7 de maio de 2012

Não embandeirem por enquanto. É mais do mesmo…

hollandevence060512Detesto estragar festas, mormente quando essas festas decorrem de um qualquer encantatório momento de esperança fugidia e arrimosa. E eu reconheço que, para os franceses (e mesmo para nós), aquela guinada à “esquerda” poderia perfeitamente representar o alvorecer de um novo dia para a Europa, para os trabalhadores e as suas carteiras desclassificadas. Mas não. Nada mudará, a menos que ainda haja hipótese de piorar. É ainda mais difícil que algo melhore do que eu acreditar que isso possa acontecer. Fiquemos, pois, pela incredulidade e pelo status quo da miséria permanente.

Querem saber o que me leva a este niilismo, o que me reverbera a prostração, o que me atiça o desalento? O déjà-vu. O maldito déjà-vu, o sempre-foi-assim, o antes-de-ser-já-o-era, o particípio passado da imobilidade, o supino do cinzento-pardo.

Da novidade festiva que ontem aconteceu em França já cá tivemos demais, assim como ainda temos demais do outro que ontem, em França, se foi embora. E, amanhã, continuaremos a ter demais do mesmo que temos hoje e que tivemos ontem. A prova mais comprovada deste facto é que os que temos cá hoje e a senhora que hoje ainda temos lá, já hoje vieram a público berrar o quanto estão de acordo com este novo presidente que ontem se levantou em França, muito mais de acordo do que estavam de acordo com o presidente francês que anteontem, em França, caiu. Hoje mesmo, todos, desde os nossos até à alemã, vieram considerar que, hoje sim, com o presidente que aí vem, a Europa vai reconsiderar, rejuvenescer e brilhar ao sol, tal como todos eles consideravam que ela reconsideraria, rejuvenesceria e brilharia ao sol anteontem, no tempo do presidente que se foi.

Tipos como eu, que têm o desplante e a sem-vergonhice de escrever três parágrafos (três!!!) como os que aí ficam, que se remetem a um intransponível negativismo, que se embrulham nos mais tacanhos farrapos miserabilistas, não deviam poder estragar as festas dos inocentes. Tipos como eu não deviam ter direito sequer às suas opiniões de água fria. A blogosfera devia-lhes estar vedada e deviam ser obrigados a colocar nos seus lamacentos blogues uma chancela indelével: “Cuidado, pessimista à solta! Retirem-se, cuspam e façam o sinal da cruz!

   Post 834       (Imagem domínio público)

1 de maio de 2012

ser poeta é ser mais cuspido (1)

cartoonQuando eu era bem mais jovem, um pouco depois de Pearl Harbour, tinha a estóica mania de escrever versos. Escrevia linhas de dez sílabas, acentuadas ao gosto da arcádia. E meu pai, que escrevia versos do tipo o sol-posto abençoado a fugir de Portugal parece um ovo estrelado sobre a américa central, também estoicamente me avisava que um dia me arrependeria amargamente por me armar em poeta pre-romântico. Ele afirmava muitas vezes que a poesia faz de nós umas abéculas sem qualquer serventia, uns labregos lunáticos e parvinhos, sofisticadamente apaneleirados e, o que é pior, eternamente pelintras.

Disse-me isto pela última vez às oito da manhã de um risonho dia de primavera e, depois do almoço, já eu tinha decidido nunca mais cruzar duas linhas que rimassem, ainda que fosse por acaso. Nunca mais fui capaz de escrever um poema que tivesse jeito, mas fiquei homem macho e desusado admirador do belo sexo, embora não me tivesse livrado da pelintrice.

Pois, mas a minha fama de poeteiro já tinha corrido por dez léguas em redor e, sempre que os meus amigos emigrados (regressados de França para as férias aqui no puto, em busca do sol e do mar de Mira) me apanhavam encostado a um qualquer balcão, vinham logo com aquela galra dos poemas fantásticos que eu escrevia e que agora, com o passar dos anos e a aproximação da idade de todas as perplexidades, me tinham guindado a uma espécie de génio homérico da lapiseira, com direito exclusivo a abraços, entusiamo e perdigotos. E era sempre com muita admiração, muito vinho e alguma ramela que mo lembravam…

Até aqui, tudo mais ou menos bem. Mas só ontem à tarde, quando o Marito se meteu pelo meu portão adentro, eu compreenderia com total propriedade as palavras de meu pai sobre o arrependimento de se ter sido o maior poeta da aldeia… e de dez léguas em redor, vá lá, uns tantos anos depois de Pearl Harbour.

(Continua, se a tanto me ajudar engenho e arte)

     Post 833         (Imagem daqui)

28 de abril de 2012

A História da Patifaria Portuguesa

… a que autores mais circunspectos chamaram sinmplesmente “Os Donos de Portugal.

Donos de Portugal from Donos de Portugal on Vimeo.

   Post 832  

25 de abril de 2012

miguel portas sempre

380333Adeus Miguel. Grande parte da Revolução Portuguesa morrre hoje contigo. Mesmo os nossos amigos, os que hoje, na tribuna, ainda lançam um último estertor de resistência contra o capitalismo da miséria, não sabem exactamente como fazê-lo. Só tu parecias saber. Mas já não sabes nada e o que nos ensinaste será esquecido amanhã.

    Post 831          (Imagem daqui)

14 de abril de 2012

uma rádio do caraças…

trala radioOs muito entendidos que me desculpem, mas pode haver quem não saiba e que, ao mesmo tempo, ache interessante. Na aba lateral deste blogue há uma frame denominada “Tralapraki Radio”. É uma radio que permite baixar e guardar  as músicas (primeiro botão), partilhá-las (segundo botão) e mesmo copiar o player e colá-lo em qualquer parte, por meio do código html que se obtém clicando o terceiro botão. São cinco canções por semana. Mudo o cardápio de oito em oito dias. Passa só boa música, não tem José Candeias nem notícias sobre cortes salariais aos pobres, nem sobre escândalos financeiros de ricos. É, por assim dizer, uma radio reaccionária e situacionista, mas cheia de boas intenções. Para a ouvir basta desligar a rádio automática do blogue (Classica & Jazz.pt) que fica um pouco mais abaixo, e depois clicar no play.

PS. Se a rádio não aparecer na aba, basta clicar com o botão direito sobre o espaço onde ela deveria estar e seleccionar “Recarregar Frame”.

     Post 829      (Imagem do blog)

13 de abril de 2012

Bifes e apartamentos ou o romance da grafonola (parte 2)

Capturar grafonola

 

Agora, para descrever o Acácio Rebelo com a mestria que merece, seria necessária mão mais firme e olhar mais penetrante do que o meu

(continuado de 24 de Março de 2012)

 

 

   Post 828   (Imagem daqui)

Pois, descrever um rádio é fácil: dois botões, um altifalante, uma caixa de baquelite, um olho mágico, um sortilégio. Mas, e descrever o Acácio Rebelo, nado e criado na aldeia de Izeda, a uns quantos quilómetros do centro populacional e civilizacional mais próximo – Macedo de Cavaleiros? Acácio tinha muito mais botões, falava muito mais alto,  usava uma samarra de gola de raposa em vez de baquelite, tinha dois olhinhos mágicos prazenteiros, envidraçados por cangalhas fora de moda e tê-lo conhecido foi sortilégio maior do que qualquer aparelho de rádio.

Como ficou dito, o Acácio não era pobre. Recuperava casotas em Vila Flor e em Macedo e, com o dinheiro proveniente deste trabalho, empilhava andares incaracterísticos em todo e qualquer espaço que lhe parecesse habitável. Tinha um Jeep luminoso, sempre estacionado em frente do seu estaminé de electrónica, um par de suspensórios medonhos que lhe arrepanhavam as calças no traseiro, uma barriga despudorada e uns permanentes chinelos de camurça esverdeada.

Porém, a característica mais proeminente da minha personagem não era física. Era a sua incessante, quase demente, busca da felicidade quotidiana. Mas não a procurava no dinheiro, nem na família, nem no negócio,  nem na amistosa flatulência que ostentava em praticamente todas as ocasiões sociais, sobretudo as mais delicadas e festivas. A felicidade suprema encontrava-a ele apenas numa coisa: uma boa piada, várias boas piadas, de preferência. Uma piada, ainda que não fosse um modelo de humor incondicional, sempre lhe arrancava fundas e sadias gargalhadas, cheias de alegria e anidrido carbónico. Dir-se-ia que Acácio Rebelo passava a vida à procura de humor, como outros a passam à procura de chatices…

Ah, sei bem que não consegui descrever o Acácio. E sei que muitos de vós, meus caros leitores, vos sentistes defraudados perante a minha descrição, a ponto de pensardes em abandonar definitivamente os escrevinhados deste vosso cervo servo. (Ainda se usa a segunda pessoa do plural?). Mas foi o que se pôde arranjar com as poucas palavras que me restaram dos recentes cortes lexicais…

                    (Cuidado, isto vai continuar)

11 de abril de 2012

Conjuntura sistémica

aula substIgnoram a tua presença. Desprezam-te. Se lhes diriges a palavra no sentido de repor alguma decência, gozam-te. São uma turma, uma chusma, um bando, tão vara quanto récua. No entanto, há um momento em que te sentes útil: um deles chama-te lá do fundo do caos. Perguntas educada e esperançadamente o que deseja. Ele responde com uma pergunta: posso ir à casa de banho?

Não era bem o que desejavas ouvir, mas já há muito tempo deixaste de ouvir um décimo do que desejarias ouvir. E um pedido para utilizar as instalações sanitárias é, no mínimo, um pedido higiénico. Com certeza, amigo, podes ir. E encerras aqui a tua profunda reflexão sobre a utilidade e objectivo das aulas de substituição, sobre a utilidade e objectivo do sistema de ensino, sobre a utilidade e objectivo da tua vida. Sais quando toca, diriges-te ao bar e inundas a garganta de bolos e de café, antes que o teu esófago expluda num segundo big-bang, com lavas de indignação e big-mac…

  Post 827      (Imagem daqui)

3 de abril de 2012

Sessenta obsessivos

Não me tinha ainda apercebido que seria tão difícil saber alguma coisa acerca de Deus. Para além das histórias mais ou menos flutuantes que a humanidade criou, durante milénios, acerca dEle, sempre achei que um dia alguém me pudesse contar, com contornos de verdade e de rigor, sobre quem é Deus, onde vive, qual o seu estado civil e quem Lhe passou a carteira profissional de construtor das esferas.

Aos sessenta anos de idade, saber sobre Deus não é mais um acto académico de pura especulação intelectual. Aos sessenta anos, saber da existência e da identidade de quem nos criou torna-se tão urgente como, aos dezoito, saber quem é, e para onde fugiu, o nosso pai biológico. Se este conhecimento é tão importante para a nossa vida, aquele é importante demais para a nossa morte. O nosso papá biológico é útil para o colocarmos entre nós e o perigo. O nosso Pai do Céu passa a ser imprescindível para nos agarrarmos às suas calças quando cometermos o mais fatal e idiota dos deslizes….

Tornou-se, pois, uma quase obsessão acreditar em alguma verdade absoluta sobre Deus, mesmo que essa verdade absoluta seja a mentira mais refinada. Conhecer esta verdade deixar-nos-á imensamente mais tranquilos, reduzindo o sono final a uma condição de sono quotidiano, com uma madrugada no dia seguinte, com sol e chuva e flores e mulheres e almoços.

Na Internet não há nada de novo sobre Deus. Apenas se diz por lá aquilo que já toda a gente sabe: que eu era nada e Deus fez de mim o que eu agora sou. E o mais intrigante é que Ele fez isso sem sequer ter sido enquadrado judicialmente. Este facto é o único que me demonstra todo o poder que Ele, de facto, tem. Qualquer trabalhador indiferenciado teria apanhado uns bons anos de cadeia se tivesse produzido, mesmo sem querer, uma peça igual a mim.

Não se explica na Internet a razão por que Deus me recolhe de novo no fim, quando eu voltar a ser o que era antes de ele me transformar, ou seja - nada. Provavelmente, é nessa perspectiva de reciclagem que Ele reutilizará o meu nada para fazer, a partir dele, outro falhado qualquer, na esperança de um dia acabar por acertar.

Aos sessenta anos, saber tudo sobre Deus tornou-se obsessivamente primordial. Por isso, deixo aqui um avisado aviso às pessoas normais e escorreitas, ainda portadoras de algum equilíbrio neurológico: não visitem o Trala nos próximos dias, pois voltarei a este assunto. Obsessão pega-se!  

(Imagem daqui)           Post 826  

24 de março de 2012

Bifes e apartamentos ou o romance da grafonola (Parte 1)

clip_image002Quando a minha vida de estroina do ensino me fez ir até Izeda, quis o destino que lá encontrasse duas coisas que preencheriam a minha vida até hoje: um rádio de 1958 e o seu vendedor, Acácio Rebelo.

Passo a apresentar estas duas relevantes personagens do meu conto e da minha vida: o rádio de 1958 aconchegava-se numa montra de electrodomésticos e era alvo da minha quase concupiscente paixão. O meu pai tinha-me dado um exactamente igual quando eu fiz, em simultâneo, oito anos e a segunda classe, ambos com distinção; o Acácio era um velhote, da idade que eu tenho agora, mais ou menos acomodado na vida, empoleirado num negócio de apartamentos mal acabados e, claro, na loja de electrodomésticos que já fica referida. Com o tempo, lá por meados do segundo período, já ele me conhecia e cumprimentava, a mim e à minha desusada penúria, já eu não lhe escondia o verdadeiro amor que nutria pelo rádio que ele tão descaradamente me atirava aos olhos, todos os dias da minha ortorrômbica vidinha de professor de Inglês.

Num desses acalentados momentos de embevecido platonismo em que olhava o rádio sob tantas perspectivas quantas me permitia o vidro embaciado, reparei que, mais ao fundo do armazém, havia uma grafonola lindíssima, toda esfuziante na sua corneta de ramagens, soerguendo-se, altiva, de uma base da mais lustrosa madeira que já alguma vez tinha visto nas grafonolas. Fiquei sem fôlego! Mas, como sou um tipo fiel, de um amor de cada vez, voltei a concentrar-me no objecto que se encontrava mais próximo e, apesar de caro para o meu desventrado bolso, imensamente mais acessível que a estonteante grafonola.

Agora, para descrever o Acácio Rebelo com a mestria que merece, seria necessária mão mais firme e olhar mais penetrante do que o meu. Para isso, terei que ganhar algum balanço. Assim sendo, termino por aqui a primeira parte deste romance que continuará no próximo post com a descrição que conseguir fazer do meu eterno amigo Acácio.   (continua)

      Post 825           (Imagem minha, rádio meu… :)

19 de março de 2012

Hoje lembrei…

A Praia de Mira era um rendilhado de rios, lagos e lagoas que atormentaram a minha meninice…

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Quando eu era criança, minha mãe fazia-me atravessar uma infinidade de cursos de água, alguns deles rudes e violentos demais para a minha compleição de menino frágil. Ela me segurava então pelo cachaço, enquanto caminhávamos lentos, eu à frente e ela atrás, sobre estreitas e oscilantes comportas de madeira que tentavam reter alguma água para a direccionar aos moinhos da Canhota. Eu, tonto de medo, olhava para baixo, lá onde a água, contrariada pela barragem, se debatia com estrepitoso fragor.

clip_image004Naquele tempo a praia de Mira era demasiado húmida para o meu gosto de garoto de terra seca, criado sobre batatais a perder de vista, ou perdido entre milharais sombrios, cheirando a guano e pó.

Meus avós maternos eram da praia e viviam num palheiro encantado, de madeira listrada verticalmente em castanho e branco. Um dia, morreram. Não tive escola nesse dia, e nunca mais fui obrigado a atravessar os rios borbulhantes do meu pavor…

    Post  824      (Imagens minhas)