15 de junho de 2011

Minudências minhas

medoO medo

Fiz o 25 de Abril, tenho 60 anos, duas ou três doenças graves, três casamentos, dois divórcios, uma bala enfiada na coxa e um emprego de 1300 euros. Teoricamente, já não deveria ter medo de nada…

E, de facto, só tenho medo de duas coisas nesta vida: da morte, pelo facto de não a conhecer e do 7ºB, pelo facto de o conhecer tão bem. A morte assusta-me pela sua inevitabilidade. O 7º B assusta-me pela sua irredutibilidade. Nada pára a morte e muito menos coisas conseguem parar o 7ºB: nem o Director, nem a expulsão, nem notas vergonhosas, nem violência, nem jeitinho, nem amor, nem raiva. O 7ºB não pára nunca, não se cala jamais, nunca abandona a sua férrea indisciplina, a sua permanente insolência,  a sua sistemática e constante desordem física e mental. O 7ºB, amigos, espreita a cada esquina. Matricula-se ano após ano, quer tu queiras ou não, e esse facto traz sonâmbulo de pânico o Director de Turma. O 7ºB esmurra joelhos, cotovelos, armários e narizes. Esmurra indelevelmente a auto-estima dos professores.

Por vezes pergunto-me se não haveria outro lugar onde o 7ºB pudesse ser encafuado, de modo a não causar tanto dano, de modo a não provocar tanto desastre num só dia…

Dizem-me logo que não! Que turma de miúdos destes só pode mesmo é “estar” na escola. Aspei “estar” porque jamais essa turma foi capaz de “estar” em algum lado. Aquela turma nunca “está”. Move-se furiosamente para a esquerda e para a direita, para diante e para trás, sem nunca aquietar onde seria suposto fazê-lo: com os fundilhos pousados sobre uma cadeira. (Não, cola está fora de hipótese, dizem-me agora).

Obviamente, vou jogar todo o meu poder de sedução (que espero ainda me acuda) para que Deus, um bafejo de sorte ou o Director afastem de mim esse cálice. Para sempre, se possível.

Se “para sempre” não for possível, que a turma venha ter comigo de novo no dia em que o meu outro terror (tenho dois, lembram-se?) resolva rasteirar-me um dia desses... Tenho certeza de que o 7ºB me prestará, então, um enorme serviço, atenuando o medo que sentirei nesse momento.

(Talvez então esse meu outro íntimo terror nem me pareça tão pavoroso…)

 Post 750     (Imagem daqui)

11 de junho de 2011

Atropelos

atropeloTodos sabemos que se aproximam lutas, urros, uivos, arruaças e revoltas, manifestações e greves. Sabemos que haverá contestação nas ruas, quer isso resolva os nossos problemas, quer acrescente problemas novos aos que já temos. E uma das mais importantes guerrilhas que se desenham no horizonte curto é a que oporá a troika à já semi-espoliada Constituição de 1976.

A perspectiva do atropelo já voa por aí de boca a orelha. É já palavra corrente que muitas das directivas referidas no documento da troika atropelam, com o seu revanchismo atrevido, a Constituição da Republica.

Por outro lado, não faltará quem sustente que a Constituição, no seu resguardadíssimo articulado, atropela as directivas referidas no documento da troika.

O atropelo será, portanto, mútuo, como mútuas serão as diatribes produzidas. Ou, se preferirem, a irresponsabilidade de uns atropela a tirania dos outros.

(E vice-versa, pois claro.)

   (Imagem daqui)       Post  749  

10 de junho de 2011

Empecilhos

dicionarioTropecei num ponto de interrogação mal arrumado e deixei cair o dicionário. Detesto coisas em gancho, como pontos de interrogação, anzóis, embustes e outras esparrelas onde facilmente se tropece. Detesto a minha desengonçada aselhice para evitar o que me enrola, enrolando-se nas patas…

As palavras espalharam-se pelo chão, arfantes, boquiabertas, atónitas. Algumas estavam a recuperar do abuso a que foram sujeitas ultimamente. Dormiam no fundo das páginas o sono reparador que vem depois da canseira. Outras, mais evasivas, esgueiraram-se escada abaixo e saíram rastejando por debaixo da porta. As mais voláteis e etéreas apanharam boleia num sopro que uma janela aberta debitou na sala.

Perdi-as quase todas. Só recuperei as mais trôpegas, as que os políticos não quiseram, as que os poetas desprezaram, as que ninguém solicita ou admira. Com elas fiz isto que os meus pacientes leitores acabaram de ler…

   Post  748      (Imagem daqui)

5 de junho de 2011

1. Para lá da noite eleitoral (1)

derrotaSócrates acabou de fazer agora mesmo o melhor discurso da sua vida política. O discurso dos derrotados é sempre mais grandioso que o dos vencedores. Existe neles a patine do tempo que se esvai e que nos mostra, a posteriori, aquilo que nem sempre conseguimos entender, aquilo que nem sempre nos pareceu ter sido bom… E certamente não foi.

Também eu sinto algum alívio nesta ruptura. No entanto, não vislumbro dias mais felizes que os que vivi até agora. Um discurso demagógico? Pode ser. Mas também pode ser que venhamos a ter saudades deste que foi o melhor discurso, ainda que demagógico,  de um certo e provisório abandono, por uma porta modesta, mas suficiente em absoluto…

                                                                                Post 747    (Imagem daqui)

3 de junho de 2011

afonia e optimismo

afoniaSeja quem for que nos venha a governar, estará rouco. Nosso próximo primeiro-ministro será sem dúvida um indivíduo afónico e, simultaneamente, (o que talvez seja pior) impotente. Nosso futuro primeiro ficou rouco por berrar alarvidades e impotente por as sufocar. Jamais se vira enrouquecer tanto por tão exígua qualidade discursiva, tonitruante potência pulmonar na razão directa da vulgaridade das ideias.

Não nos iludamos. No momento em que decidimos partir para estas eleições, momento esse que coincidiu com um pedido de empréstimo ao banco maior, já sabíamos que só havia dois caminhos no horizonte: optar por saldar a dívida e continuarmos de cabeça medianamente erguida; ferrar o calote e hipotecar o país com ministros e monumentos e campos de golfe e fábricas e misérias e a História e os Lusíadas e hotéis e spás e três dinastias de reis e outras tantas de burrice crónica e de chicoespertismo primário. Obviamente, havia uma outra hipótese: não pedir o empréstimo e pagar os salários com tomates, abóboras e pepinos (antes da sua desvalorização pela escherichia coli).

Mas é na decisão pelo comportamento digno e honesto, isto é, o pagamento do que devemos, que reside o mais radical impasse, o mais intransponível obstáculo à salvação deste improvável país. Optar por cumprir os nossos deveres (armados em país de boas contas que aceita orgulhosamente encostar a barriga ao balcão depois da rodada geral) arrasta consigo o seu contrário, ou seja, a impossibilidade técnica de os cumprir algum dia. Não passa de tomar os desejos por realidade. Mesmo nos nossos sonhos mais aventureiros, não ousaríamos acreditar que seremos capazes de pagar 78 mil milhões, a juros de 5 por cento, em menos de dois ou três séculos, isto se estivermos a ser imprudentemente optimistas.

Mas os nossos candidatos acreditaram nisso e enrouqueceram por isso. Não valeu a pena terem maltratado tanto as suas desgastadas cordas vocais. Tanto mais que precisarão delas para mandar calar os alaridos da populaça…

   Post 745 (Imagem daqui)

14 de maio de 2011

as eleições que estão a dar

campanha-eleitoralNem sempre o mais caro é o melhor. Quando estas eleições foram anunciadas em plena crise parti logo para aquela posição maniqueísta de que é mais um gasto desnecessário, mais um desvario ostentatório, mais uma acha na fogueira cada vez mais acesa da nossa dívida pública. Quando fui informado de que, possivelmente, estas eleições teriam campanhas modestas e controladas, sosseguei um pouco. Mesmo assim, achei o preço delas excessivo, quando me apercebi de duas coisas: 1- Elas não servem para nada. 2. É possível encontrar programas de televisão bastante mais em conta, sem desmerecerem do factor diversão.

Pensava mais ou menos o que fica dito mas, logo que entrámos na pré-campanha, mudei radicalmente de ideia. Na verdade, não há dinheiro que pague a boa disposição das pessoas. E o riso é factor inebriante que nos conduz momentaneamente à felicidade suprema. Parece que nenhuma campanha anterior foi mais barata do que esta e tenho certeza de que esta tem sido e será a mais divertida. Tenho a certeza de que vocês imaginam do que falo. Desconfio que também vocês se estão a divertir como nunca antes. Que viva, pois, esta cómica campanha, cuja comicidade aumenta na razão directa da sua modicidade…

  Post 744     (Imagem daqui)

6 de maio de 2011

coisas giras por email

europaKuing Yaman, um professor de economia chinês que viveu em França, fala assim da sociedade europeia: (Chamo, porém, a atenção do leitor para a possibilidade de a alegada entrevista cedida pelo Professor Yaman ter sido forjada, se fizermos fé em suspeitas levantadas por alguns comentadores. Diz-se até que tal entrevista nunca existiu e que o video, falado em Mandarim, que originou o texto que se segue, está legendado de modo aleatório, como frequentemente acontece entre nós.

Não sei, de facto, se o que se segue foi dito por Kuing,  nem sequer se Kuing existe. Seja como for, não duvido por um segundo de grande parte do aqui aqui se diz, quer se trate de pura mistificação, quer não)

1. A sociedade europeia está em vias de se auto-destruir. O seu modelo
social é muito exigente em meios financeiros. Mas, ao mesmo tempo, os
europeus não querem trabalhar. Só três coisas lhes interessam:
lazer/entretenimento, ecologia e futebol na TV! Vivem, portanto, bem acima
dos seus meios. Porque é preciso pagar estes sonhos de miúdos...
2. Os seus industriais deslocalizam-se porque não estão disponíveis para
suportar o custo de trabalho na Europa, os seus impostos e taxas para
financiar a sua assistência generalizada.
3. Portanto endividam-se, vivem a crédito. Mas os seus filhos não poderão
pagar 'a conta'.
4. Os europeus destruíram, assim, a sua qualidade de vida empobrecendo.
Votam orçamentos sempre deficitários. Estão asfixiados pela dívida e não
poderão honrá-la.
5. Mas, para além de se endividar, têm outro vício: os seus governos
'sangram' os contribuintes. A Europa detém o recorde mundial da pressão
fiscal. É um verdadeiro 'inferno fiscal' para aqueles que criam riqueza.
6. Não compreenderam que não se produz riqueza dividindo e partilhando mas
sim trabalhando. Porque quanto mais se reparte esta riqueza limitada menos
há para cada um. Aqueles que produzem e criam empregos são punidos por
impostos e taxas e aqueles que não trabalham são encorajados por ajudas. É
uma inversão de valores.
7. Portanto o seu sistema é perverso e vai implodir por esgotamento e
sufocação.  A deslocalização da sua capacidade produtiva provoca o
abaixamento do seu nível de vida e o aumento do... da China!
8. Dentro de uma ou duas gerações 'nós' (os chineses) iremos ultrapassá-los.
Eles tornar-se-ão os nossos pobres. Dar-lhes-emos sacas de arroz...
9. Existe um outro cancro na Europa: existem funcionários a mais, um emprego
em cada cinco. Estes funcionários são sedentos de dinheiro público, são de
uma grande ineficácia, querem trabalhar o menos possível e apesar das
inúmeras vantagens e direitos sociais, estão muitas vezes em greve. Mas os
decisores acham que vale mais um funcionário ineficaz do que um
desempregado...
10. Vão (os europeus) direitos a um muro e a alta velocidade...

  Post 743     (Imagem daqui)      (Enviado por Paula Leitão)

1 de maio de 2011

a mão esquerda do mafarrico (2)

diaboDeus deu-nos o sol para alumiar o dia. E veio o diabo e deu-nos as cataratas. Deus deu-nos a lua para gozarmos de noite, e veio o diabo e trouxe-nos as discotecas. Deus deu-nos a noite para descansar e veio o diabo e inventou o despertador. Deus deu-nos a água para matar a sede e veio o diabo e criou a coca-cola. Deus deu-nos o sexo e o diabo inventou a impotência. Deus deu-nos as mulheres e o diabo fabricou as esposas. Deus pôs no mundo milhares de mulheres lindas para nós escolhermos, mas veio o diabo e atou-nos à nossa. Deus deu-nos o conhecimento e a sabedoria e veio o diabo e criou as escolas. Deus deu-nos professores bondosos, inteligentes e sábios, mas veio o diabo e criou os relatores.

  Post 742    (Imagem daqui)

29 de abril de 2011

o tralapraki foi ao casamento da princesa (2)

pai de kateNão sei por que meios ou por que carga de água, tive oportunidade de contactar com o senhor Middleton:

“Claro que of course estou happy. O rapaz the guy não é rico mas é normal straight, não sofre de ataques de homossexuality, e tem um bom emprego, é aviador. Isso de ser príncipe não me diz nothing… mas a minha filhota ficou tarada de todo quando soube que ele era o Prince… ela gosta muito da música dele… E depois ele tem cara de ser um banana, nerd you know,que é tudo o que uma mulher deseja e precisa para ser feliz… Agora desculpe, mas tenho que me ir atirar aos canapés…“

  Post 741      (Imagem daqui)

o tralapraki foi ao casamento da princesa (1)

kateA noiva Kate ia, de facto, linda, com um vestido cheio de dúvidas e de expectativas, um diadema de 1930 e, claro, o nariz do pai…

 

  Post 740      (Imagem pública)

23 de abril de 2011

e (quase) tudo o fogo levou…

incendioMinha cozinha ardeu na quarta-feira. Praticamente toda. Começou no exaustor e propagou-se ao fogão e daí a umas caçarolas cheias de óleo onde eu tinha fritado bolinhos de bacalhau. Daí passou a um armário suspenso que depois transmitiu as chamas ao inferior. Salvou-se um frigorífico cheio de vinho verde, algumas cervejas, presuntos e queijos, e um armário onde eu guardava os vinhos tintos de mesa, barras de chocolate Jubileu, os Portos vintage e uns espumantes Murganheira. Deus é grande.

  Post 739   (Imagem do autor)