No estabelecimento de ensino por onde há quarenta anos arrasto o resto da docentíssima carcaça que o tempo me outorgou, há um elevador surpreendente.
Na verdade, aquele ditoso cubículo de lata não é um elevador, encarregado da simples e prosaica tarefa de levar aos pisos de cima todos os trôpegos e cambaios que atravancam as salas e os corredores da educação em Portugal. Aquele admirável cubículo supera essa basilar função e guinda-se (embora de modo inconsciente, como suponho que se guindam todos os objectos materiais) à categoria de uma válvula despressurizadora de tensões acumuladas na indigestão das aulas, um gabinete de massagens à alma, uma caixa de música do romantismo tardio, uma healthy booth redentora da humanidade sofrida.
Deixei as escadas que o médico me prescreveu o ano passado, com o inocente intuito de subtrair alguns centímetros à minha barriga, e passei a utilizar o milagroso ascensor em todas as minhas deslocações verticais. Nem a barriga me é assim tão insustentável (raramente penetra no espaço de manobra destinado às barrigas dos outros), nem o exercício do degrau ma alisou de modo observável. Por isso, e desde que descobri as propriedades medicinais daquele miraculoso elevador, acalento deveras a hipótese de que o director me promova de professor a ascensorista.
Os meus estimados leitores, perspicazes, tanto quanto curiosos, estarão certamente a perguntar-se o que tem de tão especial um vulgaríssimo elevador de alumínio que passa a sua vida útil a subir e descer por um fosso escuro, preso a uma corda de aço. E eu lhes respondo, de modo mais sucinto que o tempo que o dito leva a ir de um piso ao seguinte: é o espelho. Sim, um encantatório espelho que nos devolve uma imagem lindíssima. Não sei como isso é feito, que truques vítreos, que técnicas ópticas foram experimentadas neste enorme espelho que transforma um abatido e desclassificado professor de sessenta anos num jovem de 50 anos ou menos, de boas cores, penteado frondoso, figura esbelta e um olhar de simpática e ternurenta afabilidade, apesar da vida decepcionantemente parva que fora deste elevador se semeia todos os dias… E, posta de lado a possibilidade real de este elevador estar impregnado de alguma substância psicotrópica que nos aliene, não restam dúvidas de que possui alguma fórmula mágica que nos robustece a alma e nos desanuvia as horas.
Miúdas de todas as idades debatem-se por um lugar no elevador, e não deve ser pelo despoetizado dever de ir parar ao andar de cima sem se cansarem. Enquanto o elevador as transporta, devolve-lhes imagens que as seduzem e as envolvem no deleite de sonhos lindos, de desejos realizáveis. Passam dedos longos por cabelos sobejos e piscam felizes os olhos ao espelho reparador.
E eu fico a pensar que quero mesmo ser ascensorista, ainda que para isso tenha que fazer um doutoramento qualquer que me permita passar o resto dos meus dias neste elevador-colírio, retemperador e salubre. É que a vida, ladeira acima, diante daquele jovial espelho, profusamente ilustrada de jovens narcísicas, tem decerto outra dimensão…
Post 854 (Imagem daqui)
E eis que se sentou à sua frente um aluno que tinha os ouvidos tapados e a língua presa e já tinha reprovado duas vezes. E Jesus, condoendo-se do aluno, meteu-lhe os dedos nos ouvidos que logo se abriram para o mundo. E depois, tocando a sua língua com o indicador direito, perguntou-lhe: “Que fazias tu enquanto os outros estudavam as if-clauses e o reported speech?” E logo o aluno se pôs a falar fluentemente em Inglês correcto, até com um leve sotaque a Celine Dion, e conseguiu arrancar um dez. Palavras da Salvação.
Este blogue foi primariamente concebido para acompanhar as problemáticas referentes à questão educacional em Portugal. De algum modo, conseguiu fazê-lo, sobretudo nas momentos mais decisivos da luta dos professores, escrevendo textos originais ou fazendo-se eco de artigos publicados em blogues congéneres ou na imprensa escrita e falada de referência.
Dona Conceição – “Quanto é que o Governo paga por cada hectare ardido?” Um bombeiro – “No momento, o Governo paga só trezentos euros por hectare de mata ardida”. Dona Conceição regressou a casa e perguntou ao marido: “Olha lá, homem, quanto custa aquela geringonça que pega fogo à mata?” – “Que coisa?” – “Aquela coisa que deflagra nas matas e pega-lhes o fogo”. – “Ah, isso é baratucho, custa uns cinco ou seis euros. Mas tu queres pôr fogo às nossas terras?” – “Quero. Temos seis hectares que nunca nos deram nada. Se a gente lhes puser o fogo, o governo dá-nos 1800 euros e ainda vamos aparecer na televisão para falar mal dele e dos bombeiros. Desde que não nos arda a horta e a casota…”
Ora bem, eu sou funcionário público, professor do ensino secundário, e estou, portanto, a pagar a crise que os capitalistas criaram e que os seus lacaios de libré, os políticos neo-liberalengos, têm vindo a tentar resolver a contento de alguns, extorquindo quase tudo o que resta ao proletariado que, sabe-se lá por que reviravolta histórica, inclui hoje a classe média e, por conseguinte, todos os professores e restantes funcionários do estado. Estou, portanto, segura e paulatinamente, a construir um invejável currículo de corno paciente, mas ainda estou muito longe da santidade. Está certo, eu trabalhei às ordens da Dra Gilda Corte-Real e da Dra Albertina Brito, leccionei o 7ºA e o 10L Profissional de Informática, fui secretário do Eng. Manuel Oliveira, mas falta-me ainda um pouco para atingir a plenitude de um mártir.