11 de julho de 2012

quatro euros à hora é muito ou pouco?

Não, não estou a fazer piadinha de mau gosto. Quatro euros à hora pode significar um salário mensal praticamente soberbo, pelo menos na minha opinião, que sou um pobretanas. A confusão é simples de explicar e reside numa das muitas mistificações de que toda a sociedade portuguese enferma. Ora, um mês tem, como se sabe, 720 horas. Se estas horas forem contabilizadas como horas de trabalho, apesar de nelas estarem incluídas os lazeres (repare-se que o lazer é parte essencial do trabalho, pois é no lazer que o trabalho se prepara e planifica), uma pessoa que ganhe quatro euros por hora receberá no fim do mês um salário líquido de 2.880 euros. Nada mau.

Se, no entanto, considerarmos apenas as horas efectivas de trabalho que se tem num mês, ou seja, uma média de 160 horas, o mesmo indivíduo auferirá pouco mais que o salário mínimo, o que, em boa verdade, não é aconselhável nem a enfermeiros nem a doentes, isto é, serão uns simpáticos 640 euros por mês, livres de impostos, ou não. E aí está a segunda mistificação: nunca sabemos se os números apresentados se referem a salários líquidos ou ilíquidos. Cumpre-me aqui explicar o que é um e outro, de modo claro e inequívoco: salário ilíquido é aquele que o patronato diz que a gente realmente ganha; salário líquido é aquele que nos dão, depois de nos retirarem uma boa porção que a gente acredita vir a reverter, no futuro, em bem da comunidade e, com um pouco de sorte, em nosso próprio bem. É graças a esses impostos, a essa pequena espoliação que viram aplicada aos seus salários durante décadas, que hoje todos os reformados e pensionistas vivem uma vida de regalias, poder económico, saúde e prazeres infindos…

(E, afinal, quatro euros por hora é muito ou pouco? E isto é líquido, ou ilíquido?)

    Post 844      (Imagem daqui)

7 de julho de 2012

Exultai! Vem aí um novo ano lectivo!

Dentro de dois meses deve começar mais um ano lectivo. Digo “deve” no sentido de probabilidade e não de obrigação. Na verdade, tudo se inclina para que o próximo ano lectivo seja mais um ano, sem dúvida, com trezentos e tal dias de penúria, como o seu antecessor, mas muito pouco lectivo, talvez ainda menos do que este foi.

E, se por um acaso, o for ainda menos, este ano que ai vem arrisca-se a produzir uma lectividade abaixo de zero, já que a anterior se quedou pela nulidade absoluta. Se não, vejamos: vão sair do sistema algumas centenas de bons professores. Enquanto isso, entrarão nele alguns milhares de maus alunos. Basta esta previsível ocorrência para augurarmos o cenário que acabo de traçar, ou, presumivelmente, um pouco pior ainda, se as elites do sistema persistirem em confundir ensino com ATL, e trabalho/estudo com actividades ao ar livre e festinhas publicitárias para promover as escolas, tornadas agora empresas de produção de chouriços diplomados e restante charcutaria bolonhesa ou afim.

Poderemos ainda, com alguma facilidade, conceber uma alteração substancial do sistema educativo, mudando-o de absolutamente inútil (posição que mantém agora) para eventualmente adverso, posição que atingirá brevemente, estabelecidas que sejam as condições ideais. Este desiderato de passar de academicamente imprestável para socialmente prejudicial será alcançado se os professores que ficarem no sistema forem os que obtiverem as melhores classificações na avaliação de desempenho, ou seja, os mais industriosos, os mais ardilosos, os mais mesquinhos, os mais arrogantes, os mais convencidos, os mais legalistas, os mais burocratas, os mais desonestos. Numa palavra, tudo o que não faz falta nenhuma ao ensino em Portugal.

    Post  843       (Imagem daqui)

29 de junho de 2012

instituto das novas profissões

erin-wasson-roupas-femininas-e1335456047260Martim tem uma profissão nova: abre buracos em calças de ganga. Depois de um moroso e competentíssimo curso de formação, estabeleceu-se por conta própria ali à Rua de Trás. Todos os dias recebe oito pares de calças, produzindo por dia, com minúcia e arte, outros tantos buracos em cada par. São, portanto, sessenta e quatro buracos que o Martim abre entre as 9 da manhã e as seis da tarde. O preço ajustado com a Maconde é de 50 cêntimos por buraco médio, podendo ir até 80, nos casos de buracos que ultrapassem metade da largura da perneira da calça. Martim, foge, no entanto, deste tipo de buraco, como o Diabo da Cruz, pois, no seu esmerado dizer, torna-se complicado controlar um buraco tão grande. Parecendo que não, alguns buracos adquirem praticamente vida própria, impõem-se com violência à restante perneira e nunca se pode adivinhar que desaire ou calamidade daí possa resultar.

Esquecendo, então, os buracos demasiado esbarrumbados, o Martim ganha por dia uma média de trinta e dois euros, totalmente isentos de impostos. Abrir buracos é, ao contrário de tapá-los, uma actividade ainda não reconhecida. Trata-se, por enquanto, de uma não profissão, dado que o resultado do trabalho não é um produto, mas um não-produto, dotado de uma certa não-existência. Se trabalhar 22 dias por mês, o Martim recebe setecentos e quatro euros, de onde retira apenas trezentos, destinados a rúcula e a cedês raríssimos dos Village People. Martim é um exemplo de inventiva, arrojo e espírito empresarial para todos os jovens desempregados.

     Post 842       (Imagem daqui)

20 de junho de 2012

Montgolfier, Montgonflier, mon Dieu…

Quando éramos schoolburros* do quinto ano, actual nono ano, éramos bons alunos e estudávamos um bocado. Não porque gostássemos de estudar (éramos garotos normais, que diabo), mas simplesmente porque todos ansiávamos ver reduzido o número de varadas que, de ordinário, nos caía pelas orelhas abaixo, especialmente nas aulas de Física.

Ora, os irmãos Montgolfier tinham construído no século XVIII um diacho de um balão que se elevou no ar sozinho, perante a admiração de todos, faz agora uns 230 anos e o Sequeira sabia isto tudo, com pormenores que nem o professor conhecia. Apesar disso, nunca se livrou das vergastadas nas orelhas, simplesmente porque dizia Montgonflier em vez de Montgolfier. E o Sequeira nunca se queixou do professor de Física, mas sim do cientista do balão, que tinha um nome impronunciável.

(Em se tratando de um blogue sobre educação, o Tralapraki está amplamente justificado por ter trazido a lume este modesto incidente que, obviamente, esclarece à saciedade o tipo de relação que os professores mantinham com os alunos nos idos de sessenta, ou seja, uma relação confortavelmente estável.)

Mas, que fique claro, não foi esta a razão por que me lembrei disto hoje. A razão é que, vejam lá, encontrei ontem o Sequeira, vindo de França para um mês de férias aqui na praia de Mira (onde é que eu já li isto?). E não sei se foi da cerveja ou de alguma reminiscência que o seu rosto me tivesse sugerido, lembrei-me claramente do professor de Física e do balão admirável de Joseph e Jaques e, claro, das bordoadas.

- Já sabes como se chamam os irmãos que lançaram um balão em 1783? – perguntei-lhe eu, quarenta e sete anos depois das varadas, na espectativa de uma resposta que nos remetesse, sem brumas nem omissões, à nossa esplendorosa adolescência.

- Agora sei.– disse o Sequeira. - Eram os irmãos Montgonflier… Calma, eu disse Montgonflier para me vingar desses franceses ridículos, amiguinhos da Merkel, que não me dão a reforma por inteiro. E também porque não vi nenhuma vara nas redondezas, é claro. Mas é Montgolfier o nome atoleimado desses dois irmãos imprestáveis, que nem sequer inventaram o balão. Quem o inventou foi um português de nome escorreito, o padre Bartolomeu de Gusmão. Ainda bem que vim a tempo de ver os quartos de final aqui na minha terra!

 

*Schoolburros – termo inventado pelo João Luís que tinha dificuldade em dizer schoolfellows.

    Post  841        (Imagem daqui)

16 de junho de 2012

Espectáculo!!!...

Dois dos meus alunos do 10º ano pegaram-se ontem numa interessante cena de pancadaria.

Ao contrário da habitual reacção que desencadeio quando a pancada se dirige a mim próprio e que é, no mínimo, instantânea, desta vez demorei o tempo que achei necessário para perceber o facto e, obviamente, para tentar prolongar o mais possível o íntimo prazer que me estava a dar ver outros, que não eu, apanhar uma valente coça

De modo que deixei, calmamente, as mesas estatelarem-se ao longo da sala, os sopapos estalarem de ambos os lados, os olhos matizarem-se alegremente de roxo e os narizes esborracharem-se sob o impacto de murros e cotoveladas. (Um espectáculo gratuito, de tão elevada qualidade, não acontece todos os dias. A sua estranheza fazia dele um momento histórico digno de um post, uma crónica, um compêndio de civilidade e etiqueta).

Não sei que pensamentos ou sentimentos a restante turma desenvolveu mediante o inusitado espectáculo. Quanto a mim, tive tempo de sobra para a íntima e, obviamente, reprovável alegria de verificar que dois alunos da pior espécie representavam ali, diante dos meus olhos alegremente atónitos, a cena que tantas vezes eu próprio tinha sonhado.

Introduzamos aqui um pouco mais de precisão: a cena recorrentemente sonhada não era exactamente esta. Ela envolvia, de facto, três actores e não apenas dois. Havia um primeiro actor, único protagonista digno deste nome, eu, esmurrando aqueles dois, ou quaisquer outros dois, já que a turma é generosamente rica em espécimes deste jaez.

Sonhos são sonhos e, seja pelo estatuto do aluno, seja pela arrogância e voracidade dos pais, ou seja pela minha notória decrepitude, a cena, do modo como tantas vezes foi desenhada, nunca aconteceu de facto, graças a Deus e aos obstáculos com que sempre atravanco a distância que separa o sonho/desejo da realidade/facto.

Mas não me queixo. A cena foi diferente, eu não estava nela, mas foi igualmente enternecedora e totalmente satisfatória.

Ao fim de vários segundos de divertidíssima violência, um pouco antes de os primeiros pingos vermelhos aflorarem ao trombil dos contendores, acabei finalmente por intervir em nome do regulamento geral dos espectáculos, expulsando-os da sala, marcando faltas disciplinares e tomando algumas notas para uma futura participação de ocorrência.

Aconteceu ontem, na última aula do curso, facto que impossibilita o acesso a qualquer hipótese de repetição da cena, pelo menos neste ano lectivo. Enfim, antes pouco que nada!

Tudo terminado, havia em alguns rostos o desânimo do fim do circo. Quanto ao meu rosto, nada posso garantir sobre o que nele havia... (Não possuo feedback autónomo sobre as minhas expressões faciais).

     Post  840           (Imagem daqui)

15 de junho de 2012

Escola tecnológica é outro luxo…

imageNa sequência de várias fraudes que ocorreram em anos anteriores, em período de exames, e que se prendiam com erros de identificação dos candidatos (nomes demasiado semelhantes, gémeos que se fizeram passar pelos irmãos, etc.), a escola pública portuguesa, num louvável esforço de exigência, rectidão e amor pela honestidade de processos (como tem sido, aliás, seu apanágio), introduziu recentemente o eye-scanning que,  em português nortenho, se pode e deve traduzir por digitalização do olho. Trata-se de um aparelho que lê as características do olho, únicas em cada indivíduo, e que provou ser mais certeiro que a tradicional identificação por fotografia, impressão digital, ou mesmo a presença de um compadre ou de um vizinho do aluno em causa. Além de tudo, num momento em que o tempo é absolutamente precioso, como é o caso dos exames, o sistema apresenta uma rapidez de processos absolutamente estonteante. É tudo simples e intuitivo. Os scanners estão instalados nos assentos das cadeiras. O candidato a exame senta-se e fica automaticamente identificado, seja qual for o tipo de cuecas que use, ou mesmo que tenha optado por calças ou saias decentes, em vez das tradicionais calças descidas ou de mini-saias transparentes…

     Post 839     (Imagem daqui)

14 de junho de 2012

Obriguei Patxi Andion a explicar-me…

filhso de politico escola publicaNo te he dicho grandes cosas
Porque no me habrian salido

Não é por falta de assunto que estou calado, mas por ter assunto demais. Um blog em contratempo seria suposto ter (passe o anglicismo), nos dias que correm, pasto suculento e farto para descomunal manada. Tudo o que se tem passado recentemente à nossa volta, desde as várias e ordinárias jogatinas políticas, passando pela mentira globalizante que nos imbeciliza, passando por uma escola prostituída aos relatórios circunstanciais, passando por uma sociedade tola que se implodiu e terminando na eurofutebolização dos costumes e dos cerebelos lusitanos, tudo seria manancial inesgotável para críticos de costumes, analistas políticos, opinadores sociológicos, vaticinadores temerários, maledicentes sem limites e, enfim, para este vosso criado que, não sendo nenhum destes, é de todos eles um pouco. Assim, eu, como um fulaninho que oscila entre a casmurrice gerontológica, o ajuizado encolher de ombros, o asinino abanar de rabo e orelhas do arguto burro de Orwell, a amena e melancólica galhofice e o tonitruante murro na mesa, não deveria ter-me votado, por tanto tempo, a tão insólita e insípida mudez, diante de tanta estultícia, infâmia e malvadez como a que a actualidade despudoradamente nos oferece dia após dia.

Que hellada esta casa…

Não deveria, mas fiquei calado. E quando imaginei que, na sequência de tamanha irritação comprimida, de tanta contenção forçada, do acúmulo de raiva engolida a seco, acabaria por explodir agora em apoteose destruidora, em demolidor discurso, em arrebatado e explosivo estertor, não mais que este acanhado e ridículo textículo fui eu capaz de parir. É bem certo que é no paroxismo da indignação, na mais destrutiva inflamação anímica que nos encolhemos inexplicavelmente e, inexplicavelmente, parimos ratos.

Fica aí isso. Que alguém mais sábio do que eu dê forma, consistência e sentido ao que fica dito. Pois eu sinto que solo palabras sobre notas me han salido…

  Post 838      (Imagem daqui)

18 de maio de 2012

Às voltas com a semiótica EDPiana

edp-continente“A EDP afirmou esta sexta-feira que as medidas anunciadas pelo Governo para o setor da eletricidade permitem «alcançar a necessária previsibilidade e estabilidade regulatória, de médio a longo prazo», tendo também impactos económico-financeiros a partir de 2014..”

Não entendi. Gostaria de vos poder explicar este discurso mas só ganho 1500 euros. Pedi a um amigo meu que ganha quase dois mil e nem ele foi capaz de o explicar convenientemente. Amanhã vou perguntar a um amigo meu reformado que ganha três mil euros.

Por um lado, «o ajustamento da taxa de juro aplicável à repercussão tarifária do montante anual da parcela fixa dos custos de manutenção do equilíbrio contratual (CMEC), no valor médio, para o período 2013 a 2027, de aproximadamente 13 milhões de euros por ano, o que corresponde a 120 milhões de euros em valor atual».

Voltei a não entender. Acredito que uma explicação cabal deste discurso só pode ser dada por um engenheiro hidráulico de olhos azuis ou um administrador de uma casa de passe bem situada, com ordenado superior a 3500 euros (embora só 500 declarados).

A elétrica nacional estima ainda que, em termos globais, «o impacto económico-financeiro para o grupo EDP, a partir do momento em que aquelas medidas produzam os seus efeitos (2014), corresponda aproximadamente a 1 por cento do EBITDA [resultado antes de juros, impostos, amortizações, depreciações] ou 2,5 por cento do EPS (lucro por ação) por ano».

Não percebi outra vez. Como pode um ignorante como eu ter direito à miragem de uma electricidade mais barata? Esta terceira parte do discurso exige a presença de um Nuno Rogeiro, um camionista de longo curso ou mesmo um director executivo de uma multinacional de implantes de silicone. Sou analfabeto funcional e devia era ficar às escuras.                                                 

(Itálicos tirados daqui)

   Post 836          (Imagem daqui)

17 de maio de 2012

Ajudem os pobres dos doutorandos, porra…

06-01-20_03O Professor Rabuj recebeu o seguinte email, em tudo semelhante a outras dezenas de e-mails que recebeu ao longo da sua extenuada vida de docência.

No ambito da investigação sobre a "Perceção dos Docentes perante os Alunos Portadores de Deficiência", inserida numa tese de doutoramento em Educação da Universidade da Beira Interior, solicito aos colegas o preenchimento de um questionário. Este trabalho implica a recolha de dados junto dos professores/educadores, sendo, por esse motivo, preciosa a colaboração dos mesmos. O seu preenchimento é bastante fácil e ocupar-vos à breves instantes. Envio o link para puderem aceder. Após o preenchimento, basta clicarem em enviar. Obrigado pela vossa prestimosa colaboração.   Dulce Ferreira

O professor Rabuj leu atentamente o texto acima que, depois de convenientemente corrigido, foi por ele percepcionado do modo como segue:

No âmbito da investigação sobre a percepção que os idiotas dos professores têm perante alunos portadores de deficiência, inserida numa tese de doutoramento que estou a fazer no sentido de ver se recebo mais algum ao fim do mês, bem como de elevar a minha imagem académica na sociedade da treta, solicito aos professores dessa escolinha de subúrbio (que, como é sabido, não têm nada que fazer) o favor de preencherem o questionário que vos apresento. A vossa colaboração, (embora, na generalidade, vocês não passem de uns ignorantes) é muito preciosa para que eu obtenha o grau de doutor, apesar de saber que vocês nunca passaram de uns míseros licenciaditos da caca, mas é para isso que vocês realmente servem – ajudar os mais foitos e mais inteligentes a obter graus de doutor, respondendo a inquéritos sobre algumas das tretas mais parvas que já passaram pelas ilustres cabeças quer dos inteligentes quer dos burros. Como eu sei que a competência não é o vosso forte, posso afirmar-vos que o preenchimento do inquérito é muito fácil, visto que até o meu miúdo de 3 anos, que nem sequer é hiperdotado, já o preencheu. Basta clicar no link, que vai lá directo. Depois de preencher é só clicar em enviar. Não precisam de ir aos correios. Muito obrigado, escravos idiotas, pela vossa prestimosa e grátis colaboração.

Evidentemente, o professor Rabuj não preencheu o inquérito. Preferiu escrever o que vocês, subescravos idiotas, acabaram de ler…

     Post  835                (Imagem daqui)

12 de maio de 2012

Bifes e apartamentos ou o romance da grafonola (parte 3)

fusca

 

 

 

Inesperadamente, Acácio despejou-me em cima uma violenta gargalhada

 

 

 

 

Palito já muito mordido, seguro entre dois enormes incisivos e as velhas chanatas cor de erva seca na outra ponta do seu robusto corpanzil, Acácio parecia esperar-me. Mesmo atrás do seu sempre resplandecente jeep, havia um lugar onde encostei o meu humorístico carocha amarelo torrado, quase tão velho como eu, comprado em 74, em quarta ou quinta mão, com o dinheiro de um subsídio de diligência que recebi na tropa, graças à revolução dos cravos.

O Acácio cuspiu o palito: “O professor está a precisar de comprar um carrinho novo”, “sim, e um rádio velho”, “deixe-se disso, você precisa mesmo é de investir o seu dinheiro num apartamento”, “ora, o meu dinheiro invisto-o todo em bifes”.

O diálogo poderia ter ficado por aqui, ou ter seguido indefinidamente, nauseante e marasmático, sob o sol da tarde, diante do estaminé de electrónica, comigo em aquiescências arredondadas e sempre espreitando o rádio da montra. Mas, com Acácio Rebelo, isso não podia desenrolar-se assim. E não foi assim que se desenrolou, de facto. Inesperadamente, Acácio despejou-me em cima uma violenta gargalhada e afirmou-me, com olhos de água, que era a sua primeira gargalhada do dia. Acto contínuo, mandou-me ir buscar o rádio e pô-lo no carocha.

Acácio tinha-me vendido o rádio por uma gargalhada sadia. Disse que o rádio não valia nada, que nem percebia a minha fixação por aquele mamarracho e que, se a minha piada tivesse sido um pouco melhor, eu poderia ter conseguido um andar esmeradíssimo que acabara de construir num brejo ali para os lados da barragem do Azibo.

Em casa, finalmente terminada a fase do namoro e agora já cônjuge de direito daquela belíssima peça de madeira e válvulas termoiónicas, eu pensava qual teria sido realmente a piada de que o meu majestoso amigo tanto riu e como riria se, de facto, tivesse havido alguma piada no que eu disse. Seja como for, permaneceu até hoje o desejo de ir à loja do Acácio buscar a grafonola, logo que tivesse uma piada realmente boa para lhe contar…

Soube há dias que a grafonola ainda lá está. O Acácio não. O humor também não…

      Post 835      (Imagem daqui)