12 de dezembro de 2012

Apesar de já ter dois anos…

… este relatório ainda pode ser comentado deste modo:

Após a leitura do quadro que Paulo Guinote nos apresenta, resolvi também botar faladura sobre o mesmo tópico, do modo como segue:

Obviamente, estamos a trabalhar demais.  Na medida em que os nossos resultados (dizem) são piores do que os resultados dos professores que trabalham menos horas por ano do que nós, isto é, a quase totalidade dos países da OCDE, facilmente podemos inferir que estamos a trabalhar demais e demasiado mal, isto é, que as nossas aulas são todas uma enormíssima bosta (com perdão da palavra aos mais sensíveis). Nem sequer se safam aqueles arrogantes que para aqui há, que acham que dão as melhores aulas da OCDE e mesmo, sem grande favor, do universo. Somos, evidentemente, uma cambada de burros e incompetentes que passamos o tempo a puxar uma carroça cujas rodas estão pregadas ao chão... 

E por aí continuaremos, a menos que alguém algum dia resolva atribuir parte das culpas do que somos aos nossos alunos incompetentes, mimadíssimos e astronomicamente mal formados. São estes alunos incompetentes e mal formados que praticamente não existem, por exemplo, na Dinamarca, onde os professores trabalham metade de nós (364 horas anuais de serviço lectivo, contra as nossas 752), obtendo resultados bem mais atraentes. Mas, é claro, professor Dinamarquês deve ser o supra-sumo da competência educacional...

Acho que lá virá um dia em que a cambada que nos governou, governa e governará porá os pontos nos ii, reconheça o verdadeiro mérito que todos nós temos e peça desculpa aos professores por tê-los transformado numa classe de pedintes e lhes ter roubado toda a dignidade, transformando-os numa massa inerte e acrítica, cheia de medos e de paranóias. Mas isto não acontecerá no meu tempo. Nem mesmo no vosso tempo, caros jovens. Descansai.  (Sentados).

     Post  871          (Imagem daqui)

10 de dezembro de 2012

duzentos anos de uma chalaça chamada democracia…

330_cartoon_iranian_democracy_small_overVivemos hoje um novo encolhimento democrático. (Já repararam neste começo? Com um começo destes, o post fica praticamente resolvido). Não tenho certeza se todos nós o vivemos. Eu, pelo menos, vivo. Queria poder vestir jeans de cu caído, mas não á para a minha idade. Queria beber uns copos com os amigos, mas não é para a minha saúde. Queria dizer umas coisas a um monte de gente, mas não é para a minha posição. Queria uma tarde de maluqueira, mas não é para a minha carteira.

Há 200 anos que a civilização ocidental persiste no conceito de democracia como forma de governo que espelha a sociedade, i.e., o povo. Ora, o povo é um dos conceitos mais abstractos que se pode imaginar (tão abstracto quanto elástico) e, portanto, o regime democrático é a governação abstracta da própria elasticidade. A democracia é hoje uma forma simplista de governação: o povo é que decide. Sim, certamente o pooooooovo decide. Mas então e eu? Se sou povo, porque é que eu não decido nada? Nem sequer decido o que quero almoçar. O médico decide o que devo almoçar e a minha mulher decide o que eu almoço. Estarei porventura a decidir alguma coisa quando coloco um voto na urna? Claro que não. O máximo que eu estou a fazer é uma escolha. E, até hoje, sempre péssima.

Senão, vejamos. Colocam-me à frente dois indivíduos. Um deles é jovem e parvo e o outro é velho e parvo. Vou às urnas e escolho o velho que, apesar de ser parvo, é mais parecido comigo, pelo facto de ser velho, já que parvo também o outro o é. Imaginemos que ganha o velho parvo. Este, obviamente, começa logo a fazer parvoíces. Aí, eu fico com a certeza de que escolhi o melhor candidato, visto que tem menos tempo pela frente para fazer parvoíces.

Suponhamos agora que é o jovem parvo que ganha as eleições. Como votei no velho parvo, não me sinto responsável pelas parvoíces deste governo. A democracia é, de facto, um regime generoso. Qualquer que seja a tua escolha, a bondosa democracia te absolverá, e o mesmo fará em relação aos escolhidos, quer sejam apenas parvos quer acumulem doses generosas de mafiosa corrupção.

E assim, acabo por aceitar a escolha dos outros. Na minha cabeça vai estabelecer-se um argumento decisivo: tenho que reconhecer que este jovem parvo vai produzir as suas parvoíces muito mais lentamente do que o velho parvo o faria, uma vez que tem mais tempo para as produzir. Serão, portanto, parvoíces de melhor qualidade, mais planificadas e reflectidas. Há toda uma possibilidade de ele construir um sistema totalmente parvo, em que todas as parvoíces fazem parte de uma superestrutura sistémica da mais elaborada e requintada parvoíce. E quando a parvoíce se torna sistémica, deixamos de a perceber como tal. E eis um estado muito próximo do paroxismo da felicidade.

(Eu não disse que tínhamos chegado a este ponto, nem me referi ao presente governo nem a este vilipendiado país. Estava a falar em conceitos abstractos… e elásticos. Vocês é que têm a mania de ficar fabricando concretismos para vestir as abstracções mentais que formulo…)

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7 de dezembro de 2012

Todos os pulhas para a rua! Já.

Também na escola pública a pressão aumenta. A escola pública poderá, a breve trecho, ser uma lembrança fugidia. Todos sabemos hoje como se consegue produzir um aluno mais barato. Entrega-se o ensino a um capitalista que escraviza os assalariados com ordenados de miséria e trabalho praticamente impraticável. Quando o professor rebenta pelas costuras, é mandado embora. Este será, certamente, o futuro da escola pública.

Porém, mesmo não o sendo exactamente assim, mesmo permanecendo ainda sob tutela ministerial, em breve ela recorrerá às mesmas estratégias, ao mesmo humilhante esclavagismo. Os primeiros passos nesta aviltante caminhada já foram há muito encetados. A escola pública desarticulou-se, as escolas viraram empresas, sacrificando todos os seus trabalhadores ao ranking nacional. As “melhores” têm bónus e os “melhores” professores têm prémios e reconhecimento oficial e aperto de mão da comandita imprestável que nos governou, que nos governa e nos governará para sempre. A escola pública afunda na sua estupidez sumária, nas suas emplumadas serpentes, nos seus galaricos de ouro, nos seus penachos de araras e de pavões… E depois, verificado o quanto ela se tornou improfícua devido à canalha que nela se tem vindo a abotoar, os governos entregam-na à iniciativa privada que compra carros topo de gama e condena os subalternizados professores à miséria e à doença mental.

Vivemos num país onde são tão brandos os costumes como é fácil a devassidão, a imoralidade, a prepotência e a corrupção generalizada. Canalha sem rosto, oportunistas sem pejo, usurpadores sem tréguas, vão para o diabo que vos carregue de dinheiro e de merda!

Todos os pulhas para a rua! Já.

     Post  869  

1 de dezembro de 2012

Gérson

O Gérson do 9º ano tirou outra positiva. Desta vez a Ciências.

- “Yesssss! Mais cinco euros”

- “Mas porquê isso, Gérson?”

- “A minha avó dá-me cinco euros por cada positiva que eu tirar.”

- “Mas então porque tiras tão poucas? “

- “É que os professores também não ajudam muito… O Setor ganha bem?”

- “Nem por isso, Gerson. A minha avó já morreu e…”

- “Quer ganhar uns trocados? O negócio é o seguinte. Por cada positiva que os profes me derem, ganham 40 por cento dos cinco euros que a minha avó desempochar. Eu fico com os outros 60 por cento.”

- “Negócio fechado” - disse o professor – e foi, no intervalo, contar aos colegas, que riram do desplante do Gerson e esqueceram o incidente.

Acontece, porém, que o Gérson arrancou, na segunda ronda de testes, mais positivas do que na primeira. Na verdade, quase quadruplicou o seu sucesso académico, tendo feito outro tanto com o seu sucesso económico, evidentemente. Como prometido, e acossado pelo seu impoluto sentido de justiça e hombridade (e também por causa da nota em atitudes e valores), o Gérson apresentou-se ontem mesmo a todos os professores que lhe tinham dado positiva. Trouxe a cada um deles uma redondíssima moeda de dois euros, que lhes fez rodopiar sobre a secretária. Para seu espanto, nenhum professor aceitou o pagamento contratado, facto que o Gérson atribuiu à total taralhoquice dos profes, certamente provocada pelo barulho nos corredores, pelos cortes salariais ou pela tal burocracia de que tanto se queixavam sempre...

O sentido de justiça e hombridade do Gérson foi momentaneamente escoriado mas logo se recompôs. Os golpes morais, nestas idades, apagam-se com alguma facilidade…

Em casa do Gérson, uma avó preocupada:

- “Oh, Gerson, vê lá não andes a estudar demais, filho. Isso pode fazer-te mal. Vá, deixa o computador e vai espairecer um pouco com os teus amigos…”

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25 de novembro de 2012

Sobre a posição do povo povo (o povil, estão a ver?) quanto ao aporrinhamento sem tréguas que o vai domesticando…

Num aspecto estou em completo e ovacionado acordo com o dito Exército Lusitano, aquele que tem voz sintética de mulher. Minha aclamada concordância vai para a sua sugestão de que as manifestações passem a ser silenciosas e sentadas. Se acrescentar a isto a existência de um revisor oficial para os cartazes, com o fim único de corrigir os erros ortográficos e o mau gosto da literatura expontaneisto-panfletária, ficaremos, de facto, com manifestações eficazes e inteligentes. Mantenhamos a boca fechada e pareceremos logo muito menos idiotas. E que isto seja uma ordem a ser escrupulosamente cumprida, excepto no caso das pessoas constipadas que, obviamente, têm que respirar por ela, dado que, por princípio generalizado em casos de constipação, poderão ter o nariz entupido.

Estes manifestantes, embora sabendo exactamente o que os trouxe à manifestação, esconderão do seu inimigo as suas intenções, estratégias ou desígnios, deixando milhentas hipóteses de interpretação ao dito cujo, enfim, semióticas variadíssimas e contraditórias, facto que poderá mesmo contribuir para o próprio desenvolvimento intelectual do inimigo do povo, de ordinário tão tacanho e limitado. Trata-se de fazer o bem a quem nos faz mal ou, dito de outro modo, aniquilar o adversário com amor, carinho e total ausência de decibéis. Manifestações deste tipo conduzirão a uma vitória esmagadora do povo e da classe operária e cumprirão, em simultâneo, Gandhi, Cristo, Krishna, Buddha e mesmo Platão e Diógenes, sem falar no próprio Marx, cujo “Capital”, apesar de especialmente palavroso, está, de facto, embrulhado num celofane de silêncio dúbio que aniquila, de modo semelhante, capitalistas e proletários…

Quanto à posição sentada que o Exército Lusitano tão sabiamente preconiza, considero-a, indubitavelmente, mais cómoda e pertinente que aquela que ostentamos agora: de pé, de joelhos ou de cócoras. De facto, sentados no chão e de mãos dadas, homem e mulher, lado a lado (no meu auspicioso desejo, homem e garota boazona), ali, olhos nos olhos, mão na mão, joelho com joelho, estaremos realmente unidos, lutando, ferozmente calados, pelos nossos direitos e, ao mesmo tempo, quem sabe, combinando, mão na mão, olhos nos olhos, joelho com joelho, horas extraordinárias para depois do jantar, horas de que o país tanto necessita para equilibrar balanças e  inverter o estado da demografia a nosso favor…

Tudo faz sentido.

(Onde carai fica isso do Exército Lusitano? Quero alistar-me, porra…)

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19 de novembro de 2012

nada foi inventado ontem (parte 2)

(Continuado daqui)

Tratava.se, pois, de avaliar o Pedro. O Dr. A. Rasca suspirou, desalentado. P Pedro tinha-lhe feito um só ponto positivo, baixinho, e então o Dr. Ruboredo pôs-se, naturalmente, a questão do seu próprio desempenho didáctico. Rebuscou na lembrança à procura de falhas, na gaveta à procura de folhas, no armário à procura de fichas! Mas só encontrou o costume: uma muralha inexpugnável de vulgaridades e ancestrais normalidades, a noção rígida de que tudo sempre fora assim e também de que nunca melhorara nos momentos curtos em que deixara de o ser. Para além disso, a urgência era avaliar o Pedro e não a si próprio ou ao sistema de avaliação de Pedros e de A. Rascas.

“Mas o puto não pode ter positiva! Brincou demasiado. Não foi ele que pôs os grilos no livro de ponto e os cornos no crucifixo? Não foi ele o promotor de vários incidentes diplomáticos entre professores e professoras, que quase conduziram a namoros, casamentos ou tragédias ainda piores?”

“Ah, o Pedro, coitado! Pensando melhor, no cognitivo até se pode justificar o 3. O Pedro é esperto e terá um 3, pelo facto de ser inteligente. Afinal, a inteligência é que vale. Não é o objectivo principal da educação desenvolver capacidades? Que fazer quando um aluno já as tem desenvolvidas? Envolvê-las de novo?”

Já que se falou em objectivos, aí está o Professor A. Rasca à rasca com as formulações em Mager, Gagné, Brigs, D’Hainaut, Landsheere! O Pedro terá aflorado algum objectivo de maestria? Estaremos nós a exigir-lhe alguma espécie de transfer? Ruboredo saiu. Pensou num manual: “Como Avaliar Pedros” de Cristina Marques e Joao de Miranda M. Estava tão esgotado como João Ruboredo Almeida Rasca. “O Pedro terá um 3 e está dito”. E foi dormir, quase descansado.

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17 de novembro de 2012

correcções de erros e gralhas

Foram hoje corrigidas gralhas várias encontradas no post “acções de formação e rendas de bilros”. Pedido de desculpa aos leitores. Serei mais atento, de futuro.

16 de novembro de 2012

Os Grandes Ensaios do Tralapraki

A lambreta na literatura portuguesa  (parte 2)

O segundo momento em que a lambreta toma conta da literatura portuguesa é com António Gedeão que Antónia Tonicha, under José Niza e José Calvário, cantou, de forma swingada, na Fala do Homem Nascido, opereta em LP de 1972. A Leonor da verdura camoniana, uma Leonor renascentista, fresca, depilada, descalça e não segura, funde-se com a Leonoreta da Idade Média, igualmente bela sobre toda frol, e ambas se agarram agora à cintura excessiva do piloto, presumivelmente Zezé Camarinha, encantador de medusas, milfs e marés nas praias algarvias, e pincham no banco traseiro, formosas, seguras, esvoaçantes e douradas.

O poema é pobre e demasiado veloz. Estonteia. Não dá tempo para ver com calma as curvas da estrada e de Leonor(eta). E se aquelas não me fascinam por aí além, estas mereceriam certamente uma atenção mais cuidada por parte do poeta. Mas eis que já se desenhava no horizonte a fugacidade, leveza, imponderabilidade e inconsequência do processo analítico. Leonoreta e a lambreta mostram-se em takes voláteis como clips da MTV. Como mulheres interessantes quando temos 60 anos. Tudo o que vemos é a estrada por onde, fugidias, elas se esgueiraram. Quando abrimos os olhos, só há rotundas, políticos, placas, chatices e semáforos. (Vermelhos).

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10 de novembro de 2012

Os Grandes Ensaios do Tralapraki

A lambreta na literatura portuguesa.   (parte 1)

Há três momentos na literatura portuguesa totalmente feitos à base de lambretas. O primeiro deles remonta a João Ruiz de Castelo Branco (ou de Taveirós) ou a João Lobeira (só verdadeiramente iluminados sabem a quem atribuir esta cantiga) e à cantiga “Senhor Genta, mi Tormenta” do refrão, “Leonoreta, fin roseta, bela toda sobre fror, fin roseta não me meta em tal coita voss’amor”.

Mesmo sem saberem nada sobre a origem desta canção, alguns autores aventam, e outros nem isso fazem, que o popular meio de transporte nada tem a ver com aquela canção medieval. Na verdade, alguns espúrios até ousam argumentar que não havia lambretas no século XIV e nem nos seguintes até aos anos sessenta do século passado, mesmo tendo-se já provado que o próprio Amadis de Gaula se passeava de lambreta sobre a verdura.

Ou se trata de má-fé primária ou os autores desta infâmia desprezam irresponsavelmente o facto de tudo isto se passar em Portugal. Ora, num país em que os filhos batem nos pais, os alunos batem nos professores, há ladrões na Polícia, há bombeiros que ateiam incêndios, ricos que não pagam impostos, governantes que desgovernam, gente importante e conceituada que nunca fez nada por ninguém e gente tão burra e incompetente a ponto de ainda não ter aprendido a roubar, mesmo tendo vivido neste país por mais de 50 anos (como é o caso deste idiota que vos fala agora), haverá ainda alguém que ouse pôr em causa a existência de lambretas em Portugal no século XIV? Mesmo sem ter que referir o Entroncamento, lembro que Portugal deu novos mundos ao mundo e novos labregos também e pariu a humanidade inteira sem um ai. Será que Portugal, dono da vagina do Homem (que, no caso de os humanos serem galinhas, teria certamente a maior cloaca do sistema solar), não pode ter uma lambreta na canção de Leonoreta? Se não é com lambreta, com que raio de palavra rima a miúda da cantiga do Cancioneiro da Biblioteca Nacional?

Falta de rigor científico é coisa que sempre me irrita profundamente…

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3 de novembro de 2012

acções de formação e rendas de bilros (parte 2)

PASSAROS(continuado daqui)

Vamos revisitar o Fausto Lindoso. Lembram-se dele? Quando o lobrigámos, estava em plena acção sexológica, ou seja, sentado à secretária, acabrunhadíssimo, triste, desconsolado, perdido, erectilmente disfuncionado.  Desenrolava a dança dos afectos perante alunos clivados entre sonolentos e gozões, cinquenta por cento à espera do toque da saída e outros cinquenta à procura de razões para se queixarem do professor aos respectivos papás – indefectíveis baluartes da decência e dos bons costumes. E Fausto Lindoso, recentemente empossado da competência sexológica que aquela providencial acção de formação lhe outorgara em menos de um fósforo, a fazer lembrar os cursos das universidades privadas em Portugal, respondia, pesada e indolentemente, a uma ou outra pergunta, sempre necessariamente estúpida, sobre menstruação, masturbação, inseminação, ejaculação, felação, aberração, excitação, frustração, penetração, refundação, e pensava intrigado sobre quantas palavras terminadas em “ção” cabem na (des)Educação Sexual e, enfim, em outras formas de fornicar o povão que tantos especialistas, ricalhaços, políticos e restantes fodilhões tão competentemente desempenham…

Na verdade, quereria não ter escrito este último período do parágrafo antecedente, em nome dos bons costumes e das públicas virtudes. Por isso, peço encarecidamente ao leitor que o ignore, para que possamos direccionar a atenção para a história de Fausto Lindoso que, a continuar assim, se perpetuará no blogue e na impaciência de cada um de nós. Segue-se, portanto, que aquela aula ameaçava ruir a qualquer momento, degenerando numa desgraça qualquer para Fausto Lindoso ou (em mais saudável alternativa) numa sesta iminente, generalizada e fértil.

Graças a Freud, Charcot, Jung. Janet, Deus, Machado Vaz, nada disso aconteceu. Muito pelo contrário, foi nesta aula que se deu o milagre que há tanto tempo Fausto esperava: um aluno lá do fundo (os alunos do fundo são sempre os que fazem perguntas mais assustadoramente pertinentes) pediu a palavra. Fausto deu-lha, contrariado. Professor, estas aulas de Educação Sexual são uma seca. Não é pelo senhor, Dr Fausto. É mesmo a matéria. Posso sugerir uma coisa? Podes. Quando é que o professor volta a ensinar-nos rendas de bilros, aviões de papel e o ponto de cruz do tapete de Arraiolos?

Assim se fez. Fausto Lindoso é feliz de novo. Mas aprendeu que tem que ler o objecto das acções de formação se, por alguma razão inesperada, tiver que voltar a inscrever-se numa.

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1 de novembro de 2012

O cromo Januário ou a pedagogia low-profile

O velho Januário ainda ensina. Tem quase 65 anos e ainda não descobriu que pode haver vida para além das aulas de História que lecciona magistralmente há quarenta anos.

Ultimamente, as suas aulas já não colhem tanta admiração por parte dos seus ouvintes como colhiam no passado em que Januário entendia e explicava a História como sendo histórias coerentes entre si, contadas à roda da fogueira, como na canção, sempre na perseguição do saber, da palavra certa, culta, lavrada, da palavra de honra.

De facto, do alto dos seus 65 anos, Januário vinha ultimamente vislumbrando até alguma despudorada aversão por parte dos seus actuais ouvintes, muito mais interessados na construção sistemática de divertidas barraquices, servidas por alguns desbocados impropérios e por ostensivas e constrangedoras deselegâncias, que Januário se habituara a considerar meros sinais dos tempos, deficientes apropriações que a sua velhice fazia do fenómeno social presente.

Seja porque, naquele dia, o almoço não lhe caíra muito bem, seja porque os seus ouvidos estivessem naquela aula um pouco mais impressionáveis, seja porque tivesse nesse dia contemplado, mais atentamente que de costume, o seu ar macerado e as suas irreverentes rugas desbravando caminho por onde fora em tempos um rosto, Januário, no limite da sua resignação, aproximou-se do seu ouvinte mais tenazmente grosseiro e ameaçou-o com uma expulsão, ao mesmo tempo que acentuava as suas palavras com duas palmadas no seu ombro direito.

No final da aula, o aluno assim repreendido aproximou-se de Januário e garantiu-lhe que não admitia que lhe batessem, que nem ao seu próprio pai o admitia, e que se o velho Januário ousasse tocar-lhe de novo, ainda que tão levemente como o havia feito, essa seria a última coisa que faria na sua vida (o discurso é meu, mas o sentido foi exactamente este).

No dia seguinte o irmão mais velho do aluno, um peralta desenhado a régua e esquadro, camiseta borrada de mostrengos e uma crista moicana no toutiço, veio à escola reafirmar a ameaça do caçula, vociferando que não se fala assim a um aluno em pleno desenvolvimento da sua personalidade e que seria ele próprio (o moicano) a tratar do assunto do velhote se este voltasse a repetir a façanha.

Três dias depois Januário enfrentava a mesma turma. Lá estava o aluno, olhando o velho como se o visse pela primeira vez, sorriso trocista no beiço de baixo e barrete enfiado nas orelhas (a sua conquista mais recente ao “rigor” do regulamento interno).

Sem nunca olhar o aluno de frente, Januário dirigiu-se à turma nestes termos: “Meus senhores, quero aqui apresentar publicamente as minhas desculpas ao aluno a quem repreendi na última aula. Quero penitenciar-me por tê-lo humilhado tanto e sobretudo por lhe ter dado tanto tabefe e tanto cachação.”

A turma ficou por momentos em silêncio total, o que não acontecia nas aulas de Januário desde 1985. Até que um aluno lá do fundo, um pouco a medo, balbuciou: “Mas, professor, o professor não lhe fez nada disso. Só lhe deu duas palmadas no ombro…”

E Januário, surpreendido, falou: “Quê? Então eu não bati no aluno? Eu não lhe dei vários tabefes naquela sua carinha desdenhosa, eu não lhe dei uma surra das antigas?!” “Não, professor, não deu. Apenas lhe deu duas palmaditas no ombro, e nem sequer foram com força”. “Têm a certeza disso?- teimava o professor, incrédulo.” “Temos” – disseram vários alunos, rindo da cara estupefacta de Januário.

“Bom, paciência! - continuou o docente – Na minha idade já vamos confundindo tudo, ao ponto de, inclusivamente, tomarmos desejos por realidades. Uma tristeza! Isto da velhice…”

A bronquice e obtusidade da turma não lhe permitiu entender a ironia… 

E pronto. A História história termina aqui, embora Januário seja um verdadeiro compêndio de casuística, uma colectânea de contos fabulosos, um cromo cheio de histórias mirabolantes, como aquela que lhe aconteceu na segunda-feira seguinte a estes incidentes, quando o nosso sexagenário teve de ir a pé para casa, visto que o seu carrito de 1990 estava sem rodas, pousado sobre quatro tijolos, situação pouco propícia a um deslizamento minimamente confortável. Mas, tal como a Segunda Grande Guerra Mundial nada teve a ver com Hitler, também este incidente não pode ser relacionado com nenhum dos últimos acontecimentos aqui contados.

Por vezes, nem mesmo a História relaciona convenientemente os factos, e Januário, como eu disse, é um ás da mais inverosímil casuística. Coisas da idade. Ou da História…

     Post 862        (Imagem daqui)