14 de julho de 2011

Minudências minhas

vinho_tacaA culinária

Hoje apresento-vos uma refeição que se prepara só com vinho. Exacto, uma refeição completa, rápida e saborosa, feita com um belo copo de bom vinho tinto.

Vá até uma boa garrafeira, ou mesmo um supermercado, e adquira uma garrafa de um bom vinho tinto. A marca não importa, conquanto seja um vinho de qualidade superior. Chegue a casa e, delicadamente, pegue num saca-rolhas e extraia a rolha devagar, tentando impedir que algum pequeno fragmento de rolha caia dentro do néctar. Muna-se de um copo grande, balonado, de pé alto, e despeje dentro dele uma boa porção de vinho tinto, mas sem encher, para poder agitar o copo e libertar melhor o aroma desse indizível líquido. Coloque o copo à sua frente. É tudo. A sua refeição está pronta. Bom apetite.

PS. Pode acompanhar com um cabrito assado no forno, arroz, batata assada, uma boa salada mista, melão, queijo, doce, café e bagaço.

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12 de julho de 2011

Um “slow” na esquina

dogEra um velho cartoon de 71, salvo erro: Um baile canino. Uma menina de laçarote e olhos pestanudos sentava-se, calma e descontraída, um pouco irreverente na sua pose de canina provocação, rodeada de uma excelentíssima matilha, tudo gente de pedigree nobre, olhando-se, medindo-se, a ver qual deles tiraria a pequena para dançar. Não falavam, simplesmente se avaliavam mutuamente, em termos de armamento disponível, para o caso de tal assédio poder descambar em rosnado ou duelo, mordidas ou barraco naquele baile de rua. Ela, como já foi dito, entre atrevida e intimamente lisonjeada, apreciava, com um sorriso percepível nos beiços (tanto quanto um sorriso pode ser percepível num focinho de cão), aquela manifestação do mais contido cavalheirismo canino.

É então que, de repente, surge na esquina um vira-lata assumido. Vira-lata, sem dúvida, mas bastante sexy na sua pelagem recém-lavada e escovada, de um brilhante negro-prateado. Aproximou-se do grupo de cavalheiros e dirigiu-se-lhes assim, à queima-roupa: “Algum dos senhores é pai, mãe, irmão, tio, marido, namorado ou primo desta menina?” Enquanto se refaziam da inusitada intervenção do rafeiro, deram por si respondendo em uníssono: “Não!”

“Então, com licença!” – responde o vira-lata, tirando a garota para dançar um romântico slow. (É óbvio que, entre os caninos, aquilo a que chamo “dançar um romântico slow” é, de facto, um acto um pouco mais pragmático e explícito…)

Só não fui mais claro e objectivo, para não chocar o grupo de cavalherios pedigreeados que se entreolhavam aturdidos com os factos descritos…

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10 de julho de 2011

chafurdando por aí…

soberbaEis alguns comentários facebookistas a propósito da notícia sobre o pedido de licença sem vencimento avançado por Sócrates, com o intuito de prosseguir estudos:

UMA:   A ver se aprende alguma coisa! Acho digno sim senhor.

OUTRA 1:  Para quê VENCIMENTO? Tem muito por onde se governar, pela certa!!! Os portugueses já pagaram tudo!!!!!!!!

OUTRA 2:  Com aquilo que roubou aos portugueses, pode-se dar ao luxo de pedir licença sem vencimento.

OUTRA 3:  Será desta que o gajo vai tirar uma licenciatura? Eu não acredito...

1 pessoa gosta disto

UMA: É verdade... Ele está cheio de dinheiro e não precisa de trabalhar, enquanto que muitos, por causa dele, estão a passar fome...

Nada tenho a favor de Sócrates. É até provável que tenha, em algum momento do seu mandato, exultado com a possibilidade de o ver pelas costas. Poderia até ter sido uma alegria esfuziante vê-lo cair, se não tivesse visto logo outro levantar-se. De facto, Sócrates pouco nos ensinou, pelo que não é de estranhar que as pessoas acima tenham feito tanto jus à ignorância, à soberba, à arrogância, ao provincianismo e à canalhice. Se não, vejamos:

UMA- Certamente Sócrates não sabe quase nada, pelo menos quando comparado com esta comentadora, que até sabe usar de ironia de primeira instância (acho digno sim senhor). (Arrogante ignorância)

OUTRA 1 e OUTRA 2- Quem prescinde do seu vencimento só pode ser alguém que roubou o erário público e construiu uma fortuna obscena. (Indicativo de pensamento primário e de provincianismo lorpa, apesar de o facto poder até ser insofismável.)

OUTRA 3- Esta, obviamente, tem uma

licenciatura. Normalmente, estas pessoas têm uma licenciatura refulgente que, quase sempre, deu trabalho e exigiu muito mais sacrifício que qualquer outra das redondezas. Não raro têm licenciaturas a sério, por contraste com todas as outras que foram compradas ou conseguidas à custa de desonestidades diversas e sempre mais ou menos inconfessáveis. (Provincianismo e soberba qb)

1 pessoa gosta disto: (Há sempre mais um cretino que adora este tipo de canalhice).

UMA: Esta garante que Sócrates está cheio de dinheiro. Sabe-o sem margem para dúvidas, visto que ele prescindiu do seu ordenado.

Resumindo: Sócrates é um ignorante que, depois de tirar o pão a muitos portugueses, resolve finalmente ir para a escola a ver se aprende alguma coisa. Obviamente, continuará sem se bacharelar. Pelo menos, nunca se bacharelará tanto e tão bem quanto as mais refinadas bacharelistas da nossa provincianíssima praça, do nosso tão sui-generis facebook nacional.

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8 de julho de 2011

amigos e bicos de mangueira…

amigosJá aqui demonstrei por diversas vezes que os amigos não servem para nada. Gostaria que não pressupusessem de imediato que me sinto desiludido ou decepcionado com as suas supostamente perversas atitudes para comigo. Nada disso. Se pensasse assim, cairia pela base esta minha teoria, uma vez que, nessas circunstâncias, nunca poderia afirmar que eles não servem para nada. Ao invés, teria que concluir que eles servem, pelo menos, para nos aporrinhar a vida. Mas não. Os amigos não servem mesmo para nada. Simplesmente isso. Sem conotações nem antífrases.

Alguns de nós coleccionamos amigos como quem colecciona caixas de fósforos ou cromos de caderneta. Fazemo-lo porque achamos conveniente fazê-lo, já que criamos sobre eles expectativas improváveis que têm a ver com a sua possível utilidade em situações futuras. Lamentável equívoco.

A minha casa está cheia de quinquilharias imprestáveis, do pavimento ao tecto, esparramando-se abusivas por todas as gavetas, armários, prateleiras e baús, usurpando o meu próprio espaço, impedindo-me de caminhar, de respirar, de mudar de vida, de me reconfigurar. Adquiri essas quinquilharias (ou simplesmente as recolhi, condoído), na esperança de que elas um dia me pudessem preencher algum tipo de tédio, de vazio, me restituíssem alguma felicidade perdida, me poupassem algum dinheiro.

Sei, no entanto, que tenho algures, por certo em alguma prateleira inusitada,OLYMPUS DIGITAL CAMERA         exactamente aquele terminal de mangueira que tive que comprar hoje para regar o jardim. Assim como sei que, há quarenta e cinco anos, fiz um amigo rico que me poderia ser útil hoje, subtraindo-me a este meu desconfortável aperto financeiro.

Mas onde diabo está esse amigo? Onde diabo está o terminal da mangueira?

   Post 761    (Imagens daqui e daqui)

2 de julho de 2011

a palavra dos outros

Odete Ferreira   “Auto da Desorientação”  (Primeira Parte)

Gil vicenteEstávamos no ano 2000 e Odete Ferreira produzia toda a obra dramática (e artística em geral) para as Escolíadas do tempo. Obviamente, a sua intervenção saldava-se sempre por vitórias esmagadoras da escola onde leccionava. Espero que a autora me perdoe plantar flor tão nobre em tão modesto canteiro.
Além disso, vou ser um pouco perverso para com os meus leitores e publicar o auto em folhetins, obrigando-os a voltar cá mais vezes. (Não imaginam como caiu a popularidade do Tralapraki, desde a eleição da maioria reaccionária)

Eva:

Chamar-vos aqui eu quero,

Ó sábias almas errantes,

P’ra que digais quanto antes,

Só a verdade, assim espero.

Aqui haveis de contar,

Com vossa arte tamanha,

Se voltamos para o mar

Ou se emigramos pra Espanha

Que Portugal, vinde ver,

Já não tem de que viver.

Ana Lúcia:

(Ouvem-se pancadas na mesa)

Ou lá!

Pedro:

Ah, má hora este é!

Quem é?

Gil Vicente:

Homem de pé!

Gil Vicente, servidor de Portugal

E teatreiro real.

Pedro:

Agora, aramá!

Porque viestes vós cá?

Gil Vicente:

Asinha cheguei aqui,

A este país sem jeito,

Que já não estuda direito

As farsas que eu escrevi.

Ora já não há respeito,

Neste país de farsantes

De ricos e pobretões

De gente que anda a penantes

E de grandes glutões.

Pedro:

Vejo que estais informado!

Que vedes telejornais

E que ledes os jornais.

Eu cá não gosto de ler!

Não estejais arrenegado

Com maus tratos que vos deram

Injustiças sempre houveram!

Eu sou um pobre estudante

Não sou ministro de estado

Não sou jota ou assessor.

Mas olhai que queria ser!

Mas prontos, não sou letrado

Mas não sou ignorante

E hei-de ser um doutor,

Isto sim é coisa séria,

Um doutor lá das finanças

Para gerir as poupanças

Que faça engenharias

Falcatruas, porcarias

Neste país de miséria.

Gil Vicente:

Tu, um dia, seres doutor?

Mas que patranha maior!

Só se fores da mula ruça

No dia que a vaca tussa!

Tu não sabes português

Quanto mais economês!

Ouve bem agora aqui!

Política, é que é pra ti

Não precisas de estudar!

Tu assinas o cartão

Aprendes a bajular

E a dar opinião

Mesmo sendo inconsciente

Dás palpites no jornal

E vais ver que de repente

Ficas intelectual

E quem sabe, Presidente!

Maura:

Eu estou quase a flipar!

Não sou afim de estudar.

Gosto bué de novelas

E da escola das estrelas

Estudar é uma chatice

O que eu queria era ser misse

Quem vence é quem tem espertice

Quem nos outros se marimba

E quem for estrela pimba.

Quem fizer televisão

Pode ser ignorante

Mal falante, parolão

Mas tem o mundo na mão

Eu quero ser desta gente

Ajudai-me, Gil Vicente

Gil Vicente:

Televisão? Dizes tu?

T’ arrenego, belzebu!

Mas...

Se tu queres fazer novelas

E outras coisas que tais

Ó rica, tu diz balelas

“Que giro!” e outras mais

Mete-te no social

Manda foto pró jornal

Vai às festas a Cascais!

Bruno:

E eu, mestre Gil Vicente?

Sou como vós um actor!

Não me quereis fazer um jeito?

Dai-me fama e bom proveito!

Isto não está pr’a culturas

Ser artista é o caraças

O teatro está às escuras

Só o futebol tem massas!

Há-de um actor ter futuro

Ou comer sempre pão duro?

Gil Vicente:

Pede esmola, ora essa!

Sempre disse o presidente

Que um artista não é gente

Se não tem fundos, que peça!

Pra viver também pedi

Um subsídio real

Pisei palcos, escrevi

Porque a arte em Portugal

É tolice que acontece

Se queres na vida cantar

Tens de andar sempre a esmolar

Malhas que o Império tece!

Bruno:

O vosso conselho é duro

Já nem vós nos fazeis rir

O que nos traz o futuro?

Para onde havemos de ir?

Gil Vicente:

Aí não podeis folgar

Muito menos teatrar!

O melhor é emigrar!

Ide pra terras de leste

Para o sul ou pro Evereste

Ou retornai-vos ao mar!

Eu vou-me já pôr a andar

Que este país está de tanga

E vai p’rá guerra fandanga.

(Marcha militar) (continua)

Post 760     (Imagem daqui)

1 de julho de 2011

Passos Coelho a caminho da revolução socialista

PedroPassosCoelhoNo que respeita a ordenados, o recente corte no subsídio de Natal veio, ao contrário do que os sindicalistas quiseram fazer crer, contribuir para uma brutal “socialização” do sistema capitalista. De facto, estes cortes trazem uma redução drástica do fosso entre os ordenados mais altos e os mais baixos. Provavelmente, os sindicatos gostariam de uma maior aproximação entre uns e outros, quem sabe mesmo uma conveniente igualização. Porém, a diferença que separará o melhor do pior natal será, em Dezembro, muito menor do que aquela que os separaria, no caso de não haver cortes. É um passo de gigante a caminho do socialismo e da justiça social, entendendo-se esta como a tendência para o igualitarismo socializante. Este governo é declaradamente socialista! E ponto final.

               

Ordenado

 

Inci-

Corte

Subsídio 

Total

 

Sem cortes,

líquido

 

dência

 

a receber:

a receber

 

receberíamos:

 

 

 

 

 

no Natal:

 

 

               
1000   500 250 750 1750   2000
               
1500   1000 500 1000 2500   3000
               
2000   1500 750 1250 3250   4000
               
2500   2000 1000 1500 4000   5000
               
3000   2500 1250 1750 4750   6000
               
3500   3000 1500 2000 5500   7000
               
4000   3500 1750 2250 6250   8000
               
4500   4000 2000 2500 7000   9000
               
5000   4500 2250 2750 7750   10000
         

DIFERENÇA

DIFERENÇA

6000 EUROS

8000 EUROS

               

  Post 759       (Imagem daqui)

27 de junho de 2011

400 funcionários da UE despedidos liminarmente…

ueReforma aos 50 anos, depois de 15 anos e meio de trabalho – 9.000 euros mensais. Parece que é isso o que os funcionários de UE irão receber agora, na sua pensão de velhice, aos 50 anos. É muito? Claro que não. Eu é que estou ganhando pouco.

Se quisermos ver a situação por outro prisma, diremos que é exactamente o que ganham os reformados portugueses da classe operária, só que estes é por ano… No fim de contas, é como se os funcionários da UE almoçassem 14 vezes por dia enquanto um  reformado português apenas almoçasse uma. Ora bem, eu não vejo nenhuma necessidade de se almoçar catorze vezes por dia, embora reconheça que não é nenhum exagero, visto que ainda subsistiriam 10 horas sem comer, partindo do são principio que um almoço decente demora uma hora. (Pelo menos o meu sempre demorou mais um menos isso)...

Ora, para um operário fabril, um almoço por dia chega e sobra, até por uma questão de saúde, já que os operários costumam ter uma saúde um pouco debilitada por causa da poluição e do suor. Se o operário aderir ao ramadão, não lhe custará muito. E mesmo na tradição judaico-cristã, jejuar faz imenso bem à saúde.

Quer isto dizer que está tudo bem, e até acredito que esses funcionários da UE possam vir a convidar alguns famintos portugueses para a sua mesa, no dia de Camões ou pelo Sao João…

Vocês têm é vontade de criticar e nunca estão bem, isso é que é  verdade…

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24 de junho de 2011

Minudências minhas

VELHINHAA avó

Minha avó era uma católica fervorosa. Mas não havia nela nada de exegeta, de modo que nunca a perturbou o facto de nada entender da missa, de deus e da história sagrada.

Aliás, a missa, toda em latim, estava lá onde devia estar, no alto (sursum corda), junto às divindades, de quem provavelmente provinha.

Os humanos, de rojo pelo lagedo, permaneciam onde sempre estiveram, muito aquém do entendimento, a anos-luz de qualquer percepção fenomenológica, nenhum deles elevando a caixa da inteligência a mais de metro e meio do solo onde plantava as couves.

E a minha avó rezava os orações (oração era palavra masculina na minha terra) sem ligar muito ao que o padre dizia. Na sua íntima confabulação com o todo-poderoso, entendia a seu bel-prazer o discurso divino que, como já se sabe, era coisa de deuses e, por conseguinte, impossível de decifrar.

Agnus dei, qui tollis pecata mundi … E a minha avó, por entre a ladainha a nossa senhora, aprendida na costura por volta dos seus dezassete anos, “miséria noves”.

A minha avó rezava “bendito é o fruto do vosso ventre, oh Jesus”. O facto de ter sido Jesus a produzir um fruto no seu próprio ventre nunca a atormentou. E por que carga de água deveria? Não poderia Jesus criar peras e maçãs na própria barriga, ou mesmo melancias e abóboras? A deus nada é impossível.

E a minha avó, a quem nunca ensinaram referentes gramaticais, que nunca vislumbrou a diferença entre um vocativo e um aposto ou continuado, viveu todos os seus dias sem entender que tipo de relação deus tinha ou pretendia ter com o mundo cá em baixo. Contudo, parecia-lhe sempre que ele tinha para com os mortais o mesmo tipo de bazófia que o Chico da barbearia tinha para com a garotada que ostentava tímidos bigodes ainda ilegíveis…

Deus, o padre, a nossa senhora, o barbeiro Chico, Jesus, o Latim, fruta que nasce no duodeno. Tudo maravilhosamente obscuro, convenientemente nebuloso. Como a própria vida.

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23 de junho de 2011

repescando tralices

barbudoClaudino Mendes   (17 de Julho de 2010)

Claudino Mendes, antigo combatente da primeira guerra, vivia, nos alvores dos anos sessenta, num pardieiro em ruínas que fora em tempos cortelha de galinhas, nos limites da povoação chamada do Cabeço. Conheci-o. Tanto quanto mo permite agora a memória das coisas que se guardam na infância, assemelhava-se a um daqueles profetas do Antigo Testamento que povoavam a minha Bíblia das Escolas – longas barbelas hirsutas, gabão de surrubeco corroído, olhava-nos garboso do alto dos seus quase dois metros e dos pergaminhos ilustres do posto de cabo de infantaria que honrou na Flandres. Claudino Mendes era o tolinho do Cabeço. Intrigados com tal personagem, costumávamos espiá-lo dentro do seu galinheiro, aconchegado no gabão, pés de fora do cancelo aproveitando os ténues raios de sol das tardes de inverno.

Maria das Dores surgiu, afogueada, do quintal vizinho, transportando na mão um grande saco de abrunhos amarelos.

- Oh Ti Claudino, arranje-me aí um pratinho que eu deixo-lhe uns poucos destes abrunhos.

Claudino Mendes olhou para dentro do barraco e chamou:

- Copeiro, traz uma salva da cristaleira para guardar os abrunhos da Senhora Maria das Dores!…

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22 de junho de 2011

Aprender pelo exemplo…

alunoUma das teorias mais erradas sobre a educação dos nossos alunos é a que nos assegura que as crianças aprendem pelo bom exemplo. Ora bem, aprendem pelo bom exemplo de quem? Eu vos asseguro que não é pelo exemplo impecável dos professores. Seguirão certamente, e sem o mínimo desvio, o exemplo dos craques de futebol ou dos roqueiros mais da berra, mas nunca o exemplo dos professores.

Os professores são pobres, honestos, dinâmicos e… estafados. Os seus alunos esforçam-se, portanto, por serem ricos, pilantras, madraços e folgados. E sê-lo-ão com prazer, desde que isso signifique contrariar os seus pobres mestres.

Na verdade, se queremos construir uma juventude trabalhadora, activa, responsável e disciplinada temos que lhes passar a imagem de que somos exactamente o contrário, adoptando posturas claras de mandrião, de insubordinado, de inconsciente e de madraço. Assim, devemos esquecer-nos sistematicamente de dar testes ou, no caso de darmos algum, devemos esquecer-nos de o corrigir ou entregar; devemos desistir definitivamente de preparar aulas ou de produzir materiais didácticos; devemos passar ostensivamente a ressonar nas aulas e a arrastar os fundilhos pelos pestilentos corredores (beijos, abraços e amassos incluídos); devemos negar hoje o que afirmámos ontem e desatar a morder canelas de directores e encarregados de educação, e de tudo o que mexe, e sujar as paredes e pontapear as mesas e distribuir murros e cabeçadas por tudo o que cruzar o nosso caminho. Se conseguirmos operar em nós esta desejada transformação sociopedagógica, produziremos finalmente os cidadãos honestos, educados e respeitáveis que sempre quisemos ter e nunca tivemos, simplesmente porque, inocentes, acreditámos no poder do bom exemplo.

Maior estultícia ainda do que essa é acreditar que os nossos alunos ainda nutrem por nós alguma réstia de admiração e respeito. É estado de imbecilidade severa, exigindo internamento.

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19 de junho de 2011

a palavra dos outros

louçaVia Francisco Louçã e Facebook, chegou-me agora mesmo uma Carta de Saramago à sua Avó. Diante de tanta beleza, não podia deixar de replicá-la aqui.

"Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Saramago_JoseEstou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua".

Imagens daqui  e daqui    Post 754