4 de abril de 2011

ser rico dói?

ricoOs muito pobres que me desculpem, mas riqueza é fundamental.

Um grande poeta brasileiro começou assim um dos seus mais saborosos poemas. Todos sabemos que os muito ricos ficaram assim por uma das três razões seguintes: 1 herdaram; 2 roubaram; 3 tiveram sorte. Em alguns casos juntaram-se as três, numa conjura afortunada e deixaram as vítimas em estado lastimável, sem possibilidade de se poderem livrar da riqueza. O doente contrai então uma espécie de riqueza crónica, incurável, persistente. Nem todos os ladrões do mundo, nem todas as amantes do seu bairro, nem todos os estados gananciosos, nem mesmo a GNR com as suas providenciais multas conseguem tirar-lha.

Ficam assim, inabalavelmente ricos, frustradamente ricos, embora a maioria não apresente sintomas muito desconfortáveis. A riqueza deste tipo produz apenas um pouco de sonolência e, por vezes, alguma burrice, também ela crónica. Os alardeados sintomas de tristeza suicidária ou frustração maníaco-depressiva, febre dos fenos e frieiras interdigitais de que se diz sofrerem os ricos não passam de mito ou superstição. É certo que são ocos e presunçosos e possuem um mau gosto de pasmar, mas isso não faz deles criaturas merecedoras da nossa compaixão…

Um acrescento: a doença parece não ser contagiosa. (Infelizmente).

Post 730 (Imagem daqui)

3 de abril de 2011

Uma reflexão muito provisória (Eyes Wide Shut)

alunos
Há muito tempo que penso um sem- número de coisas sobre o ensino. Radicam quase sempre no mesmo, que se resume ao velho estandarte de que ninguém consegue ensinar nada a quem não quer aprender. Nunca vi claramente que tinha razão, mas também nunca ninguém ma tirou por completo…        jmm
De olhos bem abertos, porém vendo muito pouco, na melhor das hipóteses apenas metade do que seria desejável ver, olhamos para os nossos alunos. Olhamos e esforçamo-nos muito para que eles nos entendam, muito menos para os entendermos a eles. E passamos, seguimos, cumprimos. Depois largamos. Outros professores os apanharão amanhã (e redescobrirão certamente como os nossos alunos permanecem ignorantes e inaptos) e se esforçarão sem limites, olhos amplamente abertos, atentos aos mínimos sinais, refraseando sem parar conceitos mais ou menos ininteligíveis, carpindo as agruras de não serem entendidos, porque eles (os alunos) não os ouvem, não os olham, não os temem, não os acreditam, nãocresceram, não se libertaram do concretismo que os amarra inexoravelmente à mediocridade. De olhos amplamente abertos, porém quase sem ver, (porque já estamos a milhas de distância dos seus problemas e perplexidades, porque sabemos de um saber quotidiano que os nossos alunos não estudam, não se envolvem, não se interessam, não se deixam seduzir pelas nossas eternas técnicas de sedução), de olhos bem abertos porque queremos ver, mas sem ver, ou vendo menos de metade do que seria sensato ver, passamos por eles sem neles deixarmos vincos ou marcas, ou uma impressão de genialidade, ou mesmo uma simples lembrança, grata, reconfortante, saudosa, terna. Triste permanência esta, a do professor que, de olhos bem abertos, mas sem ver, passa pela vida e dela recebe apenas a desconsoladora recompensa de ter sido só medíocre, porque a comunicação que estabeleceu com os seus alunos só em dias muito claros e muito nítidos se aproximou do belo, do audaz, do produtivo, do persistente, do profícuo.

Post 729   (Imagem daqui)

a palavra dos outros

gandaraNo blogue “Sou da Gândara”, de autor anónimo, encontrei um pitoresco relato de vidas consuetudinárias, previsíveis. Apoderei-me dele pelo linguajar das areias, da civilização roubada ao mar e estrumada a moliço que também me percorre veias e memórias. Modifiquei-o à minha maneira, sem contudo lhe beliscar a identidade. Ficou assim:

(...) “O homem tinha ido a salto para a França, logo depois de apanhar as batatas, por alturas do S. João e deixou-a com o filho na primeira classe e com o verão todo por fazer. Mas a necessidade assim os obrigava. Para levantar cabelo, tinham que sofrer e saber fazê-lo! Valeu-lhe alguma coisa o pai com a sua junta que sempre lhe fez uns carregos de milho para casa e lhe gradou uns bocados. Agora havia de bastar-se com a sua vaquita, com o rapaz e com os seus braços, saúde e graça de Deus.

É certinha a carta do Manel todas as quintas feiras! Diz-lhe que tudo está a correr bem, que arranjou trabalho na construção e que, embora com muito esforço, está a botar uns cobres de lado. Que conta, dentro em pouco, mandar um cheque para ela fazer o seu governo, pô-lo no banco a render. São cartas trocadas que tanto eles como ela escrevem ao domingo à tarde! Ele depois de ir ao mercado comprar sustento para toda a semana e ela, depois de cumpridos os preceitos dominicais: assistir á missa e ao terço. Põe o rapaz a fazer os trabalhos da escola, pega no bloco de papel de carta e na pena de molhar e, maravilha tecnológica, fala com o seu Manel, colocando no papel tudo o que gostava de dizer-lhe pessoalmente, o que lhe vai na alma! Quer lá saber se alguém lhe apanha a carta e a lê! Não diz mentiras nem fala da vida alheia! Fala de si, do filho, do tempo e da novidade, que é um benzodeus. Expressa as suas preocupações, os seus anseios, o porte do filho, o gado, a perca que teve que pagar por morte do bezerro do Laurindo. Começa as cartas sempre da mesma forma, aliás, também ele assim faz: “Cabeças Verdes, 13 de Outubro de 1961. Meu querido Manel, muito estimo que ao receberes estas minhas poucas e mal trilhadas letras te encontres de saúde que eu cá mais o nosso filho ficamos bem Graças a Deus, embora com saudades infinitas. Recebi a tua carta na passada quinta feira e nela li que…” Enchiam-lhe a alma estas palavras aprendidas do coração e davam-lhe a coragem necessária para enfrentar mais uma semana de trabalho. Trabalho duro que a fazia mulher e homem, ao mesmo tempo. Trabalho permanente! Que nunca está feito, nem por fazer! Rotineiro! Mas tinham saúde! Ela, o homem e o filho! E, três meses depois de ter saído, já ele lhe dizia que lhe iria mandar um cheque dentro de pouco tempo, se Deus for servido! Há lá vida mais alegre?”

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28 de março de 2011

repescando tralices

02-relogioA proposta de repescagem incide hoje sobre uma rubrica então recorrente no Tralapraki, a “Prateleira Anacrónica”, neste caso a do dia 28 de Abril de 2007. Folheava então a Crítica do Programa de Gotha, lido pela primeira vez aos 19 anos de idade, num tempo em que ainda nos era fácil acreditar num mundo melhor…

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25 de março de 2011

dos outros não sei…

jovemDos outros não sei. Mas sei de mim. E não assumo nem migalha de culpa na construção da chamada geração à rasca. Não pactuei com esta geração, quando a vi tratar alarvemente os seus pais e professores. Não embarquei no seu frívolo optimismo, na sua espantosa arrogância. Não a iludi com perspectivas douradas sobre o futuro, não lhe alimentei as boçais sobrancerias. Não lhe acariciei o já desmesurado ego.

Ensinei-lhe o sacrifício meritório e o oportuno sentido da renúncia. Reprovei-lhe sempre o hedonismo exacerbado em que se ia paulatinamente construindo (destruindo?). Vociferei sempre contra as teorias da escola lúdica que, necessariamente, desaguariam numa juventude asinina. Lamento que a geração à rasca não me tivesse escutado.

Agora, eis aí os jovens que o sistema educou. O sistema, que não eu. Ei-los aí, prateleiras cheias de diplomas atestando saberes escassos, poucas aptidões e menos princípios.

Mas não os invectivo. Tenho pena deles, que vogam sem barco nem bússola, num sistema que os traiu vergonhosamente. Tenho pena deles que finalmente praguejam cheios de razão e, contudo, poucos parecem dar-lha...

(E tenho também pena de mim que não posso usufruir, na minha velhice, do que me seria de direito: o consolo de ver uma juventude feliz e bem formada, idónea, responsável e meritória, poderosa, activa e complacente.)

Post 726 (Imagem daqui)

20 de março de 2011

Chegou a primavera (2)

mimosa

As mimosas recordam-nos que temos que voltar a viver…

chegou a primavera…

PRIMAVERA POST

Um botão de esperança impoluta renasce hoje…

Post 723   Imagem do autor

Pedir desculpa

desculpaOs alunos que apanhei depois de 1985 já apresentavam alguma forma de desconforto quando precisavam de pedir desculpa. Vinte anos depois da revolução dos cravos já todos pareciam ter apenas direitos e nenhuns deveres. Trinta anos passados e ei-los privilegiados detentores de toda a verdade do universo.

Muitos desses nossos alunos estão hoje a ensinar aos seus filhos, adolescentes de um só sentido, de um monolitismo confrangedor, que o acto de pedir desculpa é uma exibição de fraqueza que não pode fazer senão mal aos espaçosos egos dos seus graciosos e louváveis rebentos.

Muitos políticos que hoje atafulham os partidos, que dormitam na assembleia e se refastelam nos governos ainda apanharam a escola de 85, se não no médio, pelo menos no ensino superior.

Deve ser então por isso que rejeitam tão frequente e veementemente o acto nobre e humano de pedir desculpa, mesmo quando tudo parece indicar que, em determinadas circunstâncias, seria essa a única saída airosa e a mais nobre das atitudes.

Qual será a razão que impede um governo de dizer coisas deste género: “Só sabemos fazer assim, não conseguimos fazer melhor. Se alguém souber, venha cá ensinar e colha os louros. Quanto a nós, ficaremos atentos, disponíveis para aprender e ajudar, se o novo projecto for, realmente, melhor que o nosso.” ?

Quanto a mim, palavras como estas representariam uma enorme vitória de quem tivesse a audácia e o denodo de as dizer sem afectação. E seriam também um passo de gigante na linha evolutiva do menos burro dos primatas. Mas tenho, de facto, dúvidas se significariam o mesmo para a grande maioria dos labregos que atravancam esta jeira…

Post 722     (Imagem daqui)

19 de março de 2011

Não sei o que isto significa. Foi-me ditado pelo meu gato, à meia noite de hoje.

Nada é hoje demasiado sério. Pouco existe sobre a terra ou nas nossas mentes que não tenda para o grotesco. Não é suficientemente sério o imposto, o salário, o rumo, a vida, a fome, a morte. Não o é o futuro e a inquietação, não o foi o dia de hoje, não o será o que há de vir. Não é austera a dor, venerando o sofrimento, nem o Céu é respeitável, nem o Inferno é grave.

Nossa vida colectiva bamboleia, bêbada, do fútil ao inútil, sem passar pelo sensato, sem atender ao óbvio.

Mas eis que vem um tempo que não se compadece com decadentes frivolidades. Vem talvez um tempo em que o discurso amadurece e a atitude se apruma. Deve vir aí um tempo que imporá rigor nas palavras e limites no gesto. Vem um tempo em que alguém dirá, circunspecto, o essencial.

E nos calaremos todos, porque as palavras que nos eram brandas morderam os nossos lábios…

(Imagem daqui)   Post 721 

18 de março de 2011

Quinze mil Hertz

HertzRecentemente, tive oportunidade de, talvez pela primeira vez, conversar com alguns dos meus alunos numa aula. A turma tinha-se armado em grupo excursionista (há sempre um Portugal desconhecido que espera por si, ou simplesmente uma dormida fora com discoteca ou farra, enfim, coisas apetecidas por alunos e muitas das nossas professorinhas) e ficaram apenas três jovens na minha aula que alegaram não terem tido autorização dos pais para a tal rambóia excursionística.

Sem substrato para dar a aula, o que acham que fiz? Bom, não se pede muito à imaginação hoje em dia. Uma sala linda, bem aquecida e equipada com as mais modernas tecnologias (computadores com Internet, um deles ligado ao já ubíquo quadro interactivo) o que seria provável esperar desta aula? Isso mesmo: estivemos a ouver música (a música hoje vê-se e até parece que, se não se vir, também ninguém a consegue ouvir. Não sei que fenómeno é este, mas adianto que o ouvido está a perder pontos para a visão. É preciso que haja onde prender o olhar para que o ouvido possa cumprir a sua função).

Primeiro propus eu: Clássica (há umas rádios Web excelentes. destinadas a este género). Sonolência dos três alunos. Continuei a propor: Jazz. Foleirice! Continuei ainda: Blues, Swing, Chiça!, de mal a pior. Bossa-nova, Tango, Fado. O tipo é maluco, ouvia-se nos seus pensamentos…

A seguir propuseram eles: Guinchos! Apenas guinchos.

A provar o que disse antes sobre o ascendente da visão sobre a audição, não houve, de facto, por parte dos responsáveis educativos, muito investimento no equipamento de som. As frequências audio naquele equipamento, vacilavam, quando muito, entre os 14000 e os 15000 Hertz. Mas aquilo sim, aquilo era uma maravilha. E eu só ouvia guinchos de 15000 Hz. E aquilo era música, garantiram-me os três, sem reservas!

Que diabo estará a acontecer com a nossa juventude? (Que diabo estará a acontecer comigo?)

  Post 720   (Imagem daqui)