| O modesto proprietário da carpintaria Torrado & Irmão viu, pela primeira vez, e por ela se apaixonou perdidamente, Helena Freitas de Macede… Amadeu Torrado casou hoje, na capela da sua aldeia, pela primeira vez na sua vida. O feliz enlace acontece numa data particularmente mítica da vida de Amadeu e mesmo da existência humana. Neste dia 23 de Outubro, cristalizaram--se alguns acontecimentos importantes quer para a espécie humana em geral, quer para a fabulosa espécie de Amadeu, em particular. Devo lembrar que Amadeu não foi (não é), nem de longe, um interventor particularmente relevante no acidentado decurso da História hodierna. O seu modestíssimo contributo resumiu-se à produção artesanal de umas quantas janelas e portas de acácia para as casas dos seus vizinhos. Porém, Amadeu sempre enfeitou os acontecimentos comezinhos dos seus rudes e monótonos dias com efemérides de mais proeminente pedigree. É assim que Amadeu Torrado articula a data do seu nascimento, neste dia de hoje e no conturbado ano de 1944, com o desencadear da mais sanguinária batalha naval da Segunda Grande Guerra. É assim que Amadeu conta que Pasternack, escritor russo, foi prémio Nobel da Literatura, com “Dr Jivago” , no exacto dia e ano em que ele próprio, o modesto proprietário da carpintaria Torrado & Irmão, viu, pela primeira vez, e por ela se apaixonou perdidamente, Helena Freitas de Macede, dois anos mais nova do que ele, mas já ostentando, ao tempo, previsíveis delícias de mulher. Aguçado o desejo por predicados femininos que haviam de ser, ficou Amadeu, até hoje, remoendo consigo a jura de a apalpar, demorada e | sensualmente, com as suas manápulas de plaina, logo que um intervalo oportuno surgisse em algum dos ciclos matrimoniais da sua Helena. De então até hoje, o coração de Amadeu manteve-se fiel, no pensamento e no registo civil, à adorada Helena, apesar de esta ter vindo, ao longo da sua vida, a coleccionar tantos casamentos quantas as decepções de Amadeu, que assim via prorrogar-se indefinidamente o momento em que a cingiria nos seus braços eternos. Foi assim que Amadeu assistiu, aos vinte e cinco anos de idade, ao primeiro casamento da sua amada, no exacto dia e ano em que Nixon retira do Vietname. E, a seguir, assiste ao segundo, em 1988, quando o furacão Ruby afunda o Dona Marilyn, nas Filipinas, matando 566 pessoas. Tudo isto em 23 de Outubro, tudo isto na vigência do amor incondicional de Amadeu. Foi hoje, pelas 11 horas da manhã, no dia de aniversário dos seus 67 anos, que Amadeu, embora mais desajeitadamente do que sonhara, amassou, com as suas mãos de serrote, o quarto vestido nupcial de Helena Freitas de Macede. O fato de Amadeu Torrado era o do Crisma… (E, pela primeira vez na sua vida, Amadeu não conseguiu aliar a este evento nenhum outro de semelhante grandeza) Post 786 Imagem daqui) |
23 de outubro de 2011
Alguns casamentos depois…
22 de outubro de 2011
inspiração ao gosto clássico
Possuo um inestimável e suigeneris aluno. 11º ano profissional. Há dias, chegou-se a mim para me mostrar “a sua última criação poética”, como referiu. Comecei a ler o seu poema: “Amor é fogo que arde sem se ver / É ferida que dói e não se sente / É um contentamento descontente / É dor que desatina sem doer…”
Disse-lhe eu então: “Não percebo muito de poesia, mas parece-me muito bom. É mesmo teu?” “Claro que é meu, professor!”. “E como é que tu consegues escrever estas coisas?!”. Resposta pronta: “Sei lá, Profesor! Ocorre-me assim, de repente. Deve ser inspiração, sei lá!…”
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repescando tralices
20 de outubro de 2011
Recomeço
O Tralapraki reabre de vez no dia 23 de Outubro. Pensámos seriamente em abrir falência. Porém o amor a este país, a este governo e a este povo fez-nos arrepiar caminho. Afinal de contas, há os empregados, o irs, o iva 23, a necessidade de exportação, etc. Além disso, o Tralapraki é um serviço público gratuito, muito bom, embora tendencialmente pior, até ficar completamente cretino, o que poderá acontecer ainda antes da bancarrota do país. Obviamente, sendo grátis, o Trala não resolve nenhum problema de nenhuma espécie. Nisto, segue os exemplos meritórios de todas as restantes instituições, mesmo aquelas que, não sendo grátis, se mostram igualmente imprestáveis.
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19 de outubro de 2011
É dia de anos…
O Tralapraki faz hoje cinco anos. Está aqui está a entrar para a escola. (E bem precisa, a ver se aprende alguma coisita…)
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15 de outubro de 2011
Vou voltar…
Eu sei que tenho dois ou três amigos por aí espalhados que apreciam (ou, pelo menos, suportam) ler o Tralapraki. Fiquei meio translúcido com os últimos desenvolvimentos politico-económicos e perdi parcialmente salário e imaginação. Mas vislumbra-se para muito breve uma nova onda de factos imperdíveis que obviamente tentarei trazer praki. Voltarei, pois, brevemente, alforges recarregados de birras, bocas e berros. De amuos e farpas. Um esgar torcido e amarelado também…
Voltarei. É uma ameaça!
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19 de setembro de 2011
18 de setembro de 2011
“…mas um velho de aspeito venerando…”
Um amigo da minha idade, que também ainda não conseguiu fugir da escola, escrevia-me há dias mais ou menos assim: ”A minha delegada de grupo é uma jovem de pouco mais de três décadas de idade, talvez quatro, no máximo. Precisa subir apenas um ou dois escalões para chegar ao topo da carreira. Mas, segundo ela, os escalões podem esperar…
Chamou-me para a ajudar a preencher os meus descritores de avaliação, que são descritores de quem não quer mais que um BOM. Fui com ela ver a grelha, que elencava, imponente, descritores de avaliação inverosímeis. Grande parte deles não me calavam, de facto, fundo na alma. Para ser sincero, não entendi mais que um terço deles, nem quanto à exegese nem quanto às intencionalidades. Nenhum deles me fazia, portanto, grande sentido. (Na minha idade e estatuto, cada vez menos coisas fazem sentido).
Diante do meu insistente pedido de colocar NÃOs por ali abaixo, ela aquiesceu em colocar apenas alguns, de modo a não comprometer o meu Bom. Se ela acedesse ao meu pedido, nem um REGULAR eu ia tirar naquela joça toda…
Ainda bem que tenho uma Delegada de Grupo companheira, compreensiva e suficientemente gerontofílica. Nem todas são assim por esse secundário fora, eu vos garanto…”
Depois, estendeu as pernas, bebeu um trago e suspirou reconfortado…
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14 de setembro de 2011
Era o que eu fazia, palavra de honra…
Com o fim de denunciar uma alegada perseguição do governo à classe média portuguesa, Nuno Pombo proclama que uma pessoa que ganha 5000 euros por mês não pode ser considerada rica. Acrescenta ele ainda que considerar rico um tipo que ganha aquele salário só pode ser uma estratégia de insuflamento do ego português por meio de um processo indutivo perverso. (Já não me lembro se as palavras são dele ou minhas, mas o conceito permanece idêntico…)
Porém, a falar verdade, nas minhas relações de amizade não há ninguém que ganhe sequer metade daquilo. E eu não vivo na Nigéria, no Botswana ou no Sudão, caramba.
A ideia que eu tenho de um bom ordenado difere certamente da de Nuno Pombo. Eu acho que sim, que 5000 euros por mês é, de facto, ordenado de quem deveria ser obrigado a fazer mais alguma coisa por este país...
Cá por mim, se tivesse um ordenado de 5000 euros por mês, até deixava de trabalhar… ;)
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8 de setembro de 2011
Eficácia eficácia, sexos à parte
A filosofia educacional do professor Everett J. Wilson, director do secundário na Masters School (Estado de Nova York), promove a separação dos sexos, com vista à aprendizagem diferenciada de rapazes e raparigas. A filosofia, apesar de nos parecer retrógrada e um pouco rançosa, pode muito bem estar certa, pelo menos em parte.
No meu tempo (algures entre a Antiguidade Oriental e os Beatles), não havia turmas mistas. Todos desconfiávamos da existência de raparigas, mas nenhum de nós tinha, até então, tido a ventura de estar a menos de cinquenta metros de uma delas. A primeira vez que vi uma garota numa das minhas turmas foi nos finais da década de sessenta, eu era um morceguito de 17 anos e nunca mais dei uma para a caixa nas aulas de Latim… Ainda hoje não consigo descrever a perturbação que aquela presença feminina trouxe à minha vida académica e à organização das minhas aprendizagens. (Um pouco mais tarde descobriria que o estrago que as mulheres provocam nas nossas vidas vai, de facto, muito além da nossa carreira académica).
Por seu turno, as raparigas não são menos prejudicadas nas turmas mistas, por causa das bocas impróprias ou extemporâneas da inconsequente e boçal rapaziada. De facto, é visível que a canalha do sexo masculino se costuma armar aos cágados com as suas alarvidades e que as garotas, mais maduras, acabam por lamentar o tempo que estão ali a perder na sua companhia…
Um pouco mais a sério, quem defende a teoria da separação de género baseia-se na diferença de ritmos de aprendizagem, embora não sustente, de modo inequívoco, qual dos sexos é mais rápido e qual mais lerdo.
Com um pouco de azar, perfila-se no horizonte uma nova divisão de trabalho. Basta acrescentar à questão dos ritmos de aprendizagem alguns programas, cargas horárias e disciplinas um pouco mais consentâneas com a sensibilidade do belo sexo. Et voilà.
E é assim que, em nome da eficácia educativa, se sacrifica o festivo colorido de uma turma alegremente promíscua e atarantada. Tudo no bom sentido e a bem da nação, é claro... :)
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