6 de fevereiro de 2012

Professores quebradiços

professor indisciplinaEu? Mandar alunos para a rua? Nada disso! Não estou interessado em levar uma cachaporra de um bando de ciganos. (Ah, desculpem, isto é racismo ou xenofobia ou sarampo ou lá como isso se chama). Nem sequer sei quem bate com mais força, (eu ignorantão de surras, de tareias e de esmurrações) se são os ciganos ou os gadjos…

Sei lá que punhos ou coices são mais demolidores das carcaças dos professores da escola pública nacional! Sei lá disso, eu, que até hoje, em 32 anos de ensino, nunca apanhei a sério. (Quando andei na tropa em Mafra, levei uma vez duas chumbadas no cu, dadas por um sargento miliciano com uma espingarda de pressão de ar. Dois buraquinhos sem importância, ladeando o que, por natureza, já lá estava. Mas essa operação de charme nunca mais se repetiu.)

Mas, se nos meus 32 anos de ensino nunca apanhei, já vi apanhar! Uma vez, foi um doutor de leis que esmurrou um colega meu novato e inexperiente. Outra vez foi um médico muito conceituado que mandou um tremendo estaladão em outro colega (estaladão de médico é demolidor, como devem saber). Há dias foi um de Matemática que foi surrado por ciganos (bolas, lá estou eu de novo todo xenófobo, rácico ou parkinsónico ou lá que diabo de coisa é essa).

Racista e sem razão, porque nem sequer sei quem bateu melhor (quero dizer, pior), se foi o causídico, o sangrador ou a ciganada. O professor de Matemática foi, dos três professores, o que mais maltratado ficou, mas isso não prova que o desancar dos ciganos seja pior ou melhor que o dos doutores brancos. O caso é que os brancos agiram individualmente, por conta própria, cada um com a sua vítima, ao passo que os ciganos eram três, agindo de modo organizado, esmurrando de modo científico, e eram todos muito jovens. Já se sabe que um jovem, por vezes, não tem bem a noção da força com que bate. E a vítima, neste caso, era um velhote da minha idade, frágil e quebradiço como todos os velhotes. E este apresentava ainda uma debilidade maior, por ter passado 34 anos a tentar ensinar Matemática a ciganos! (Caramba, desculpem de novo a minha racicidade, parkinsonidade xenofobia ou sarampo ou lá o que isso possa ser…). Quanto à apregoada diferença de idades entre agressores e agredido, tudo não passa de pura demagogia, visto que quer um quer outros tinham exactamente a mesma idade: O professor tinha 60 anos e os três agressores também (vinte anos cada um). 

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5 de fevereiro de 2012

repescando tralices

02-relogio bCantar ao fado a dois tempos (mas desafinado)

Era o tempo de Sócrates ainda fresco no poleiro, poleiro limpo ainda, penas alisadas, rabo colorido, crista refulgente, soberba. Mas já se vislumbrava, com ele e com Maria de Lurdes, o início imparável do ataque sem precedentes à classe docente.

Este é o segundo texto deste blogue. Foi postado em 30 de Janeiro de 2007. Já lá vão 5 anos. (O tempo, parecendo que não, foge-nos depressa. É cavaleiro andante, sobre cavalo sem rabo, calvo na traseira parte da cabeça. Mas eu pego-o por uma das patas, no blogue…) 

Para recordar aqui.

   Post 814     (Imagem do blog)

4 de fevereiro de 2012

Panem et circenses

carnavalSim, mas isso era na Roma antiga, na Roma esclavagista, há perto de três milénios. Aqui, nesta democratíssima sociedade lusitana, nesta barcarola sem rumo, nem panem, nem circenses. O pão já nos foi roubado da boca para dar aos abutres. O circo, acaba de nos ser vedado com o corte do direito ao Carnaval.

Eu acho que o primeiro ministro devia pensar melhor. Roubar-nos a dignidade, o pão, o trabalho, o salário, a casa, encher-nos de impostos, de taxas, de multas, de opróbrios, de angústias, de tristezas e de depressões, enfim, inviabilizar-nos qualquer forma de existência aceitável será perfeitamente suportável por este povo que deixou há muito de sentir. Mas, senhor primeiro ministro, tirar-nos o dia do ano em que podíamos gozar livremente com a sua cara, e a dos outros parvalhões que nos governam, isso é que não pode ser.

(Vá por mim, isso pode fazer ruir o resto do império, homem…)

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26 de janeiro de 2012

sobre presidentes, lugares comuns, simbolismos, tretas, por aí…

esmolaO presidente da república disse primeiro e pediu desculpas depois. Faz sentido. É a ordem normal das coisas. Mas eu, o anormal da blogosfera, estou neste momento a pedir desculpas a todos os meus leitores por tudo o que vou dizer a seguir.

Em primeiro lugar tudo aquilo que o Presidente da República disse não passa de abobrinha. Não tem nenhuma relevância política nem, por si só, poderia jamais ensombrar qualquer relação entre um presidente e os seus súbditos. Seria um simples descaso, prontinho para passar despercebido e enfiar na gaveta do esquecimento, não fosse a paranóia colectiva que atacou duro este povo bipolar. E foi então que a blogosfera e as ditas redes associais evidenciaram todo o azebre que lhes cobria os amarelos (trata-se de um sucedâneo da imagem recorrente do estalar de verniz, mas em versão metaloide). E vai daí, inventaram aquele expediente primário, típico da parolografia mais refinada que esta nação pariu ultimamente, expoente máximo do jumentismo mais saloio (estúpido simbolismo que ainda não abandonou de vez a literatura e a ignorância populorum), de ir deixar moedas no palácio de Belém.

Não votei Cavaco, não o defendo, não o entendo. Acho-o, de facto, um pouco irrelevante. Não levo muito a sério quase nada do que ele diz, já que não diz nada de verdadeiramente inesperado, vívido, revolucionário, romântico, criativo, sério, oportuno. Em Cavaco, o lugar-comum é um lugar sentado e eterno…

Mas apareceram na televisão os cretinos que vinham depositar as moedas no chapéu do presidente, cheios do mesmo discurso simbolista do homem necessitado a quem vêm prestar o caritativo auxílio. Meu deus, (que deves estar no céu porque aqui já não dá mais) que nem a fazer piadas estes tipos a têm. Deve ser coisa de humor retrasado de revista decadente que, tal como o ubíquo simbolismo, ainda acha que é coisa fina. Não suporto os simbolistas, não por não os entender (o simbolismo é a mais primária das manifestações de comunicação), mas exactamente pela sua inerente deprimência.

E os polícias, cujas caras não abonam em favor da inteligência (embora não pretenda com isto insinuar qualquer relação de causa e efeito entre aquela e a bobinóide expressão do olhar), não quiseram receber o dinheiro. Já não falo das galinhas e dos ovos, e das nabiças e do casqueiro que os solícitos cidadãos levaram a Sua Ex/a, que o Solar de Belém não é uma cortelha qualquer, porra. Isso não! Mas o dinheirinho Sua Ex/a devia mandar aceitar, providenciando quantos alforges ou chapéus fossem necessários para recolher as dádivas. No fim do dia, poderia aparecer numa das janelas agradecendo ao povo (ambas as mãos içadas em estilo papal) por tão bondoso, patriótico e clemente (e molóide) gesto.

Não preciso pedir desculpas agora. Já o fiz no início.

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8 de janeiro de 2012

Somos inabaláveis, praticamente eternos…

toiroQuando chegarmos ao fim do corrente ano, teremos a certeza total da nossa evidente indestrutibilidade - teremos subsistido à crise económico-financeira. Se não nos ocorrer uma camoeca de facto definitiva (como, por exemplo, a morte), teremos sobrevivido a um ataque que supúnhamos não deixar pedra sobre pedra. Mas sobreviveremos, vocês vão ver. Existem indícios e provas nada despiciendas da nossa invencibilidade. Vocês lembram-se do fascismo? E da democracia parlamentar? Ora bem, até agora, sobrevivemos a ambos. E do disco-sound? Quem imaginaria que poderíamos sair ilesos dele? E da música do João Pedro Pais? E das arengas de Sócrates? E do apanhar de cabelo de Pedro Passos Coelho? E da casa dos segredos? E…? E…? …

Não, nada mais nos pode molestar. Nem mesmo esses gerontófilos, comedores de velhinhos e das suas pelintríssimas reformas, nem os mercados, nem os mercadores e mercantilistas acéfalos que compram, vendem, alugam, trocam e revendem a força de trabalho, lavam dinheiro e se embebedam da infelicidade alheia.

Todos eles sucumbirão, eles e as suas bonifrateiras teorias económicas, o seu medonho servilismo à pata capitalista que tudo arrasa… Eles sucumbirão e nós permaneceremos imutáveis, embora aturdidos, como bois na arena depois de rabejados.

(Quem sabe, alguém desembola de vez os nossos cornos…)

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7 de janeiro de 2012

Ouvido aqui e ali

medicoHaja saúde…

- Queixo-me dos pulmões, Sr. Dr.

- Bem, vamos fazer uma radiografia.

- O Sr. Dr. quer que eu tire o casaco?

- Não! Deixe ficar o casaco, por favor.

- Mas o Sr. Dr. não quer ver se eu tenho alguma coisa nos pulmões?!

- Primeiro, quero ver se tem alguma coisa na carteira. Se der positivo, veremos então se tem alguma coisa nos pulmões.

- Ah, mas eu não tenho a carteira no bolso do casaco. Tenho-a no bolso das calças.

- Já podia ter dito que afinal o seu problema é nas ancas...

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6 de janeiro de 2012

povo que lavas no rio…

ze povinho 2O povo português é neoliberal e neo-estúpido.

Em primeiro lugar, fico obrigado a definir o que é o povo, já que se trata de um conceito muito elástico, Conceito-saco-de-sarapilheira, estica até o infinito, abarca quase tudo, desde o agricultor pobre ao assalariado miserável, do pequeno-burguês proletarizado ao profissional liberal sem crédito nem cliente, do comerciante atrapalhado ao padre-ide-em-paz, do professor-tá-bem-mas à prostituta-trinta-euros. Ecce lusum populum! E foi esse povo que, em todos os patamares votou neoliberalismo, em todas as barracas brandiu alaranjado pendão, em todos os andaimes clamou por Coelho. Tudo na esperança de uma enxerga mais mole, uma ração de aveia ou uma albarda nova.

O povo português é neoliberal e neo-burro. Meu bom povo, já estás de cilha e cabresto, dois grandes alforges te pendem do espinhaço. Já podes ir à bosta…

     Post 809  

29 de dezembro de 2011

Obsessões do meu ipod (31)

Alguém chamou a isto “accordgasm”. E, de facto, assim parece. É um jovem ucraniano, de nome Alexander Hrustevich, que assim interpreta um trecho do Verão de Vivaldi.O tremelicado é muito mais fácil de fazer com um arco de violino do que com o pesado fole e chave de baixos de um acordeon.

      Post 808     

27 de dezembro de 2011

Preparando os cursos da primavera

SabedoriaO Tralapraki, num apelo irresistível à cultura do país (e também das pessoas que estão dentro dele), apresenta desde já o seu boletim de primavera relativo aos cursos seguintes:

FILOSOFIA I - Teologia das Conveniências

Sumário:  Uma primeira abordagem a Deus (mas de modo que Ele não se aperceba). Explicação sumária do mistério da Santíssima Trindade e do mistério das finanças públicas. Você, por acaso, sabe que diabo se passou com o dinheiro? Eu também não sei, mas o idiota que vai dar este curso deve saber. Saiba ainda por que razão não existe mérito nenhum no facto de Deus escrever direito por linhas tortas. Qualquer aluno faz o mesmo, não só em relação ao Direito, mas em relação a todas as outras disciplinas... Vocês já viram a caligrafia do Nuno?  E as Traduções do Inglês que ele faz? 

Mecânica e Electricidade II

Sumário: Você sempre quis saber a razão por que não se pode fritar um ovo numa guitarra eléctrica ou enviar uma mensagem curta (sms) com um massajador íntimo? Aliás, você nem sequer sabe o que é um massajador íntimo. Fique sabendo que não se pode enviar uma sms com um destes massajadores, pelo simples facto de que o massajador íntimo já é, em si mesmo, uma bela mensagem. Agora V/ pode aprender tudo isso e muito mais, sem sair de casa e, com um pouco de sorte, sem mesmo sair da cama.

Sexualidade III

Sumário: Procedimentos para conseguir um pénis mais apelativo e, portanto, uma conta bancária maior. Este curso ensina-lhe com quantos paus se faz uma canoa e com quantas varas se faz uma  camisa de onze varas, sem esquecer a verdadeira função do pau de virar tripas. Tudo à tripa forra.  Você tem a certeza de que sabe usar um preservativo, ou, pelo menos, de que contratou uma parceira que sabe? Modos de pescar preservativos, quando eles ficam lá dentro. Para os mais jovens, o curso apresenta uma interessante introdução ao órgão genital feminino, numa perspectiva cavaleira.

Literatura Medieval IV

Sumário: As Cantigas de Amigo e  as Queixas de Marido, de João Ruiz do Castelo do Bode. Os Alunos são encorajados a escrever e enviar uma Cantiga do Bandido  à esposa boazona do grandão que mora por cima. Todo o material do curso é gratuito, inclusive a escada de emergência, a manga de bombeiro e uma caixa de primeiros socorros.

Introdução à Biologia e Miudezas II

Sumário: Este curso ensina tudo sobre aqueles órgãos de que ninguém fala porque nunca dão chatices: glândulas vilas molenas (José Afonso em Mandarim), fígado de bacalhau, pé de atleta, mão de vaca, palma de maiorca, espírito de porco, nove e tal, calcanhar de aquiles, corações de atum, tripa forra, língua da sogra, etc. Fique a saber a razão por que temos um baço e não temos um lustroso. e que quanto mais baço é o baço, menos transparentes são as atitudes dos nossos políticos. 

Você sabia que há homens que têm umas glândulas mamárias fantásticas, mesmo ao seu lado,  e não sabem o que fazer com elas, e até conseguem adormecer? E que, pelo contrário, há outros que não têm nada que preste e que, mesmo assim, ficam em casa todas as noites, e fazem milagres??  Pense nisso e sinta a tranquilidade de saber que o mundo nunca se vai virar. Boas aulas.

    Post  807           (Imagem daqui)

26 de dezembro de 2011

O ano que aí vem

feliz_ano_novoO nosso Primeiro-ministro afirmou que 2012 é o ano de todas as reformas e que tudo ficará pior antes de melhorar. E aquilo pareceu-me um comentário de Ehrman ou um corolário de Murphy. Cá por mim, não tenho expectativas negativas sobre o próximo ano, pois considero que expectativas negativas dão resultados negativos, ao passo que as expectativas positivas também. “Tudo ficará pior antes de melhorar” é um corolário puramente mecanicista, já que não nos são fornecidas dinâmicas e momentos de mudança. Tudo bem, sabemos que há uma tendência para o dia dar em noite e o preto dar em branco (como ficou provado em Michael Jackson) e que ao pé de um alto está sempre um baixo. O problema é saber quanto precisam as coisas de piorar para depois melhorar ou, dizendo de outro modo, quanto precisaremos ainda de empobrecer neste nosso caminho para o enriquecimento. E agora tudo isto me recorda uma banda desenhada de Malpertuis, onde um homem passa dezenas de quadrinhos a descer escadas de modo compulsivo, até que, no último quadrinho, chega finalmente ao topo de uma torre, de onde avista um estonteante horizonte…

Quanto às reformas apregoadas, não poderia estar mais de acordo. É preciso mudar tudo, para que tudo fique igual. Se deixarmos as coisas como estão, elas tenderão a modificar-se sozinhas, embora não necessariamente para pior. Obviamente, há que mudar muita coisa, sobretudo o que já está suficientemente bem. Se todas as coisas que estão bem forem mudadas, não correremos o risco de que elas piorem por si mesmas, antes teremos a certeza de que fomos nós que as piorámos, o que não deixa de evidenciar um ascendente de nós sobre as coisas.

Enfim, acabei agora mesmo de ver na TV que a crise acaba, de facto, no próximo ano. Mas também é no próximo ano que acaba o mundo. Seria de espantar que a crise sobrevivesse ao fim do mundo. Prefiro que o mundo sobreviva ao fim da crise, nem que eu tenha que pagar mais uma multa por isso…

   Post 806        (Imagem daqui)

23 de dezembro de 2011

Será avaria?

Hoje, quando acordei, acendi o candeeiro da mesa de cabeceira e reparei que a luz está mais amarelada…

  Post 805