menos idiotas. E que isto seja uma ordem a ser escrupulosamente cumprida, excepto no caso das pessoas constipadas que, obviamente, têm que respirar por ela, dado que, por princípio generalizado em casos de constipação, poderão ter o nariz entupido.