28 de março de 2011

repescando tralices

02-relogioA proposta de repescagem incide hoje sobre uma rubrica então recorrente no Tralapraki, a “Prateleira Anacrónica”, neste caso a do dia 28 de Abril de 2007. Folheava então a Crítica do Programa de Gotha, lido pela primeira vez aos 19 anos de idade, num tempo em que ainda nos era fácil acreditar num mundo melhor…

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25 de março de 2011

dos outros não sei…

jovemDos outros não sei. Mas sei de mim. E não assumo nem migalha de culpa na construção da chamada geração à rasca. Não pactuei com esta geração, quando a vi tratar alarvemente os seus pais e professores. Não embarquei no seu frívolo optimismo, na sua espantosa arrogância. Não a iludi com perspectivas douradas sobre o futuro, não lhe alimentei as boçais sobrancerias. Não lhe acariciei o já desmesurado ego.

Ensinei-lhe o sacrifício meritório e o oportuno sentido da renúncia. Reprovei-lhe sempre o hedonismo exacerbado em que se ia paulatinamente construindo (destruindo?). Vociferei sempre contra as teorias da escola lúdica que, necessariamente, desaguariam numa juventude asinina. Lamento que a geração à rasca não me tivesse escutado.

Agora, eis aí os jovens que o sistema educou. O sistema, que não eu. Ei-los aí, prateleiras cheias de diplomas atestando saberes escassos, poucas aptidões e menos princípios.

Mas não os invectivo. Tenho pena deles, que vogam sem barco nem bússola, num sistema que os traiu vergonhosamente. Tenho pena deles que finalmente praguejam cheios de razão e, contudo, poucos parecem dar-lha...

(E tenho também pena de mim que não posso usufruir, na minha velhice, do que me seria de direito: o consolo de ver uma juventude feliz e bem formada, idónea, responsável e meritória, poderosa, activa e complacente.)

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20 de março de 2011

Chegou a primavera (2)

mimosa

As mimosas recordam-nos que temos que voltar a viver…

chegou a primavera…

PRIMAVERA POST

Um botão de esperança impoluta renasce hoje…

Post 723   Imagem do autor

Pedir desculpa

desculpaOs alunos que apanhei depois de 1985 já apresentavam alguma forma de desconforto quando precisavam de pedir desculpa. Vinte anos depois da revolução dos cravos já todos pareciam ter apenas direitos e nenhuns deveres. Trinta anos passados e ei-los privilegiados detentores de toda a verdade do universo.

Muitos desses nossos alunos estão hoje a ensinar aos seus filhos, adolescentes de um só sentido, de um monolitismo confrangedor, que o acto de pedir desculpa é uma exibição de fraqueza que não pode fazer senão mal aos espaçosos egos dos seus graciosos e louváveis rebentos.

Muitos políticos que hoje atafulham os partidos, que dormitam na assembleia e se refastelam nos governos ainda apanharam a escola de 85, se não no médio, pelo menos no ensino superior.

Deve ser então por isso que rejeitam tão frequente e veementemente o acto nobre e humano de pedir desculpa, mesmo quando tudo parece indicar que, em determinadas circunstâncias, seria essa a única saída airosa e a mais nobre das atitudes.

Qual será a razão que impede um governo de dizer coisas deste género: “Só sabemos fazer assim, não conseguimos fazer melhor. Se alguém souber, venha cá ensinar e colha os louros. Quanto a nós, ficaremos atentos, disponíveis para aprender e ajudar, se o novo projecto for, realmente, melhor que o nosso.” ?

Quanto a mim, palavras como estas representariam uma enorme vitória de quem tivesse a audácia e o denodo de as dizer sem afectação. E seriam também um passo de gigante na linha evolutiva do menos burro dos primatas. Mas tenho, de facto, dúvidas se significariam o mesmo para a grande maioria dos labregos que atravancam esta jeira…

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19 de março de 2011

Não sei o que isto significa. Foi-me ditado pelo meu gato, à meia noite de hoje.

Nada é hoje demasiado sério. Pouco existe sobre a terra ou nas nossas mentes que não tenda para o grotesco. Não é suficientemente sério o imposto, o salário, o rumo, a vida, a fome, a morte. Não o é o futuro e a inquietação, não o foi o dia de hoje, não o será o que há de vir. Não é austera a dor, venerando o sofrimento, nem o Céu é respeitável, nem o Inferno é grave.

Nossa vida colectiva bamboleia, bêbada, do fútil ao inútil, sem passar pelo sensato, sem atender ao óbvio.

Mas eis que vem um tempo que não se compadece com decadentes frivolidades. Vem talvez um tempo em que o discurso amadurece e a atitude se apruma. Deve vir aí um tempo que imporá rigor nas palavras e limites no gesto. Vem um tempo em que alguém dirá, circunspecto, o essencial.

E nos calaremos todos, porque as palavras que nos eram brandas morderam os nossos lábios…

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18 de março de 2011

Quinze mil Hertz

HertzRecentemente, tive oportunidade de, talvez pela primeira vez, conversar com alguns dos meus alunos numa aula. A turma tinha-se armado em grupo excursionista (há sempre um Portugal desconhecido que espera por si, ou simplesmente uma dormida fora com discoteca ou farra, enfim, coisas apetecidas por alunos e muitas das nossas professorinhas) e ficaram apenas três jovens na minha aula que alegaram não terem tido autorização dos pais para a tal rambóia excursionística.

Sem substrato para dar a aula, o que acham que fiz? Bom, não se pede muito à imaginação hoje em dia. Uma sala linda, bem aquecida e equipada com as mais modernas tecnologias (computadores com Internet, um deles ligado ao já ubíquo quadro interactivo) o que seria provável esperar desta aula? Isso mesmo: estivemos a ouver música (a música hoje vê-se e até parece que, se não se vir, também ninguém a consegue ouvir. Não sei que fenómeno é este, mas adianto que o ouvido está a perder pontos para a visão. É preciso que haja onde prender o olhar para que o ouvido possa cumprir a sua função).

Primeiro propus eu: Clássica (há umas rádios Web excelentes. destinadas a este género). Sonolência dos três alunos. Continuei a propor: Jazz. Foleirice! Continuei ainda: Blues, Swing, Chiça!, de mal a pior. Bossa-nova, Tango, Fado. O tipo é maluco, ouvia-se nos seus pensamentos…

A seguir propuseram eles: Guinchos! Apenas guinchos.

A provar o que disse antes sobre o ascendente da visão sobre a audição, não houve, de facto, por parte dos responsáveis educativos, muito investimento no equipamento de som. As frequências audio naquele equipamento, vacilavam, quando muito, entre os 14000 e os 15000 Hertz. Mas aquilo sim, aquilo era uma maravilha. E eu só ouvia guinchos de 15000 Hz. E aquilo era música, garantiram-me os três, sem reservas!

Que diabo estará a acontecer com a nossa juventude? (Que diabo estará a acontecer comigo?)

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16 de março de 2011

Do amor e outros olvidos (4)

breca

Abraços e embaraços

Há um sem-número de incidentes mais ou menos embaraçosos que podem ocorrer durante o acto sexual. Na verdade, tudo o que não seja o natural e expectável desenvolvimento do processo é embaraçoso. Trata-se de um trabalho meticuloso, exigentíssimo em termos de concentração, que não admite falhas, interrupções ou adiamentos. Ninguém pode, a meio do processo, dizer algo como isto: bom, acho que vou fazer um intervalo para apanhar um bocado de sol.

Todos os órgãos têm que estar meticulosamente afinados, mesmo os que não tenham intervenção directa no acto, como são os casos do baço, do pâncreas ou da bexiga. Estes órgãos, apesar de nunca serem convidados para o sexo, apesar mesmo de o sexo se tornar improvável se um dos parceiros os mencionar ainda que de passagem, têm que estar de boa feição para permitir, em silêncio, que tudo se passe conforme a natureza ditou. E olhem que não é tarefa fácil estar ali a assistir a tudo, sem poder tomar parte… Por uma questão de justiça, devemos agradecer a esses órgãos a sua complacente paciência e solidariedade, sempre que o acto seja coroado de êxito. (Há homens que só agradecem a Deus e se esquecem sistematicamente deles.)

Porém, o maior inimigo de um bom desempenho é a breca. A historiografia sexual está cheia de desastres provocados pela breca. Nenhuma mulher entende isso e, no entanto, a breca é muito mais frequente do que se imagina. Tu levantas-te de repente com uma perna no ar, ganindo de dor, não tens posição conciliatória, nem te ocorre sequer alinhavar uma justificação. Ficas ali apavorado e já nem te preocupas com a tua imagem arruinada. E a tua parceira a achar que não passas de um palhaço e que teria feito melhor se aceitasse o convite do marido para ir visitar a tia Leopoldina. Um nome a riscar do seu cardápio é o que para ela passarás a ser em definitivo. A breca destruiu-te a noite e a auto-estima. Encolheu-te, num só dia, uns bons dois ou três centímetros.

A breca provoca a auto comiseração e o arrependimento. É o primeiro passo para a salvação da alma. Por isso, Paulo, nas tuas próximas conquistas, não peças a deus a presença majestosa da erecção. Pede-lhe antes a ausência da breca…

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13 de março de 2011

O catálogo das economias, por favor…

economiaJá desconfiava. Afinal, os economistas não estudam todos pela mesma cartilha. Creio até que se aninham junto das opções políticas mais da sua feição ideológica, deixando de fora um manancial de conjecturas marginais que nunca serão suficientemente analisadas. Quererá isto dizer que há uma solução para este nosso viver, para este nosso país, só que a solução não consta das sebentas dos economistas consuetudinários. Ela deverá certamente estar em outros paradigmas, muito estranhos à matéria de que é feita a maioria desses dedicados encantadores de serpentes a que chamamos, respeitosamente, economistas.

A economia não é, portanto, uma ciência monolítica, universalmente aceite. Há, decerto, uma economia que me esfrangalha os dias e outra que me garante sobrevivência digna. Há, certamente, uma economia que eu entendo e outra que me ultrapassa. Há, decerto, uma economia liberal, outra social-democrata, outra socialista, outra comunista, outra anarquista, outra feudal, outra pequeno-burguesa. Há, decerto, uma economia dos ricos e outra dos pobres, uma ecológica e outra cega, uma mainstream e outra marginal, uma decente e outra ajavardada.

Devem estar todas aí, disponíveis, no catálogo, à nossa espera. Só não sei porque temos sempre escolhido tão mal…

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12 de março de 2011

este fica sem título…

capitalismoChamemos-lhe capitalismo, por uma questão de simplificação de conceitos, mas poderíamos também chamar-lhe socialismo ou comunismo, embora destes últimos nunca tenhamos conhecido mais do que promessas, vislumbres, na melhor das hipóteses. O certo é que se este é o mundo projectado e construído por qualquer um dos sistemas conhecidos (ou apenas sonhados), não lhes valerá a pena embandeirar em arco. O capitalismo parece, de facto, ter-nos trazido apenas competitividade extrema e ganância a rodos.

Sejamos, no entanto justos! O capitalismo (ou outro modelo que tivesse ganho as boas graças dos cidadãos) não nos trouxe apenas isto. Trouxe também desigualdades vergonhosas, hordas de parasitas coçando escrotos (aqui só posso ser sexista, porque não sei o que mulheres parasitas coçam), bandos de tarados projectando guerras, legiões de desempregados de olhos quietos, povos inteiros condenados à mais aviltante miséria social e humana.

E, sobretudo, o capitalismo (ou possivelmente outro, mesmo de entre os que sonhámos mais perfeitos) condenou muitos de nós, à frouxidão dos ideais, à venalidade da arte, à falsificação da ética, à degradação do pensamento. A necessidade de simplesmente sobrevivermos vem primeiro e é avassaladora. Ameaça despudoradamente aquilo que no homem parece ser essencial: dispor livremente de si próprio, dos seus ideais e dos seus projectos mais nobres, na senda de uma evolução serena, a caminho da felicidade.

Tão arredio nos ficou este cenário, que parece já não fazer falta a uma imensa maioria de nós. Hoje conquistámos o bife e esperamos conquistar outro amanhã.

Na visão de Marx, já estariam hoje institucionalizadas as doze horas de trabalho semanal. Há muito teríamos extirpado dele a odiosa componente esclavagista. Há muito teríamos tempo para a inocência, a experiencia e a imaginação. Ou não.

Post 717     (Imagem daqui)