14 de abril de 2012

uma rádio do caraças…

trala radioOs muito entendidos que me desculpem, mas pode haver quem não saiba e que, ao mesmo tempo, ache interessante. Na aba lateral deste blogue há uma frame denominada “Tralapraki Radio”. É uma radio que permite baixar e guardar  as músicas (primeiro botão), partilhá-las (segundo botão) e mesmo copiar o player e colá-lo em qualquer parte, por meio do código html que se obtém clicando o terceiro botão. São cinco canções por semana. Mudo o cardápio de oito em oito dias. Passa só boa música, não tem José Candeias nem notícias sobre cortes salariais aos pobres, nem sobre escândalos financeiros de ricos. É, por assim dizer, uma radio reaccionária e situacionista, mas cheia de boas intenções. Para a ouvir basta desligar a rádio automática do blogue (Classica & Jazz.pt) que fica um pouco mais abaixo, e depois clicar no play.

PS. Se a rádio não aparecer na aba, basta clicar com o botão direito sobre o espaço onde ela deveria estar e seleccionar “Recarregar Frame”.

     Post 829      (Imagem do blog)

13 de abril de 2012

Bifes e apartamentos ou o romance da grafonola (parte 2)

Capturar grafonola

 

Agora, para descrever o Acácio Rebelo com a mestria que merece, seria necessária mão mais firme e olhar mais penetrante do que o meu

(continuado de 24 de Março de 2012)

 

 

   Post 828   (Imagem daqui)

Pois, descrever um rádio é fácil: dois botões, um altifalante, uma caixa de baquelite, um olho mágico, um sortilégio. Mas, e descrever o Acácio Rebelo, nado e criado na aldeia de Izeda, a uns quantos quilómetros do centro populacional e civilizacional mais próximo – Macedo de Cavaleiros? Acácio tinha muito mais botões, falava muito mais alto,  usava uma samarra de gola de raposa em vez de baquelite, tinha dois olhinhos mágicos prazenteiros, envidraçados por cangalhas fora de moda e tê-lo conhecido foi sortilégio maior do que qualquer aparelho de rádio.

Como ficou dito, o Acácio não era pobre. Recuperava casotas em Vila Flor e em Macedo e, com o dinheiro proveniente deste trabalho, empilhava andares incaracterísticos em todo e qualquer espaço que lhe parecesse habitável. Tinha um Jeep luminoso, sempre estacionado em frente do seu estaminé de electrónica, um par de suspensórios medonhos que lhe arrepanhavam as calças no traseiro, uma barriga despudorada e uns permanentes chinelos de camurça esverdeada.

Porém, a característica mais proeminente da minha personagem não era física. Era a sua incessante, quase demente, busca da felicidade quotidiana. Mas não a procurava no dinheiro, nem na família, nem no negócio,  nem na amistosa flatulência que ostentava em praticamente todas as ocasiões sociais, sobretudo as mais delicadas e festivas. A felicidade suprema encontrava-a ele apenas numa coisa: uma boa piada, várias boas piadas, de preferência. Uma piada, ainda que não fosse um modelo de humor incondicional, sempre lhe arrancava fundas e sadias gargalhadas, cheias de alegria e anidrido carbónico. Dir-se-ia que Acácio Rebelo passava a vida à procura de humor, como outros a passam à procura de chatices…

Ah, sei bem que não consegui descrever o Acácio. E sei que muitos de vós, meus caros leitores, vos sentistes defraudados perante a minha descrição, a ponto de pensardes em abandonar definitivamente os escrevinhados deste vosso cervo servo. (Ainda se usa a segunda pessoa do plural?). Mas foi o que se pôde arranjar com as poucas palavras que me restaram dos recentes cortes lexicais…

                    (Cuidado, isto vai continuar)

11 de abril de 2012

Conjuntura sistémica

aula substIgnoram a tua presença. Desprezam-te. Se lhes diriges a palavra no sentido de repor alguma decência, gozam-te. São uma turma, uma chusma, um bando, tão vara quanto récua. No entanto, há um momento em que te sentes útil: um deles chama-te lá do fundo do caos. Perguntas educada e esperançadamente o que deseja. Ele responde com uma pergunta: posso ir à casa de banho?

Não era bem o que desejavas ouvir, mas já há muito tempo deixaste de ouvir um décimo do que desejarias ouvir. E um pedido para utilizar as instalações sanitárias é, no mínimo, um pedido higiénico. Com certeza, amigo, podes ir. E encerras aqui a tua profunda reflexão sobre a utilidade e objectivo das aulas de substituição, sobre a utilidade e objectivo do sistema de ensino, sobre a utilidade e objectivo da tua vida. Sais quando toca, diriges-te ao bar e inundas a garganta de bolos e de café, antes que o teu esófago expluda num segundo big-bang, com lavas de indignação e big-mac…

  Post 827      (Imagem daqui)

3 de abril de 2012

Sessenta obsessivos

Não me tinha ainda apercebido que seria tão difícil saber alguma coisa acerca de Deus. Para além das histórias mais ou menos flutuantes que a humanidade criou, durante milénios, acerca dEle, sempre achei que um dia alguém me pudesse contar, com contornos de verdade e de rigor, sobre quem é Deus, onde vive, qual o seu estado civil e quem Lhe passou a carteira profissional de construtor das esferas.

Aos sessenta anos de idade, saber sobre Deus não é mais um acto académico de pura especulação intelectual. Aos sessenta anos, saber da existência e da identidade de quem nos criou torna-se tão urgente como, aos dezoito, saber quem é, e para onde fugiu, o nosso pai biológico. Se este conhecimento é tão importante para a nossa vida, aquele é importante demais para a nossa morte. O nosso papá biológico é útil para o colocarmos entre nós e o perigo. O nosso Pai do Céu passa a ser imprescindível para nos agarrarmos às suas calças quando cometermos o mais fatal e idiota dos deslizes….

Tornou-se, pois, uma quase obsessão acreditar em alguma verdade absoluta sobre Deus, mesmo que essa verdade absoluta seja a mentira mais refinada. Conhecer esta verdade deixar-nos-á imensamente mais tranquilos, reduzindo o sono final a uma condição de sono quotidiano, com uma madrugada no dia seguinte, com sol e chuva e flores e mulheres e almoços.

Na Internet não há nada de novo sobre Deus. Apenas se diz por lá aquilo que já toda a gente sabe: que eu era nada e Deus fez de mim o que eu agora sou. E o mais intrigante é que Ele fez isso sem sequer ter sido enquadrado judicialmente. Este facto é o único que me demonstra todo o poder que Ele, de facto, tem. Qualquer trabalhador indiferenciado teria apanhado uns bons anos de cadeia se tivesse produzido, mesmo sem querer, uma peça igual a mim.

Não se explica na Internet a razão por que Deus me recolhe de novo no fim, quando eu voltar a ser o que era antes de ele me transformar, ou seja - nada. Provavelmente, é nessa perspectiva de reciclagem que Ele reutilizará o meu nada para fazer, a partir dele, outro falhado qualquer, na esperança de um dia acabar por acertar.

Aos sessenta anos, saber tudo sobre Deus tornou-se obsessivamente primordial. Por isso, deixo aqui um avisado aviso às pessoas normais e escorreitas, ainda portadoras de algum equilíbrio neurológico: não visitem o Trala nos próximos dias, pois voltarei a este assunto. Obsessão pega-se!  

(Imagem daqui)           Post 826  

24 de março de 2012

Bifes e apartamentos ou o romance da grafonola (Parte 1)

clip_image002Quando a minha vida de estroina do ensino me fez ir até Izeda, quis o destino que lá encontrasse duas coisas que preencheriam a minha vida até hoje: um rádio de 1958 e o seu vendedor, Acácio Rebelo.

Passo a apresentar estas duas relevantes personagens do meu conto e da minha vida: o rádio de 1958 aconchegava-se numa montra de electrodomésticos e era alvo da minha quase concupiscente paixão. O meu pai tinha-me dado um exactamente igual quando eu fiz, em simultâneo, oito anos e a segunda classe, ambos com distinção; o Acácio era um velhote, da idade que eu tenho agora, mais ou menos acomodado na vida, empoleirado num negócio de apartamentos mal acabados e, claro, na loja de electrodomésticos que já fica referida. Com o tempo, lá por meados do segundo período, já ele me conhecia e cumprimentava, a mim e à minha desusada penúria, já eu não lhe escondia o verdadeiro amor que nutria pelo rádio que ele tão descaradamente me atirava aos olhos, todos os dias da minha ortorrômbica vidinha de professor de Inglês.

Num desses acalentados momentos de embevecido platonismo em que olhava o rádio sob tantas perspectivas quantas me permitia o vidro embaciado, reparei que, mais ao fundo do armazém, havia uma grafonola lindíssima, toda esfuziante na sua corneta de ramagens, soerguendo-se, altiva, de uma base da mais lustrosa madeira que já alguma vez tinha visto nas grafonolas. Fiquei sem fôlego! Mas, como sou um tipo fiel, de um amor de cada vez, voltei a concentrar-me no objecto que se encontrava mais próximo e, apesar de caro para o meu desventrado bolso, imensamente mais acessível que a estonteante grafonola.

Agora, para descrever o Acácio Rebelo com a mestria que merece, seria necessária mão mais firme e olhar mais penetrante do que o meu. Para isso, terei que ganhar algum balanço. Assim sendo, termino por aqui a primeira parte deste romance que continuará no próximo post com a descrição que conseguir fazer do meu eterno amigo Acácio.   (continua)

      Post 825           (Imagem minha, rádio meu… :)

19 de março de 2012

Hoje lembrei…

A Praia de Mira era um rendilhado de rios, lagos e lagoas que atormentaram a minha meninice…

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Quando eu era criança, minha mãe fazia-me atravessar uma infinidade de cursos de água, alguns deles rudes e violentos demais para a minha compleição de menino frágil. Ela me segurava então pelo cachaço, enquanto caminhávamos lentos, eu à frente e ela atrás, sobre estreitas e oscilantes comportas de madeira que tentavam reter alguma água para a direccionar aos moinhos da Canhota. Eu, tonto de medo, olhava para baixo, lá onde a água, contrariada pela barragem, se debatia com estrepitoso fragor.

clip_image004Naquele tempo a praia de Mira era demasiado húmida para o meu gosto de garoto de terra seca, criado sobre batatais a perder de vista, ou perdido entre milharais sombrios, cheirando a guano e pó.

Meus avós maternos eram da praia e viviam num palheiro encantado, de madeira listrada verticalmente em castanho e branco. Um dia, morreram. Não tive escola nesse dia, e nunca mais fui obrigado a atravessar os rios borbulhantes do meu pavor…

    Post  824      (Imagens minhas)

17 de março de 2012

obsessões do meu ipod (32)

marisa Monte
Ainda Bem não nos traz, de facto, nada de novo. Mas para quê a novidade? Uma canção é apenas uma canção, não um catálogo de gadgets. E esta é, como muitas outras canções, mais uma que passa despercebida pelo facto de ser apenas… perfeita.  E é tudo.
Marisa Monte é uma voz absolutamente excepcional, de uma delicadeza ímpar.
Mostro-lhes duas versões de Ainda Bem, uma delas melhor que a outra, em minha modesta opinião. (Podemos entreter-nos a discutir qual a melhor versão e porquê.)
Um abraço, ao som de Marisa.

     Post 823       (Imagem daqui)

14 de março de 2012

Desta vez é o décimo primeiro ano…

jeováTenho um aluno no décimo primeiro ano que é Testemunha do Jeová. (Sou testemunha disso, posso garantir-vos). Esforço-me por lhe ensinar uma língua profana, leiga, quase obscena, que se chama Inglês. Ele esforça-se por me ensinar um código ascético, inumerável, divino, flatulento que se chama Tetragrama YHVH, ou seja, o tal Jeová.

Tendo-me certamente sinalizado como uma criatura em iminente risco de se perder nas profundezas do Inferno, chamou a si a generosa e ciclópica tarefa de me reorientar o estafado percurso, enfileirando-me no rebanho dos escolhidos para as delícias do paraíso. Paulatinamente, pedagogicamente, tem vindo a fornecer-me materiais indispensáveis para a minha progressão segura a caminho da manada dos bem-aventurados.

Todas as semanas me presenteia com livrinhos escritos de modo simples e directo, construção frásica primária, adequada ao meu nível cognitivo, profusamente ilustrados com desenhos meticulosos, Cristos de cabelo curto e barba preta aparada ao gosto dos baladeiros de 60, paisagens idílicas de rios passando serenos por debaixo de pontes curvas de madeira e profetas de gravata laminada e fatos de merino, famílias felicíssimas em volta de uma mesa de toalha aos quadradinhos, jovenzinhas assexuadas e raios de luz azul vindos de uma nuvem (?) onde se inscreve a palavra Jeová.

A minha intenção para com este meu aluno é muito menos luminosa. Adoraria que ele se dedicasse aos pronomes pessoais formas de complemento e ao passado do verbo to be. E inundo-o de fichas de gramática, nem eu mesmo sei já se com isso pretendo ensiná-lo ou se se trata de uma pequena vingança como represália aos materiais didácticos com que ele me inunda semanalmente.

E é neste pé que temos estado, até que ele fez ontem o teste final do módulo 3. E tirou 10. Quanto a mim, ainda não fiz o teste final da doutrina de Jeová. Sei que ele não me dispensará dele, até porque Jeová que se preze é muito mais chato que qualquer professor de Inglês. E tremo só de pensar que poderei confundir Armageddon com manjedoura ou Sentinela Alerta com Serenella Andrade. (Ele também confundiu him com his e witch com watch…)

   Post 822      (Imagem daqui)

3 de março de 2012

A palavra dos outros

raposaO Estúdio Raposa

Há vários anos que venho seguindo este blogue, o Estúdio Raposa, de Luís Gaspar, o mais profissional, o mais sério e o mais artístico espaço de literatura em suporte áudio que tive a ventura de conhecer. Egoistamente, reservei-o para mim, embora o tivesse colocado, desde o exacto momento em que o descobri, na minha lista de blogues, na banda lateral. Como sei que as nossas listas de blogues nem sempre conseguem suficiente divulgação daquilo que merece ser divulgado, é meu privilégio apresentar aqui um dos mais consequentes trabalhos da blogosfera na área da literatura em língua portuguesa.

Veja-o aqui e navegue-o calmamente. Tem muito por onde e vale certamente a pena. A qualidade de som é absolutamente envolvente.

     Post 821          (Imagem do site)

29 de fevereiro de 2012

Nem mesmo a revolução é demasiado séria…

Dicionário-Aurelio-para-iPhoneA razão pela qual os portugueses (e os europeus) ainda não fizeram a revolução socialista é que não sabem exactamente em que gaveta está o livro de instruções. Marx tinha um, Bakunine também. A minha mulher-a-dias é quem melhor sabe o que deve ser feito para inverter o percurso negativo da balança de pagamentos. Qual definição shakespeariana de “génio”, ela tem em si todas as regras para a construção de um mundo melhor, sem ter necessidade de ir beber a fontes menos recomendáveis. O meu cão todos os dias me dá lições sobre com quantas patas se constrói a verdadeira felicidade e o próprio primeiro ministro de Portugal também tem um manual de fazer revoluções, embora não saiba como lhe chamar, já que é velho (o livro, claro, e não o ministro) e perdeu a capa. Proponho, para substituir a capa extraviada e, portanto, como nome da revolução de Passos, “revolução neoliberalenguista” ou “a revolução neossocioesclavagista lusitana”.

No entanto, e na impossibilidade de alguém ainda se lembrar, de facto, como se faz uma revolução, acredito que a revolução de que a Europa precisa é uma revolução lexicológica. que é, simultaneamente, uma revolução bakuninista, na medida em que sugere a transformação social a partir de um conjunto de conceitos abstractos e não de um grupo de proletários subalimentados e malcheirosos. Trata-se, portanto, de uma revolução limpa, asséptica, apenas substituindo um império de palavras por um império de outras palavras, e não a esquálida e suarenta revolução marxista, que mais não terá trazido à humanidade que um aumento exponencial na produção de deo colognes.

As revoluções lexicais são eficazes e praticamente gratuitas. Os seus resultados medem-se por descritores e parâmetros que vão do muito bom ao excessivamente excelente, protegendo simultaneamente a alegria no trabalho e a felicidade conjugal. A revolução lexicológica não é mais que uma estratégia de substituição. É só destronar umas palavras e eleger outras em seu lugar. Em vez de dívida externa, elejamos dádiva interna; em vez de coelhos, elejamos beija-flores, em vez de tróica, truca-truca. Substituamos trabalho por tremoços e cansaço por cerveja. Em vez de caderno de encargos, elejamos cabrito com espargos e em vez de fome, escrevamos sempre força. Para austeridade prefiramos mariscadas.

Toparam o sumo da revolução lexicológica? Aposto que amanhã tudo será mais azul (com bolinhas da mesma cor).

    Post 820        (Imagem daqui)