Recentemente, tive oportunidade de, talvez pela primeira vez, conversar com alguns dos meus alunos numa aula. A turma tinha-se armado em grupo excursionista (há sempre um Portugal desconhecido que espera por si, ou simplesmente uma dormida fora com discoteca ou farra, enfim, coisas apetecidas por alunos e muitas das nossas professorinhas) e ficaram apenas três jovens na minha aula que alegaram não terem tido autorização dos pais para a tal rambóia excursionística.
Sem substrato para dar a aula, o que acham que fiz? Bom, não se pede muito à imaginação hoje em dia. Uma sala linda, bem aquecida e equipada com as mais modernas tecnologias (computadores com Internet, um deles ligado ao já ubíquo quadro interactivo) o que seria provável esperar desta aula? Isso mesmo: estivemos a ouver música (a música hoje vê-se e até parece que, se não se vir, também ninguém a consegue ouvir. Não sei que fenómeno é este, mas adianto que o ouvido está a perder pontos para a visão. É preciso que haja onde prender o olhar para que o ouvido possa cumprir a sua função).
Primeiro propus eu: Clássica (há umas rádios Web excelentes. destinadas a este género). Sonolência dos três alunos. Continuei a propor: Jazz. Foleirice! Continuei ainda: Blues, Swing, Chiça!, de mal a pior. Bossa-nova, Tango, Fado. O tipo é maluco, ouvia-se nos seus pensamentos…
A seguir propuseram eles: Guinchos! Apenas guinchos.
A provar o que disse antes sobre o ascendente da visão sobre a audição, não houve, de facto, por parte dos responsáveis educativos, muito investimento no equipamento de som. As frequências audio naquele equipamento, vacilavam, quando muito, entre os 14000 e os 15000 Hertz. Mas aquilo sim, aquilo era uma maravilha. E eu só ouvia guinchos de 15000 Hz. E aquilo era música, garantiram-me os três, sem reservas!
Que diabo estará a acontecer com a nossa juventude? (Que diabo estará a acontecer comigo?)
Post 720 (Imagem daqui)