Isabel Jonet esteve num canal de TV agora mesmo. Traçou uma panorâmica hiper-realista da sociedade portuguesa. Não deixou ninguém incólume. Falou das falcatruas e da falta de transparência dos políticos portugueses, incapazes de liderar uma cortelha de galinhas, quanto mais uma nação inteira oprimida por uma crise internacional. Isabel não deixou imune nem o banqueiro ambicioso, nem o lavador de dinheiro, nem o traficante de influências, nem mesmo o povinho néscio que se deixou catequizar pelo conceito de um capitalismo poderoso, democrático e abrangente – um povinho provinciano que achou que era rico, quando os ricos lhe permitiram a entrada no clube.
Falou de uma juventude desempregada e sofredora e contudo ainda parvinha, rebolando-se, bêbada de ignorância, nos relvados dos concertos de rock. Falou dos pais cretinos dessa juventude que lhe pagaram o bilhete. Falou de uma sociedade desarticulada, boçal, néscia e malcriada que não ouve ninguém a não ser os poderosos, os ricalhaços, os famosos, os futebolistas e os cantores cana-rachada da mais destemperada e primária “música” que se conhece.
E não esqueceu um povo tão corrupto e incompetente como os seus líderes, mas que não aceita nenhuma culpa e espera que alguém na Europa lhe resolva o problema que lhe criou. Não se esqueceu de que, no meio desse povo ascético e inocente, nasceram víboras que maltratam velhos e deitam fogo às terras dos pobres, pelo simples facto de que não são suas.
Enfim, ficou-se por estes aspectos, por falta de tempo, mas disse mais que o suficiente para quem quis ouvir e aprender.
Post 848 (Imagem daqui)
Ora bem, eu sou funcionário público, professor do ensino secundário, e estou, portanto, a pagar a crise que os capitalistas criaram e que os seus lacaios de libré, os políticos neo-liberalengos, têm vindo a tentar resolver a contento de alguns, extorquindo quase tudo o que resta ao proletariado que, sabe-se lá por que reviravolta histórica, inclui hoje a classe média e, por conseguinte, todos os professores e restantes funcionários do estado. Estou, portanto, segura e paulatinamente, a construir um invejável currículo de corno paciente, mas ainda estou muito longe da santidade. Está certo, eu trabalhei às ordens da Dra Gilda Corte-Real e da Dra Albertina Brito, leccionei o 7ºA e o 10L Profissional de Informática, fui secretário do Eng. Manuel Oliveira, mas falta-me ainda um pouco para atingir a plenitude de um mártir.
“Bom, já que tenho que me apresentar, aí vai. Chamo-me Fausto Lindoso e sou, obviamente, natural do Concelho de Biana do Castelo. Sou professor de Trabalhos Manuais na Escola B2/3 da Mamarrosa do Botão. Tudo corria pacatamente, ensinava origami às terças e quintas e bordados regionais às segundas, quartas e sextas. Quis o destino que fosse fazer uma acção de formação, para tentar mudar de escalão. Como de costume, inscrevi-me sem ver de que acção se tratava. Quando me apresentei no dia e hora combinados para a primeira sessão, verifiquei que se tratava de Educação Sexual em Meio Escolar. Mas, enfim, já lá estava dentro e um homem nunca recua.
Não, não estou a fazer piadinha de mau gosto. Quatro euros à hora pode significar um salário mensal praticamente soberbo, pelo menos na minha opinião, que sou um pobretanas. A confusão é simples de explicar e reside numa das muitas mistificações de que toda a sociedade portuguese enferma. Ora, um mês tem, como se sabe, 720 horas. Se estas horas forem contabilizadas como horas de trabalho, apesar de nelas estarem incluídas os lazeres (repare-se que o lazer é parte essencial do trabalho, pois é no lazer que o trabalho se prepara e planifica), uma pessoa que ganhe quatro euros por hora receberá no fim do mês um salário líquido de 2.880 euros. Nada mau.
Dentro de dois meses deve começar mais um ano lectivo. Digo “deve” no sentido de probabilidade e não de obrigação. Na verdade, tudo se inclina para que o próximo ano lectivo seja mais um ano, sem dúvida, com trezentos e tal dias de penúria, como o seu antecessor, mas muito pouco lectivo, talvez ainda menos do que este foi.
Quando éramos schoolburros* do quinto ano, actual nono ano, éramos bons alunos e estudávamos um bocado. Não porque gostássemos de estudar (éramos garotos normais, que diabo), mas simplesmente porque todos ansiávamos ver reduzido o número de varadas que, de ordinário, nos caía pelas orelhas abaixo, especialmente nas aulas de Física.
Dois dos meus alunos do 10º ano pegaram-se ontem numa interessante cena de pancadaria.