29 de setembro de 2012

povo que enches as ruas…

Manifestantes cercam congresso pela terceira vez esta semanaEstive a ver as manifestações pela televisão. Não vou entrar no politicamente correcto e dizer que são legítimas e que podem até ajudar o governo a resolver alguns problemas e mais isto e mais aquilo. Não. Não gostei nada. Era um bando estranho de uma espécie rara de alienados que só existe em Portugal, porque falam uma estranha espécie de português. Fiquei a pensar que os nossos governantes fazem figuras menos tristes do que estas que o nosso povo faz quando se junta aos molhos pelas ruas abaixo. Mas este facto não configura certamente nenhum mérito especial do governo, dado que os nossos governantes são em muito menor número. Para que um governo tão exíguo e condensado como este conseguisse ser tão ridículo como os magotes do estranho povo, cujas debilidades mentais acabei de ver e ouvir na TV, teria que possuir, pelo menos, três ou quatro primeiros-ministros como este, mais uma caterva de políticos avulso que por aí governam as suas carteiras e mais todos aqueles que, tendo-as já governadas, concluíram piamente que tinham estado a governar o tal povinho, sem possuirem as credenciais exigidas para o efeito (algum saber, alguma competência, alguma maturidade, algum sentido de justiça e alguma honestidade de princípios) e resolveram ir então estudar um pouco para se prepararem melhor para uma das próximas rondas eleitorais, quando a cadeira do poder voltar a ficar ao alcance das suas nádegas, na roda da sempre previsível alternância “democrática”, como foi o caso de Sócrates e é agora o caso de Seara, por exemplo, e muitos outros que se seguirão.

Não comungo da optimista e elegante reflexão de alguns, segundo a qual estas manifestações podem provocar rupturas governamentais ou inflexões nos processos da governação ou conter as medidas desastrosas que se vêm multiplicando como alcarnache. O que vi na TV (a menos que esta me tenha escondido as partes boas) foi um folclore triste de gente que, à custa de tanto sacrifício e de tanta fome, perdeu a dignidade, a força e a inteligência e escancara pelas ruas a sua decadência e um grotesco desamparo que nem imagina de onde lhe vem…

Mas não sou contra estas manifestações. Muito pelo contrário. Um povo precisa de saber o que realmente é e isso só se evidencia deste modo. O direito à amostragem é inalienável. Sem isso, eu não teria chegado a esta triste conclusão: talvez não seja necessário reivindicar um governo mais competente. Enganar este povo néscio é tarefa totalmente ao alcance do governo que temos...

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21 de setembro de 2012

O elevador (2)

clip_image001No estabelecimento de ensino por onde há quarenta anos arrasto o resto da docentíssima carcaça que o tempo me outorgou, há um elevador surpreendente.

Na verdade, aquele ditoso cubículo de lata não é um elevador, encarregado da simples e prosaica tarefa de levar aos pisos de cima todos os trôpegos e cambaios que atravancam as salas e os corredores da educação em Portugal. Aquele admirável cubículo supera essa basilar função e guinda-se (embora de modo inconsciente, como suponho que se guindam todos os objectos materiais) à categoria de uma válvula despressurizadora de tensões acumuladas na indigestão das aulas, um gabinete de massagens à alma, uma caixa de música do romantismo tardio, uma healthy booth redentora da humanidade sofrida.

Deixei as escadas que o médico me prescreveu o ano passado, com o inocente intuito de subtrair alguns centímetros à minha barriga, e passei a utilizar o milagroso ascensor em todas as minhas deslocações verticais. Nem a barriga me é assim tão insustentável (raramente penetra no espaço de manobra destinado às barrigas dos outros), nem o exercício do degrau ma alisou de modo observável. Por isso, e desde que descobri as propriedades medicinais daquele miraculoso elevador, acalento deveras a hipótese de que o director me promova de professor a ascensorista.

Os meus estimados leitores, perspicazes, tanto quanto curiosos, estarão certamente a perguntar-se o que tem de tão especial um vulgaríssimo elevador de alumínio que passa a sua vida útil a subir e descer por um fosso escuro, preso a uma corda de aço. E eu lhes respondo, de modo mais sucinto que o tempo que o dito leva a ir de um piso ao seguinte: é o espelho. Sim, um encantatório espelho que nos devolve uma imagem lindíssima. Não sei como isso é feito, que truques vítreos, que técnicas ópticas foram experimentadas neste enorme espelho que transforma um abatido e desclassificado professor de sessenta anos num jovem de 50 anos ou menos, de boas cores, penteado frondoso, figura esbelta e um olhar de simpática e ternurenta afabilidade, apesar da vida decepcionantemente parva que fora deste elevador se semeia todos os dias… E, posta de lado a possibilidade real de este elevador estar impregnado de alguma substância psicotrópica que nos aliene, não restam dúvidas de que possui alguma fórmula mágica que nos robustece a alma e nos desanuvia as horas.

Miúdas de todas as idades debatem-se por um lugar no elevador, e não deve ser pelo despoetizado dever de ir parar ao andar de cima sem se cansarem. Enquanto o elevador as transporta, devolve-lhes imagens que as seduzem e as envolvem no deleite de sonhos lindos, de desejos realizáveis. Passam dedos longos por cabelos sobejos e piscam felizes os olhos ao espelho reparador.

E eu fico a pensar que quero mesmo ser ascensorista, ainda que para isso tenha que fazer um doutoramento qualquer que me permita passar o resto dos meus dias neste elevador-colírio, retemperador e salubre. É que a vida, ladeira acima, diante daquele jovial espelho, profusamente ilustrada de jovens narcísicas, tem decerto outra dimensão…

     Post 854         (Imagem daqui)

9 de setembro de 2012

Evangelho Segundo São Lucas

E eis que se sentou à sua frente um aluno que tinha os ouvidos tapados e a língua presa e já tinha reprovado duas vezes. E Jesus, condoendo-se do aluno, meteu-lhe os dedos nos ouvidos que logo se abriram para o mundo. E depois, tocando a sua língua com o indicador direito, perguntou-lhe: “Que fazias tu enquanto os outros estudavam as if-clauses e o reported speech?” E logo o aluno se pôs a falar fluentemente em Inglês correcto, até com um leve sotaque a Celine Dion, e conseguiu arrancar um dez. Palavras da Salvação.

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28 de julho de 2012

FECHADO PARA FÉRIAS

Deve reabrir em Setembro, ou nos primeiros dias de chuva…

27 de julho de 2012

Esclarecendo…

Tralapraki         (desde 2006)Este blogue foi primariamente concebido para acompanhar as problemáticas referentes à questão educacional em Portugal. De algum modo, conseguiu fazê-lo, sobretudo nas momentos mais decisivos da luta dos professores, escrevendo textos originais ou fazendo-se eco de artigos publicados em blogues congéneres ou na imprensa escrita e falada de referência.

No entanto, sempre que outros assuntos (ainda que parecendo fora do domínio da Educação) se apresentavam à distância de tiro, este blogue também não recusou disparar, por considerar que havia sempre, pelo menos, duas razões principais para o fazer: a primeira prende-se com o facto de dificilmente qualquer assunto se afastar tanto assim da questão educacional a ponto de não lhe pertencer de todo; a segunda responde ao ímpeto incontrolável de vociferar contra todas as torpezas de que a classe política, empresarial, e restante fauna destrutiva é absolutamente pródiga neste país à beira-mar pasmado. E, nestes casos, a poupança de munições pode ser mais contraproducente do que benéfica e saneadora. Não se trata de disparar sobre tudo o que mexe, mas de abater aquilo que mexe de modo assustadoramente errado.

Sempre que por aqui extravasei alguma indignação, fi-lo sob dois estilos, presumivelmente diferenciados: aquele que poderei considerar sério, claro e directo, assumido e verdadeiro, destituído de ambiguidades semiológicas; um outro mais ligeiro e despreocupado. No primeiro caso, a contenção exigida às palavras de quem escreve e publica de modo identificado e não anónimo, como é o meu caso, levou-me a evitar sempre qualquer espécie de deselegância ou impropério e a controlar devidamente todas as formas caluniosas contra pessoas concretas e singulare, ainda que, em certos momentos, apeteça disparar contra elas, mesmo no escuro. Quanto ao segundo estilo, aquele em que, inconscientemente, tentei fazer curtas e medíocres incursões pelo humor literário, saíram-me, de facto, alguns termos insultuosos que devem, no entanto, permanecer no domínio da ironia, do sarcasmo irrelevante, enfim, no domínio da sátira, da palhaçada, da paródia nacional porreirista. Desejo que, neste caso, os eventuais visados  considerem irrelevantes tais procedimentos linguísticos, para que eu possa ter as férias que mereço, apesar de não ter dinheiro para as pagar.  Ao nível das ilustrações de cada post, tentei sempre clarificar a qual dos dois estilos eles pertenceriam, colocando imagens realistas para o primeiro caso e cartoons mais ou menos epigramáticos para o segundo.

Pronto, já posso ir para férias um pouco mais descansado. Sabe-se lá que olhos maldosos ou vingativos podem vir a ler o Tralapraki. Na silly season, tudo pode acontecer…

Fica aqui também um grande abraço para todos os que tiveram a pachorra de alguma vez (ou algumas vezes) lerem as minhas lucubrações blogosféricas. Boas férias.

    Post 852        (Imagem do blogue)

Férias 2

ferias 2

Jardim japonês – pedra, água e azáleas. Boas férias para todos.

    Post 851        (Imagem do autor)

25 de julho de 2012

Férias 1

foto amanhecer 4

     Post 850       Amanhecer na lagoa de Mira  (Imagem do autor)

Ouvido aqui e ali

Dona Conceição – “Quanto é que o Governo paga por cada hectare ardido?” Um bombeiro – “No momento, o Governo paga só trezentos euros por hectare de mata ardida”. Dona Conceição regressou a casa e perguntou ao marido: “Olha lá, homem, quanto custa aquela geringonça que pega fogo à mata?” – “Que coisa?” – “Aquela coisa que deflagra nas matas e pega-lhes o fogo”. – “Ah, isso é baratucho, custa uns cinco ou seis euros. Mas tu queres pôr fogo às nossas terras?” – “Quero. Temos seis hectares que nunca nos deram nada. Se a gente lhes puser o fogo, o governo dá-nos 1800 euros e ainda vamos aparecer na televisão para falar mal dele e dos bombeiros. Desde que não nos arda a horta e a casota…”

    Post 849        (Imagem daqui)

22 de julho de 2012

Isabel Jonet não disse tudo… mas disse muito

Isabel Jonet esteve num canal de TV agora mesmo. Traçou uma panorâmica hiper-realista da sociedade portuguesa. Não deixou ninguém incólume. Falou das falcatruas e da falta de transparência dos políticos portugueses, incapazes de liderar uma cortelha de galinhas, quanto mais uma nação inteira oprimida por uma crise internacional. Isabel não deixou imune nem o banqueiro ambicioso, nem o lavador de dinheiro, nem o traficante de influências, nem mesmo o povinho néscio que se deixou catequizar pelo conceito de um capitalismo poderoso, democrático e abrangente – um povinho provinciano que achou que era rico, quando os ricos lhe permitiram a entrada no clube.

Falou de uma juventude desempregada e sofredora e contudo ainda parvinha, rebolando-se, bêbada de ignorância, nos relvados dos concertos de rock. Falou dos pais cretinos dessa juventude que lhe pagaram o bilhete. Falou de uma sociedade desarticulada, boçal, néscia e malcriada que não ouve ninguém a não ser os poderosos, os ricalhaços, os famosos, os futebolistas e os cantores cana-rachada da mais destemperada e primária “música” que se conhece.

E não esqueceu um povo tão corrupto e incompetente como os seus líderes, mas que não aceita nenhuma culpa e espera que alguém na Europa lhe resolva o problema que lhe criou. Não se esqueceu de que, no meio desse povo ascético e inocente, nasceram víboras que maltratam velhos e deitam fogo às terras dos pobres, pelo simples facto de que não são suas.

Enfim, ficou-se por estes aspectos, por falta de tempo, mas disse mais que o suficiente para quem quis ouvir e aprender.

      Post  848         (Imagem daqui)

20 de julho de 2012

adenda ao post anterior

MULTA 1Para não terem que o ler (o meu percurso para a santidade inclui não ser cruel com o meu semelhante), vou fazer um resumo do dito post:

O autor propunha-se contribuir para a solução da actual crise, transferindo para a conta do Sr Primeiro Ministro tudo o que lhe sobrasse no final de cada mês. Previa ele poder alienar, neste mês de Julho, a quantia de 13 euros. Mas aconteceu um contratempo (aliás, listado pelo autor como potencialmente acontecível): o autor foi mesmo multado por estacionamento irregular (como vai atestado no documento que vos insiro) no valor de, imaginem, 12 euros. Aconselhado pelo seu guru e orientador espiritual, o Professor Machimbombo (de Turucutela), o autor decidiu não transferir o euro que lhe restou, preferindo acumular o donativo do próximo mês de Agosto.

Com os devidos pedidos de desculpa a S/ Exª e às Potestades, e reconhecendo o irreparável dano provocado à recuperação do país, subscrevo-me humildemente…

PS: Se for a V/Exª impossível prescindir daquela quantia de 12 auros, mande V/Exª recuperá-la junto do meu usurpador, a Câmara Municipal de Águeda, e poderá V/Exª ser perdoado de alguns dos seus pecados, porque, lá diz o povo, ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão. E voz do povo é voz de Deus. Ou será do Priofessor Machimbombo?

     Post 847      (Imagem e multa minhas)

17 de julho de 2012

Na peugada do curriculum de santidade…

Ora bem, eu sou funcionário público, professor do ensino secundário, e estou, portanto, a pagar a crise que os capitalistas criaram e que os seus lacaios de libré, os políticos neo-liberalengos, têm vindo a tentar resolver a contento de alguns, extorquindo quase tudo o que resta ao proletariado que, sabe-se lá por que reviravolta histórica, inclui hoje a classe média e, por conseguinte, todos os professores e restantes funcionários do estado. Estou, portanto, segura e paulatinamente, a construir um invejável currículo de corno paciente, mas ainda estou muito longe da santidade. Está certo, eu trabalhei às ordens da Dra Gilda Corte-Real e da Dra Albertina Brito, leccionei o 7ºA e o 10L Profissional de Informática, fui secretário do Eng. Manuel Oliveira, mas falta-me ainda um pouco para atingir a plenitude de um mártir.

Estando, no entanto, apostado em atingir aquele estatuto, comecei a dar voltas à cabeça para tentar descobrir como posso ajudar ainda mais o Governo de Portugal a conter a dívida externa, a baixar o deficit público e a regressar aos mercados e, sobretudo, aos supermercados, pois a comida já vai rareando nas despensas. E foi assim que me ocorreu uma ideia genial que, como todas as ideias geniais, prima por uma simplicidade extrema: todos os funcionários públicos devem transferir para a conta pessoal de Passos Coelho, os euros que lhes sobrarem ao fim de cada mês. Pode parecer estultícia, mas tenho ouvido relatos de pessoas que referem ter-lhes sobrado algum dinheiro no fim do mês, mesmo tendo conseguido comer quase todos os dias. Eu, por exemplo, estou a contar conseguir um superavit de, pelo menos 13 Euros, no final deste mês, se não ocorrer, obviamente, nenhuma contrariedade importante, uma gripe de aves ou de mamíferos, uma martelada num dedo, uma multa por estacionamento, etc., até ao próximo dia 23, dia em que o bondoso estado transferirá para a minha conta mais um montante líquido de 830 euros, que me permitirá, se Deus quiser, dar, em 22 de Agosto, mais um passo seguro a caminho da solução do problema económico português e outro, não menos importante para mim, a caminho do meu objectivo principal – a santidade absoluta.

A conta de Sua Excelência é 00027014200, da CGD. Contribuam.

(Ah, desculpem! Houve um ligeiro engano. Esta conta, afinal, é a minha…)

    Post 846      (Imagem daqui)

15 de julho de 2012

Capturar

Ouça a nova selecção musical que preparei para si. Desligue por momentos a rádio do blogue e clique no botão play do tralapraki rádio, mesmo aqui ao lado.

Uma selecção de 6 faixas fabulosas por semana.

12 de julho de 2012

Acções de formação e rendas de bilros (parte 1)

“Bom, já que tenho que me apresentar, aí vai. Chamo-me Fausto Lindoso e sou, obviamente, natural do Concelho de Biana do Castelo. Sou professor de Trabalhos Manuais na Escola B2/3 da Mamarrosa do Botão. Tudo corria pacatamente, ensinava origami às terças e quintas e bordados regionais às segundas, quartas e sextas. Quis o destino que fosse fazer uma acção de formação, para tentar mudar de escalão. Como de costume, inscrevi-me sem ver de que acção se tratava. Quando me apresentei no dia e hora combinados para a primeira sessão, verifiquei que se tratava de Educação Sexual em Meio Escolar. Mas, enfim, já lá estava dentro e um homem nunca recua.

Lembrei-me de ter ouvido falar dessas acções. Pessoas equilibradas que incautamente as frequentaram tiveram que fazer de Júlio Machado Vaz para o resto das suas vidas académicas. Na verdade, sempre achara essas histórias um tanto exageradas. Na minha mente, uma simples acção de formação não pode ter repercussões tão nefastas na vida de um cidadão, ainda que se trate de uma acção inconcebivelmente ousada e perturbadora. Foi exactamente por partir do pressuposto da sua sã inoquidade que me derramei na cadeira de fórmica e abandonei definitivamente a ideia de me ir embora, como tantas vezes fizera já, sobretudo naquelas acções sobre autonomia e aprender a aprender que foram moda nos anos 90 e que agora já não têm praticamente nenhuma saída.

Fiquei. Fizemos logo um teste de múltipla escolha para diagnosticar o nosso estado de conhecinmentos e, enfim, despistar eventuais taras dos formandos. Eu, depois de pensar um pouco, achei que deveria errar duas ou três questões para justificar a minha permanência na acção e também para elevar um pouco a auto-estima da formadora, a Dra Isolina Meneses, 62 anos, casada, divorciada, casada outra vez e de novo divorciada e, ao mesmo tempo, convencê-la em definitivo da importância e premência da acção de formação que desencadeara, sabe-se lá porquê. No último teste acertaria todas as perguntas, facto que daria à formadora a sensação da enorme utilidade das suas aulas e lhe inflamaria o ego, se este, obviamente, possuísse algo de combustível.

Não possuía, na verdade, antes se tratava de um ego adormecido e aquoso, residindo a explicação do facto na sua avançada idade bem como na avançada idade de todos os formandos desta enternecedora classe de jarretas.

Porém, das verdadeiras repercussões que esta acção tomaria no futuro vos darei conta em tempo oportuno, isto é, num momento em que não venha nada a propósito e em que as duas pessoas que leram isto já tenham, eventualmente, emigrado.”

(Continua…)

     Post 845       (Imagem daqui)

11 de julho de 2012

Capturar

TRALAPRAKI RADIO    Ouça a nova selecção de música que preparei para si. Está aqui ao lado, na barra lateral, no Tralapraki Radio. É só clicar, como sempre. Desligue, por momentos a rádio da blogue, situada um pouco mais abaixo.

quatro euros à hora é muito ou pouco?

Não, não estou a fazer piadinha de mau gosto. Quatro euros à hora pode significar um salário mensal praticamente soberbo, pelo menos na minha opinião, que sou um pobretanas. A confusão é simples de explicar e reside numa das muitas mistificações de que toda a sociedade portuguese enferma. Ora, um mês tem, como se sabe, 720 horas. Se estas horas forem contabilizadas como horas de trabalho, apesar de nelas estarem incluídas os lazeres (repare-se que o lazer é parte essencial do trabalho, pois é no lazer que o trabalho se prepara e planifica), uma pessoa que ganhe quatro euros por hora receberá no fim do mês um salário líquido de 2.880 euros. Nada mau.

Se, no entanto, considerarmos apenas as horas efectivas de trabalho que se tem num mês, ou seja, uma média de 160 horas, o mesmo indivíduo auferirá pouco mais que o salário mínimo, o que, em boa verdade, não é aconselhável nem a enfermeiros nem a doentes, isto é, serão uns simpáticos 640 euros por mês, livres de impostos, ou não. E aí está a segunda mistificação: nunca sabemos se os números apresentados se referem a salários líquidos ou ilíquidos. Cumpre-me aqui explicar o que é um e outro, de modo claro e inequívoco: salário ilíquido é aquele que o patronato diz que a gente realmente ganha; salário líquido é aquele que nos dão, depois de nos retirarem uma boa porção que a gente acredita vir a reverter, no futuro, em bem da comunidade e, com um pouco de sorte, em nosso próprio bem. É graças a esses impostos, a essa pequena espoliação que viram aplicada aos seus salários durante décadas, que hoje todos os reformados e pensionistas vivem uma vida de regalias, poder económico, saúde e prazeres infindos…

(E, afinal, quatro euros por hora é muito ou pouco? E isto é líquido, ou ilíquido?)

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7 de julho de 2012

Exultai! Vem aí um novo ano lectivo!

Dentro de dois meses deve começar mais um ano lectivo. Digo “deve” no sentido de probabilidade e não de obrigação. Na verdade, tudo se inclina para que o próximo ano lectivo seja mais um ano, sem dúvida, com trezentos e tal dias de penúria, como o seu antecessor, mas muito pouco lectivo, talvez ainda menos do que este foi.

E, se por um acaso, o for ainda menos, este ano que ai vem arrisca-se a produzir uma lectividade abaixo de zero, já que a anterior se quedou pela nulidade absoluta. Se não, vejamos: vão sair do sistema algumas centenas de bons professores. Enquanto isso, entrarão nele alguns milhares de maus alunos. Basta esta previsível ocorrência para augurarmos o cenário que acabo de traçar, ou, presumivelmente, um pouco pior ainda, se as elites do sistema persistirem em confundir ensino com ATL, e trabalho/estudo com actividades ao ar livre e festinhas publicitárias para promover as escolas, tornadas agora empresas de produção de chouriços diplomados e restante charcutaria bolonhesa ou afim.

Poderemos ainda, com alguma facilidade, conceber uma alteração substancial do sistema educativo, mudando-o de absolutamente inútil (posição que mantém agora) para eventualmente adverso, posição que atingirá brevemente, estabelecidas que sejam as condições ideais. Este desiderato de passar de academicamente imprestável para socialmente prejudicial será alcançado se os professores que ficarem no sistema forem os que obtiverem as melhores classificações na avaliação de desempenho, ou seja, os mais industriosos, os mais ardilosos, os mais mesquinhos, os mais arrogantes, os mais convencidos, os mais legalistas, os mais burocratas, os mais desonestos. Numa palavra, tudo o que não faz falta nenhuma ao ensino em Portugal.

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29 de junho de 2012

instituto das novas profissões

erin-wasson-roupas-femininas-e1335456047260Martim tem uma profissão nova: abre buracos em calças de ganga. Depois de um moroso e competentíssimo curso de formação, estabeleceu-se por conta própria ali à Rua de Trás. Todos os dias recebe oito pares de calças, produzindo por dia, com minúcia e arte, outros tantos buracos em cada par. São, portanto, sessenta e quatro buracos que o Martim abre entre as 9 da manhã e as seis da tarde. O preço ajustado com a Maconde é de 50 cêntimos por buraco médio, podendo ir até 80, nos casos de buracos que ultrapassem metade da largura da perneira da calça. Martim, foge, no entanto, deste tipo de buraco, como o Diabo da Cruz, pois, no seu esmerado dizer, torna-se complicado controlar um buraco tão grande. Parecendo que não, alguns buracos adquirem praticamente vida própria, impõem-se com violência à restante perneira e nunca se pode adivinhar que desaire ou calamidade daí possa resultar.

Esquecendo, então, os buracos demasiado esbarrumbados, o Martim ganha por dia uma média de trinta e dois euros, totalmente isentos de impostos. Abrir buracos é, ao contrário de tapá-los, uma actividade ainda não reconhecida. Trata-se, por enquanto, de uma não profissão, dado que o resultado do trabalho não é um produto, mas um não-produto, dotado de uma certa não-existência. Se trabalhar 22 dias por mês, o Martim recebe setecentos e quatro euros, de onde retira apenas trezentos, destinados a rúcula e a cedês raríssimos dos Village People. Martim é um exemplo de inventiva, arrojo e espírito empresarial para todos os jovens desempregados.

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20 de junho de 2012

Montgolfier, Montgonflier, mon Dieu…

Quando éramos schoolburros* do quinto ano, actual nono ano, éramos bons alunos e estudávamos um bocado. Não porque gostássemos de estudar (éramos garotos normais, que diabo), mas simplesmente porque todos ansiávamos ver reduzido o número de varadas que, de ordinário, nos caía pelas orelhas abaixo, especialmente nas aulas de Física.

Ora, os irmãos Montgolfier tinham construído no século XVIII um diacho de um balão que se elevou no ar sozinho, perante a admiração de todos, faz agora uns 230 anos e o Sequeira sabia isto tudo, com pormenores que nem o professor conhecia. Apesar disso, nunca se livrou das vergastadas nas orelhas, simplesmente porque dizia Montgonflier em vez de Montgolfier. E o Sequeira nunca se queixou do professor de Física, mas sim do cientista do balão, que tinha um nome impronunciável.

(Em se tratando de um blogue sobre educação, o Tralapraki está amplamente justificado por ter trazido a lume este modesto incidente que, obviamente, esclarece à saciedade o tipo de relação que os professores mantinham com os alunos nos idos de sessenta, ou seja, uma relação confortavelmente estável.)

Mas, que fique claro, não foi esta a razão por que me lembrei disto hoje. A razão é que, vejam lá, encontrei ontem o Sequeira, vindo de França para um mês de férias aqui na praia de Mira (onde é que eu já li isto?). E não sei se foi da cerveja ou de alguma reminiscência que o seu rosto me tivesse sugerido, lembrei-me claramente do professor de Física e do balão admirável de Joseph e Jaques e, claro, das bordoadas.

- Já sabes como se chamam os irmãos que lançaram um balão em 1783? – perguntei-lhe eu, quarenta e sete anos depois das varadas, na espectativa de uma resposta que nos remetesse, sem brumas nem omissões, à nossa esplendorosa adolescência.

- Agora sei.– disse o Sequeira. - Eram os irmãos Montgonflier… Calma, eu disse Montgonflier para me vingar desses franceses ridículos, amiguinhos da Merkel, que não me dão a reforma por inteiro. E também porque não vi nenhuma vara nas redondezas, é claro. Mas é Montgolfier o nome atoleimado desses dois irmãos imprestáveis, que nem sequer inventaram o balão. Quem o inventou foi um português de nome escorreito, o padre Bartolomeu de Gusmão. Ainda bem que vim a tempo de ver os quartos de final aqui na minha terra!

 

*Schoolburros – termo inventado pelo João Luís que tinha dificuldade em dizer schoolfellows.

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16 de junho de 2012

Espectáculo!!!...

Dois dos meus alunos do 10º ano pegaram-se ontem numa interessante cena de pancadaria.

Ao contrário da habitual reacção que desencadeio quando a pancada se dirige a mim próprio e que é, no mínimo, instantânea, desta vez demorei o tempo que achei necessário para perceber o facto e, obviamente, para tentar prolongar o mais possível o íntimo prazer que me estava a dar ver outros, que não eu, apanhar uma valente coça

De modo que deixei, calmamente, as mesas estatelarem-se ao longo da sala, os sopapos estalarem de ambos os lados, os olhos matizarem-se alegremente de roxo e os narizes esborracharem-se sob o impacto de murros e cotoveladas. (Um espectáculo gratuito, de tão elevada qualidade, não acontece todos os dias. A sua estranheza fazia dele um momento histórico digno de um post, uma crónica, um compêndio de civilidade e etiqueta).

Não sei que pensamentos ou sentimentos a restante turma desenvolveu mediante o inusitado espectáculo. Quanto a mim, tive tempo de sobra para a íntima e, obviamente, reprovável alegria de verificar que dois alunos da pior espécie representavam ali, diante dos meus olhos alegremente atónitos, a cena que tantas vezes eu próprio tinha sonhado.

Introduzamos aqui um pouco mais de precisão: a cena recorrentemente sonhada não era exactamente esta. Ela envolvia, de facto, três actores e não apenas dois. Havia um primeiro actor, único protagonista digno deste nome, eu, esmurrando aqueles dois, ou quaisquer outros dois, já que a turma é generosamente rica em espécimes deste jaez.

Sonhos são sonhos e, seja pelo estatuto do aluno, seja pela arrogância e voracidade dos pais, ou seja pela minha notória decrepitude, a cena, do modo como tantas vezes foi desenhada, nunca aconteceu de facto, graças a Deus e aos obstáculos com que sempre atravanco a distância que separa o sonho/desejo da realidade/facto.

Mas não me queixo. A cena foi diferente, eu não estava nela, mas foi igualmente enternecedora e totalmente satisfatória.

Ao fim de vários segundos de divertidíssima violência, um pouco antes de os primeiros pingos vermelhos aflorarem ao trombil dos contendores, acabei finalmente por intervir em nome do regulamento geral dos espectáculos, expulsando-os da sala, marcando faltas disciplinares e tomando algumas notas para uma futura participação de ocorrência.

Aconteceu ontem, na última aula do curso, facto que impossibilita o acesso a qualquer hipótese de repetição da cena, pelo menos neste ano lectivo. Enfim, antes pouco que nada!

Tudo terminado, havia em alguns rostos o desânimo do fim do circo. Quanto ao meu rosto, nada posso garantir sobre o que nele havia... (Não possuo feedback autónomo sobre as minhas expressões faciais).

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15 de junho de 2012

Escola tecnológica é outro luxo…

imageNa sequência de várias fraudes que ocorreram em anos anteriores, em período de exames, e que se prendiam com erros de identificação dos candidatos (nomes demasiado semelhantes, gémeos que se fizeram passar pelos irmãos, etc.), a escola pública portuguesa, num louvável esforço de exigência, rectidão e amor pela honestidade de processos (como tem sido, aliás, seu apanágio), introduziu recentemente o eye-scanning que,  em português nortenho, se pode e deve traduzir por digitalização do olho. Trata-se de um aparelho que lê as características do olho, únicas em cada indivíduo, e que provou ser mais certeiro que a tradicional identificação por fotografia, impressão digital, ou mesmo a presença de um compadre ou de um vizinho do aluno em causa. Além de tudo, num momento em que o tempo é absolutamente precioso, como é o caso dos exames, o sistema apresenta uma rapidez de processos absolutamente estonteante. É tudo simples e intuitivo. Os scanners estão instalados nos assentos das cadeiras. O candidato a exame senta-se e fica automaticamente identificado, seja qual for o tipo de cuecas que use, ou mesmo que tenha optado por calças ou saias decentes, em vez das tradicionais calças descidas ou de mini-saias transparentes…

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