11 de março de 2011

Do amor e outros olvidos (3)

SEXO E AMORTemos, no entanto, que decidir entre o amor e o sexo, já que é quase um abismo aquilo que os separa. Na verdade, estes dois conceitos, e mesmo as respectivas substâncias, estão, sobretudo, separados pelo riso. Podes rir-te quando amas, mas não te fica bem fazê-lo quando f___ piiiiiiii (é o apito dos bons costumes).

Aliás, nem dá muito jeito, ou seja, não é necessário, percebes? Sexo é a única diversão que não envolve, necessariamente, gargalhadas. É um excelente divertimento mas a chalaça não é, definitivamente, o seu forte. Há quem diga que as pessoas ficam indefesas, desprotegidas, fragilizadas, mas eu acho que ficam, na verdade, burras. Sustento que as pessoas que praticam muito sexo têm menos sentido de humor, porém muito mais sentido de oportunidade. (E têm também um bocado de sorte, é claro)

Não sei ao certo se foi a Igreja ou o Daniel Sampaio quem tentou fundir os conceitos de amor e de sexo. A verdade é que, em alguns quadrantes, o fundiram até demais, confundindo as limitadíssimas cabeças dos homens. Alguns ficaram sem saber exactamente o que era uma e outra coisa e qual delas seria mais recomendável ou vantajosa, em determinados contextos sociofamiliares. A título de exemplo, a sua confusão foi levada a extremos tais que amaram as filhas com sexo e as esposas sem ele…  (Culpa do Eduardo Sá, da Isabel Stilwell ou do papa... )

E é por isso, Paulo, que muitos acham que o sexo não é lícito sem amor. Mas olha, no dia em que o sexo for lícito não é sexo, é seca, é serviço litúrgico, sei lá…

  Post 716    (Imagem daqui)

9 de março de 2011

É possível almoçar com um erudito?

lunchSou leitor modesto. Possuo em média 60 a 80 livros roubados da Web e armazenados em dois ebook readers. Normalmente dão-me para dois ou três anos. Como possuo os readers há apenas um ano, ainda não esgotei os livros que lá tenho.

Leio devagar. Perco-me nas frases. Volto atrás. Recomeço. Perco-me outra vez. Quando finalmente entendo, descanso. Uma imagem pode dar-me para uma tarde inteira. Refresco-a à noite e sonho com ela. Leio pouco, de facto, muito pouco.

Tenho literal pavor de livros grossos ou demasiado densos. Evito-os acintosamente. Jamais li Guerra e Paz, o Capital, a Crítica da Razão Pura, o Ensaio de Ontologia Fenomenológica ou mesmo Cem Anos de Solidão. (Há autores assim: “não têm capacidade de síntese, prontos” – como diz uma das minhas alunas)

Mas encontrei pessoas que me garantiram ter lido aqueles livros todos, e muitos outros, embora não sejam capazes de me falar deles, ou sequer de deixar escapar uma reflexão ou um conceito que tivessem casualmente retido. É claro que essa mudez que, por vezes, me parece ignorância (sou um pérfido) pode não passar de uma sóbria reserva para proteger o meu pobre e desapetrechado intelecto de um manancial de verbo e conceito que ele, na sua trôpega mediocridade, não teria condições de suportar.

Há pessoas que leram tudo e muito mais. E não nos explicam nada… E eu, que leio tão pouco, estou, imaginem, sentado com elas a almoçar exactamente o mesmo prato, no mesmo exacto restaurante, exactamente na mesma mesa, tecendo, irmanados, os mesmos comentários torpes à zurrapa que nos serviram hoje…

Post 715     (Imagem daqui)

8 de março de 2011

Do amor e outros olvidos (2)

amorOra aqui me tens, caro Paulo. Quando me pediste para falar de amor, tens a certeza de que era mesmo isso que querias? Não, é que eu achei a coisa um bocado descabida. Nunca na minha vida tinha visto um jovem de dezoito anos a querer ouvir um cota a falar de amor. Sinceramente, a coisa até me soou um bocado maricas. Não te conhecesse eu tão bem, não tivesse eu acompanhado os teus frementes, estrepitosos e ígneos casos com algumas das mais apetecíveis jovens das redondezas (e outras, porém, nem tanto assim, facto que não desbota, antes enaltece, a tua virilidade, pois que é comendo maus pratos que melhor evidenciamos o nosso apetite) e acharia estar perante um atadinho. Sim, uma espécie de professora de catequese dos anos 30, ou um seminarista que tivesse pela primeira vez catrapiscado a garota da lavandaria e trocado por ela todos os prometidos prazeres do clero e todas as bem-aventuranças do paraíso.

Vá, diz lá a verdade, pois só com a verdade me entendo. O que queres saber não é do amor, mas sim do sexo. Acertei? Chamaste-lhe eufemisticamente assim porque tiveste em conta a minha suposta hipersensibilidade a palavras mais ásperas e intensas. Foi isso, não foi?

Mas afinal é amor ou sexo? Decide lá. Para mim é absolutamente indiferente. Esqueci-me dos dois…

Post 714    (Imagem daqui)

7 de março de 2011

obsessões do meu ipod (28)

rua saudadeHoje não me apetece incorporar vídeos. Terão que lá ir vê-los, se acharem que vale a pena. Por mim, achei. Trata-se de uma pequena homenagem aos 25 anos da morte de José Carlos Ary dos Santos, sob a designação de Rua da Saudade. Goste-se ou não se goste do poeta, foi aqui reconstruída, num ambiente muito intimista e com rara qualidade de som, alguma da melhor música nacional. Gostaria de acrescentar que as interpretações não desmerecem do original. Pelo contrário, alguns arranjos são absolutamente conseguidos, a ponto de o ultrapassarem. Assim vale a pena repescar clássicos: respeitando-os, melhorando-os, se possível.

Eis alguns títulos: canção do tempo   retalhos   canção de madrugar   café

rock chock     estrela da tarde      dizer que sim à vida       cavalo à solta    

Se preferir, basta pousar o rato sobre o link e tocar o vídeo a partir do snapshot, logo que este abra. Deve desligar, obviamente, o rádio do blog. Boa música!

Post 713   Imagem YouTube

6 de março de 2011

Surge, no entanto, alguma preocupação…

mariafonteÉ complexo, assintomático e assíncrono o que se vai engendrando na sociedade portuguesa. Estou a falar da altíssima possibilidade de virmos a ter várias formas de mobilização na rua, aparentemente direccionadas, confluentes, unívocas, mas na verdade descaracterizadas, divergentes, desorganizadas, centrífugas. Os partidos políticos terão pouco a dizer a essas iminentes movimentações “populares”, mais ou menos controladas, mais ou menos espontâneas.

Mas é, de facto, muito complexa a situação que se nos oferece. Os dois partidos grandes tentarão, obviamente, colher dividendos dos vários amontoados que calcorrearão as estradas e os caminhos. Afigura-se-me no entanto que, desajeitados no ambiente hostil que para eles é a rua, pouca empatia provocarão nas massas, que se manifestarão com algum fragor e pouca ou nenhuma complacência pela ordem.

Sendo assintomática como me parece ser, a insurreição poderá surgir completa e pronta, sem que ninguém a tenha visto entrar. Sendo, porém, assíncrona, visto que forjada nas redes sociais, levará tempo a amadurecer e adiará repetidamente a sua eventual eclosão. Neste caso, não será presumível que aconteça uma sublevação nacional decente antes do Carnaval (do próximo ano bissexto).

Tenhamos, no entanto, por garantido que ela surgirá um dia desses. Como disse, não nascerá nas massas uma profunda simpatia pelos dois grandes partidos, mas também não nascerá nelas um rumo definido, consistente, inequívoco, em relação ao que julgam desejar.

Teremos de tudo nas ruas: velhos salazaristas resmungando um rancor de mais de trinta anos, pequenos empresários descapitalizados, agricultores falidos, pescadores desesperados, professores desalentados, desempregados enraivecidos. Jovens facebookeiros e deolindados surgirão também, assoberbados e rebarbativos na sua primeira revolução panteísta. Um pequeno grupo de velhos revolucionários marxistas e outro de anarco-sindicalistas vesgos juntar-se-ão ao motim, embora não se lembrando mais o que fazer com ele...

Um saco de gatos rolará, então, ladeira abaixo e cairá ao rio, acalmando a irritação colectiva e terminando ali a festa, arranhados, arrependidos e… molhados.

Post 712    (Imagem daqui)

5 de março de 2011

lupaLupa:  Foram corrigidos hoje erros e gralhas de vários tipos (sobretudo relacionados com virgulação e construção frásica) detectados nos últimos 15 posts. Muitos outros terão, certamente, escapado à lupa…   :(

Já fica avisado: não leia este.

(Aborda temática eventualmente desconfortável)

cruzNão digo que seja bom, que não é. Morrer é sempre algo muito desagradável, até mesmo um pouco incómodo. Mas morrer e ser logo enfiado dentro de um caixote, ainda morno, (“morno” qualifica o morto e não o caixote, evidentemente) é francamente mais claustrofóbico do que deixar as pessoas em paz, nas suas salas de estar, habituando-se, paulatinamente, à ideia do inevitável caixote. Além disso, já viram quantos de nós se voltam ao contrário, durante os dois dias que se seguem ao enterramento? É só reabrir o caixote, et voilà, o tipo pôs-se de lado.

Cá por mim, podendo escolher o modo de deixar de fumar, preferia que me acontecesse como tem vindo a acontecer ultimamente a alguns sortudos: a pessoa morre em casa e ninguém a chateia. Fica ali, na sua casinha, no seu sofazinho, televisão ligada e pezinhos quentes (bem, quentes é um modo de dizer, mas qual o problema se não estiverem?), sem uma preocupação, ainda que se tenha esquecido de pagar o meo. Repito: por mim, quero que me deixem ficar sentado no sofá de couro castanho, junto ao candeeiro, com a televisão ligada na sic dez horas, e um gato pachorrento ao colo, pelo menos enquanto ele aguentar.

Já não falo, evidentemente, em ficar oito ou nove anos ali, com os diabos, isso seria incompreensível exagero e poderia até revelar-se inútil. (Se isto, eventualmente, acontecer comigo, mudem-me o canal ao fim de dois ou três anos, está bem?). Está certo, nove anos será demais, mas deveriam dar-nos, ao menos, umas férias post mortem de uma ou duas semanas, para garantir que estamos mesmo mortos. É o mínimo de consideração que merece um tipo que já pagou a renda. Depois, alguém colocaria uma máscara e removeria o morto para um local que ele não conhecesse, o que lhe barraria definitivamente a hipótese de regressar para atazanar os vivos. (Aqui sou absolutamente a favor do apartheid: bares e bordéis diferenciados para mortos e vivos).

Estou quase a acabar, tenham mais um pouco de paciência. Falta só abordar a questão do cheiro. Deve ser uma inconfessável felicidade poder poluir um pouco o ar dos outros, quando definitivamente já não precisamos dele. Deve ser a nossa ultimate vingança contra o mundo. (O meu primo costumava fazer isso quando abusava de feijoada à trasmontana. E divertia-se que nem um tarado, embora todos o deixassem logo sozinho na sala, no mais absoluto isolamento. Sozinho, mas sempre a rir muito… lembro-me muito bem.)

Post 711   (Imagem daqui)

4 de março de 2011

Do amor e outros olvidos… (1)

amorTenho um afilhado de dezoito anos que, por vezes, lê as minhas lucubrações tralísticas. Diz que é o seu santo sacrifício semanal, visto que, como o padrinho, deixou de ir à missa aos quinze. Como, obviamente, sente falta de admoestações, penitências e castigos (desde que não doam nem traumatizem, toda a gente os considera absolutamente fashion), o meu afilhado lá se senta uma vez por semana em frente do computador, autopunindo-se com o trala, nem ele mesmo sabe bem de quê. O certo é que, no outro dia, entre um golo de cerveja e outro do Benfica, me atirou à queima-roupa, com esta: “o padrinho devia era falar do amor lá no seu blogue.”

Ora, a dificuldade que um homem da minha idade sente em falar do amor não reside só na ignorância, mas no facto de, nesta matéria, se ter sido sábio um dia e se ter, depois, tudo esquecido.

Nada saber de um assunto nunca foi impeditivo de falar arrogantemente sobre ele. Isso acontece todos os dias e não parece provocar nenhum embaraço, quer a quem fala, quer a quem escuta. Porém, ter consciência de que um dia se dominou profundamente um assunto e sentir que agora pouco sobrou desse conhecimento está a ser para mim um empecilho intransponível. Esse impedimento habita mesmo no facto de essa consciência me avisar de quão parco ficou, com o tempo, o meu saber sobre matéria que sei tão densa, tão inominável.

Mesmo assim, concordei com o desafio. O meu inefável afilhado vai ter aqui um tratado sobre o amor, como nunca ninguém alguma vez escreveu. Mas não agora. Não hoje. Outro dia. Preciso de ganhar tempo, que diacho.

Entretanto, vai continuar a dar contas à sua consciência desportivo-licenciosa, sentando-se, à hora da missa, frente ao computador funesto, lendo contrariado o infame tralapraki…

Post 710   (Imagem daqui)

2 de março de 2011

Filosofia de betesga - Uma tese potencial

filosofia Gosto das coisas em potência. Muito mais do que em acto. O que me agrada nas coisas é o que poderão vir a ser e não o que já são. Gosto do sábado por vir a ser domingo e do trabalho por me trazer as férias. Gosto do limão por prometer limonada e do Inverno por se tornar Primavera. É melhor viver em crise sonhando com o seu fim do que sabermos que o bom em que estamos hoje apresenta altíssima probabilidade de ficar muito mau amanhã.

E há mais gente que pensa e sente como eu. Ir para a festa é melhor que estar na festa, já que o futuro de estar na festa é sair dela, ao passo que a festa é o futuro do antes dela.

Tenho ainda mais argumentos, para o caso de o meu leitor ainda estar aí:

Quando algo muito bom tem tendência a resvalar para o muito mau (o que, convenhamos, acontece muito mais vezes do que gostaríamos), esse muito bom já se tornou muito mau em si mesmo, visto que, mesmo sendo muito bom, já traz potencialmente consigo o muito mau em que se tornará em breve. O pânico do muito mau que virá a seguir já contaminou de angústias o muito bom de agora, ou, por outras palavras (tão estúpidas como as anteriores, ou, se possível, ainda mais), os momentos muito bons que estamos a viver agora já são, de facto, muito maus, mesmo antes de se tornarem no muito mau em que fatalmente se tornarão.

Não há nenhuma vida bela que não seja medonha, visto que desaguará, impreterivelmente, na morte que, como todos sabemos, é o mais estúpido deslize que um homem pode cometer em vida. E nada de conjecturas sedutoras. A morte é dos poucos exemplos sem potência designada. É um estado em acto que não contém nenhum potencial porvir, nem o seu contrário, a vida, nem mesmo algo semelhante a ela como, por exemplo, a crise, o inverno, o sono ou a aula que dei ontem ao último tempo…

Post 709  (Imagem daqui)

26 de fevereiro de 2011

Repisar, sem querer, o repisado

be_originalAinda agora aconteceu de novo. A propósito de Margarida Fonseca Santos. Parece que a autora da peça “A Filha Rebelde”, levada à cena no Teatro D. Maria II, terá sido processada por sobrinhos de Silva Pais, director da PIDE DGS. O enquadramento judicial da autora terá sido motivado pelo facto de esta ter sugerido, na referida peça, que o General Sem Medo teria sido assassinado por aquele esplendoroso esbirro, director de tão prestigiada instituição.

Essa notícia, obviamente, sugeriu-me logo um manancial de posts. Optei, de imediato, por um comentário à própria notícia do Sol, mais ou menos nestes termos: “Curioso. Eu também estava convencido de que a PIDE é que tinha assassinado o General Sem Medo. Mas, claro, a PIDE é a PIDE e Silva Pais é apenas o seu Director, praticamente, não tem nada a ver com a prestimosa instituição. Mas que diabo, Humberto Delgado era apenas um perigoso esquerdista, segundo também ouvi dizer. Sendo assim, e se os meninos quiserem apenas reabilitar a memória do titio, talvez lhes baste esperar mais um pouco e ele será certamente bajulado e laureado pelo seu feito. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Para quê gastar dinheiro em tribunais? Tenham paciência, vá lá, é só esperar mais um pouco…”

Escrevi aquilo de rajada. Só depois fui ler os outros comentários.

Para meu espanto, quase todos apresentavam opiniões unânimes, quase todos adoptaram a mesma postura irónico-sarcástica.

Acontece-me vezes sem conta. E isso faz-me infeliz. Fico lastimoso porque não fui capaz de simplesmente descolar da opinião colectiva. E aquilo que me deveria deixar feliz, a comunhão de sentimentos e opiniões sobre os factos e as coisas, também me entristece, devido ao péssimo aproveitamento que, como sociedade, fazemos do acto de estarmos assim, quase todos, providencialmente unidos.

Para que me servirá integrar-me num rebanho tão coeso e homógrafo, tão irmanado na atitude, se isso não nos leva a mudar o mundo?

Post 708   (Imagem daqui)

Êxodo

exodoSim, os professores estão em êxodo total, sobretudo os melhores. Eles não se entendem com a nova escola e a nova escola já não precisa deles. Na verdade, nem os suporta mais, na sua rabugice aguda, na sua competência crónica. Eles não entenderam que a escola agora é treta, barulho e festa, computadores, convívio e sexo, namoro, bocas e amassos, telemóveis, ignorância e bullying. E é também coutada de psicólogos faz-de-conta, didactas lúdicos, pegajosos pedagogos, politiqueiros parvos, presidentes de posto e juntas, professorinhas de futilidade doméstica, doutos doutrinadores da imbecilidade douta, burocratas da grelha e check list, forças vivas, mortas e moribundas do concelho.

Por isso, os que não possuem colunas de contorcionista, os que se dotaram, ao longo do tempo, de honradez e verticalidade, os que se imbuíram do verdadeiro e único sentido de ensinar aceitam, derrotados, que já não há o que fazer aqui e vão-se embora, de salário escasso, de reforma curta.

Mas há os que ficam. Não porque gostem, mas porque desistem. Ficando, desistem de sair. Desistem de pensar em sair. Desistem de pensar…

Post 707   (Imagem daqui)