Este blogue foi primariamente concebido para acompanhar as problemáticas referentes à questão educacional em Portugal. De algum modo, conseguiu fazê-lo, sobretudo nas momentos mais decisivos da luta dos professores, escrevendo textos originais ou fazendo-se eco de artigos publicados em blogues congéneres ou na imprensa escrita e falada de referência.
No entanto, sempre que outros assuntos (ainda que parecendo fora do domínio da Educação) se apresentavam à distância de tiro, este blogue também não recusou disparar, por considerar que havia sempre, pelo menos, duas razões principais para o fazer: a primeira prende-se com o facto de dificilmente qualquer assunto se afastar tanto assim da questão educacional a ponto de não lhe pertencer de todo; a segunda responde ao ímpeto incontrolável de vociferar contra todas as torpezas de que a classe política, empresarial, e restante fauna destrutiva é absolutamente pródiga neste país à beira-mar pasmado. E, nestes casos, a poupança de munições pode ser mais contraproducente do que benéfica e saneadora. Não se trata de disparar sobre tudo o que mexe, mas de abater aquilo que mexe de modo assustadoramente errado.
Sempre que por aqui extravasei alguma indignação, fi-lo sob dois estilos, presumivelmente diferenciados: aquele que poderei considerar sério, claro e directo, assumido e verdadeiro, destituído de ambiguidades semiológicas; um outro mais ligeiro e despreocupado. No primeiro caso, a contenção exigida às palavras de quem escreve e publica de modo identificado e não anónimo, como é o meu caso, levou-me a evitar sempre qualquer espécie de deselegância ou impropério e a controlar devidamente todas as formas caluniosas contra pessoas concretas e singulare, ainda que, em certos momentos, apeteça disparar contra elas, mesmo no escuro. Quanto ao segundo estilo, aquele em que, inconscientemente, tentei fazer curtas e medíocres incursões pelo humor literário, saíram-me, de facto, alguns termos insultuosos que devem, no entanto, permanecer no domínio da ironia, do sarcasmo irrelevante, enfim, no domínio da sátira, da palhaçada, da paródia nacional porreirista. Desejo que, neste caso, os eventuais visados considerem irrelevantes tais procedimentos linguísticos, para que eu possa ter as férias que mereço, apesar de não ter dinheiro para as pagar. Ao nível das ilustrações de cada post, tentei sempre clarificar a qual dos dois estilos eles pertenceriam, colocando imagens realistas para o primeiro caso e cartoons mais ou menos epigramáticos para o segundo.
Pronto, já posso ir para férias um pouco mais descansado. Sabe-se lá que olhos maldosos ou vingativos podem vir a ler o Tralapraki. Na silly season, tudo pode acontecer…
Fica aqui também um grande abraço para todos os que tiveram a pachorra de alguma vez (ou algumas vezes) lerem as minhas lucubrações blogosféricas. Boas férias.
Post 852 (Imagem do blogue)
Dona Conceição – “Quanto é que o Governo paga por cada hectare ardido?” Um bombeiro – “No momento, o Governo paga só trezentos euros por hectare de mata ardida”. Dona Conceição regressou a casa e perguntou ao marido: “Olha lá, homem, quanto custa aquela geringonça que pega fogo à mata?” – “Que coisa?” – “Aquela coisa que deflagra nas matas e pega-lhes o fogo”. – “Ah, isso é baratucho, custa uns cinco ou seis euros. Mas tu queres pôr fogo às nossas terras?” – “Quero. Temos seis hectares que nunca nos deram nada. Se a gente lhes puser o fogo, o governo dá-nos 1800 euros e ainda vamos aparecer na televisão para falar mal dele e dos bombeiros. Desde que não nos arda a horta e a casota…”
Ora bem, eu sou funcionário público, professor do ensino secundário, e estou, portanto, a pagar a crise que os capitalistas criaram e que os seus lacaios de libré, os políticos neo-liberalengos, têm vindo a tentar resolver a contento de alguns, extorquindo quase tudo o que resta ao proletariado que, sabe-se lá por que reviravolta histórica, inclui hoje a classe média e, por conseguinte, todos os professores e restantes funcionários do estado. Estou, portanto, segura e paulatinamente, a construir um invejável currículo de corno paciente, mas ainda estou muito longe da santidade. Está certo, eu trabalhei às ordens da Dra Gilda Corte-Real e da Dra Albertina Brito, leccionei o 7ºA e o 10L Profissional de Informática, fui secretário do Eng. Manuel Oliveira, mas falta-me ainda um pouco para atingir a plenitude de um mártir.
“Bom, já que tenho que me apresentar, aí vai. Chamo-me Fausto Lindoso e sou, obviamente, natural do Concelho de Biana do Castelo. Sou professor de Trabalhos Manuais na Escola B2/3 da Mamarrosa do Botão. Tudo corria pacatamente, ensinava origami às terças e quintas e bordados regionais às segundas, quartas e sextas. Quis o destino que fosse fazer uma acção de formação, para tentar mudar de escalão. Como de costume, inscrevi-me sem ver de que acção se tratava. Quando me apresentei no dia e hora combinados para a primeira sessão, verifiquei que se tratava de Educação Sexual em Meio Escolar. Mas, enfim, já lá estava dentro e um homem nunca recua.
Não, não estou a fazer piadinha de mau gosto. Quatro euros à hora pode significar um salário mensal praticamente soberbo, pelo menos na minha opinião, que sou um pobretanas. A confusão é simples de explicar e reside numa das muitas mistificações de que toda a sociedade portuguese enferma. Ora, um mês tem, como se sabe, 720 horas. Se estas horas forem contabilizadas como horas de trabalho, apesar de nelas estarem incluídas os lazeres (repare-se que o lazer é parte essencial do trabalho, pois é no lazer que o trabalho se prepara e planifica), uma pessoa que ganhe quatro euros por hora receberá no fim do mês um salário líquido de 2.880 euros. Nada mau.