12 de fevereiro de 2011

Diálogo intercivilizacional

Velho - Tânger - Marrocos - Fevereiro 2001- أين هو الشيطان الحمام

- É mesmo ali ao lado, segunda porta à esquerda.

(Meia hora mais tarde)

- آه, وشكرا. بل إن à rasca.

- Ora, não tem de quê. Acontece a todos, e para isso é que servem as casas de banho…

- ما معنى الجبر لقد اكلوا  feijoada  على الغداء

portugues- A mim, o que me solta a tripa é caldeirada de cabrito.

- وهذا يتيح لي-لي بل هوو  arrotos  والغازات عام

- Lá está,  e a mim é ao contrário. O que me dá gases é a fruta. Qualquer tipo de fruta.

- تجاوز. لقد كان لقد patroa الانتظار

-Vá, vá, amigo, antes que ela se zangue…

Post 698    (Imagens daqui e daqui)

11 de fevereiro de 2011

Aurélio (1)

velhoAurélio era um empregado tranquilo e ordeiro. Estava à beira da reforma havia vários anos. Quanto mais se aproximava dela mais ela lhe fugia. Ah, a reforma era como aquelas moças esquivas e recatadas de antanho, na sua aldeia, que sempre reagiam com cauteloso recuo aos mais afoitos avanços da rapaziada mais tola. Entre a ansiada (mas assustadora) reforma e as quimeras que teimavam povoar-lhe o fim de cada dia breve, assim se derramava a vida pouca de Aurélio.

Alheara-se das mulheres, descrera dos homens, perdera-se dos deuses.

Aos domingos, via passar as gentes para a missa das onze e sentia desejo de voltar a acarneirar com elas, diante dos níveos altares que lhe perseguiam a memória. Por pura e ameaçadora solidão. Mas nunca o fez, acometido de um pudor delicado ou de algum resto de orgulho que lhe sobrasse de tempos mais briosos.

Ficava, pois, Aurélio, em casa, bocejando monitores, acariciando o gato, estremecendo o futuro breve. Ficava. Passava. Era.             (Há-de continuar…)  

Post 697   (Imagem daqui)

9 de fevereiro de 2011

Vor dem Gesetz

LeiNo que respeita à sua relação com as leis, há no país quatro tipos de gente: os que as fazem a seu belo prazer, os que as sabem utilizar a seu proveito, os que as desconhecem totalmente e os que pretendem mudá-las. Nem sempre os que as pretendem mudar as conhecem, nem sempre as conhecem os que as fazem, nem os que as desconhecem deixam de usá-las a seu belo prazer, se puderem. De entre os que as desconhecem totalmente, há os que pretendem conhecê-las para as usar a seu belo prazer e os que, desconhecendo-as e não pretendendo conhecê-las nem mudá-las, pagam a quem as conheça e use a seu belo prazer. Sobram os que, para além de simplesmente as desconhecerem, não sabem quem as faz, não conhecem quem as saiba utilizar, nem entendem por que alguém as queira mudar a seu belo prazer. Estes últimos são os que se demitem de toda a acção. Apenas assistem às mudanças, ao correr da história, às revoluções, às crises, às guerras, às opressões e ao caos, ao nascimento e morte das ideologias, dos cabritos e das galinhas, dos generais e das nações, sempre com o mesmo copo na mão, ora mais cheio, ora mais vazio, mas o mesmo. Lumpenproletariat, Mencheviques, reaccionários pela ignorância, deuses da perenidade, filhos da ruralidade, depurados, sábios.

Post 696   (Imagem daqui)

7 de fevereiro de 2011

obsessões do meu ipod (27)

Ouçam Avec le Temps de Léo Ferré (1916-1993), aqui por Teresa Salgueiro e Lusitania Ensemble. Ferré é, obviamente, um dos maiores poetas inconformistas de sempre. Avec le Temps é a canção de todo o esquecimento, no leito de todos os acasos. De todos os ocasos. leo_ferre
teresa salgueiro




(Imagens
daqui e daqui)   Post 695

Avec le temps
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
On oublie le visage et l'on oublie la voix
Le coeur quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller
Chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
L'autre qu'on adorait, qu'on cherchait sous la pluie
L'autre qu'on devinait au détour d'un regard
Entre les mots, entre les lignes et sous le fard
D'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit
Avec le temps tout s'évanouit
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
Mêm' les plus chouett's souv'nirs ça t'a un' de ces gueules
A la Gal'rie j'Farfouille dans les rayons d'la mort
Le samedi soir quand la tendresse s'en va tout' seule
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
L'autre à qui l'on croyait, pour un rhume, pour un rien
L'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux
Pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous
Devant quoi l'on s'trainait comme trainent les chiens
Avec le temps, va, tout va bien
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
On oublie les passions et l'on oublie les voix
Qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens
Ne rentre pas trop tard, surtout ne prend pas froid
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
Et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu
Et l'on se sent glacé dans un lit de hasard
Et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard
Et l'on se sent floué par les années perdues
Alors vraiment
Avec le temps on n'aime plus.

5 de fevereiro de 2011

Amigo meu é defeituoso…

amigosGosto irremediavelmente dos amigos, mas não acredito que eles sejam a coisa melhor do mundo. Na verdade, a coisa melhor do mundo são as amigas. Mas gosto. Cumprimento-os, saúdo-os, escuto-lhes as manias, adiciono-os. Reconheço que é bom fazer amigos novos e dificílimo preservar os velhos. Nunca acreditei, no entanto, que os amigos servissem para alguma coisa. A maior parte não tem serventia. Muitos estão sistematicamente ocupados quando precisamos deles, mais ocupados que casa de banho de cervejaria, em dia de arraial. Outros, imaginem, não bebem. Para que serve um amigo que não pode beber vinho tinto? Para nos criar problemas de consciência quando se senta à nossa frente munido de uma água de luso, para acompanhar bacalhau à lagareiro? A vida enche-nos a mesa e o balcão de amigos improváveis. Um amigo assim tem que ter alguma virtude extraordinária para que possa valer a pena tê-lo. E o problema é que, geralmente, não tem. Está certo, ele tem um hálito de zéfiro e um fígado exemplar. E daí? Para que serve um amigo que chega a muito velho, se nós não chegamos? Um amigo tem que ser mais solidário, que diabo! Na alegria e na víscera…

Post 693    (Imagem daqui)

3 de fevereiro de 2011

Mas é a minha geração, chiça…

geração 60A minha geração foi a Woodstock dormir ao relento e fumar LSD. Levava flores no cabelo e Marx debaixo do braço. Leu Ferlinghetti e Gregory Corso. Olhou de soslaio para a família burguesa e fugiu de casa. A minha geração teve visões apocalípticas e sonhos dourados. Ouviu Coltrane à noite e Judy Collins nas alvoradas. Apaixonou-se por Bardot e amou Heleno Herrera. Cantou com Pete Seeger e Zeca Afonso. Voou a meia altura entre céu e terra, vacilou entre paz e guerra, não aprendeu quase nada. No dia de assentar praça, navegou para o sul sem um lamento. Mas levou a viola junto com a G3. A minha geração exigiu o impossível, assoberbou-se de sonhos, pintou o caneco e as paredes, enriqueceu de quimeras e aceitou resignada uma pensão de sobrevivência. A minha geração foi socialista, comunista, burguesa, liberal, anarquista e demente. Não aprendeu quase nada. Embebedou-se de luzes na boite e de Portinari nos olhos. Inquietou-se com Abel Manta e Paula Rego. Não entendeu Gramsci nem Trotsky. A minha geração quis tudo e tudo destruiu. Achou que tudo sabia e atolou na ignorância. A minha geração não aprendeu quase nada.

(Teve filhos inesperados e deu-lhes um mundo melhor – este que aí se desmorona.)

Post 692   (Imagem daqui)

A seguir: amigo meu é defeituoso…

2 de fevereiro de 2011

a palavra dos outros

christine Uma agenda europeia que refere as festividades de todas as religiões… menos as do cristianismo?

Não se exige que o cristianismo possua especial prerrogativa sobre as outras religiões. Mas creio que deveria ser colocado, pelo menos, em pé de igualdade, não acham? Bom, mas quem sabe é Pedro Santana Lopes que mostra uma carta de Christine Boutin dirigida ao Presidente da Comissão Europeia. Claro que tudo isto é lá com eles …

31 de janeiro de 2011

Aprovada com distinção

ActaA minha acta foi ontem aprovada com distinção, sem restrições, correcções ou adendas. Nunca percebi a razão pela qual muitos dos meus colegas se mijam todos para fazer uma acta. Para mim, uma acta é um produto intuitivo. Vomito actas por tudo e por nada. É um estado de permanente e ameaçadora iminência. Ao almoço com os amigos digo coisas que parecem actas. E por vezes são. A minha vida é uma acta. E minto e omito e retoco e simulo, tanto na acta como na vida.

Transcrevo agora um pequeno excerto da minha aplaudidíssima acta:

(…) Em cumprimento do ponto dois da ordem de trabalhos, foi solicitado aos professores que, como sempre, procedessem à necessária reflexão sobre os resultados obtidos e consequente posicionamento pedagógico para com os mesmos, sempre com o propósito de os melhorar, se, obviamente, for caso disso. Uma avaliação justa, rigorosa, sem o menor erro de natureza pedagógica ou administrativa é outra actuação primordial, profusamente recomendada pela Direcção, cujo cumprimento cabal se exige e se espera de todos os docentes. A Delegada de Grupo encorajou depois os professores a apresentarem eventuais problemas de natureza avaliativa, de que resultou a partilha de algumas, muito poucas, situações pedagógicas de solução mais delicada, como foi o caso apresentado pela docente Francelina Dominical que solicitou ao grupo um pequeno ajuste no peso da componente de produção oral. Este facto, como sempre, promoveu no Grupo a velha e recorrente discussão sobre a questão da indisciplina que alguns docentes mais visionários afiançam ter observado, em dias de muita sorte e sob conjugação astrológica favorável, etc. etc. etc. (…)

Alguém poderia apontar um defeito a esta acta? Claro que não. Preserva o são princípio de não dizer absolutamente nada. E nada mais havendo a tratar, dei por encerrado o post que, mesmo antes de ser lido por alguém, já vai assinado por mim, que o concebi e secretariei…

Post 690   (Imagem daqui)

30 de janeiro de 2011

rasmaparta se não é verdade…

apresentador

(…mais um post fútil e parvito…)

Há agora uns gabirus na televisão que nos apresentam praticamente tudo, desde programas populares a artesãos e salsicheiros e velhinhas que fazem toalhas, velas e queijadas.

Uma ocasião, numa quente e saborosa tarde de Verão, eu estava deitado na fina areia quando verifiquei que se formara, de repente, do lado do leste, um barulhoso ajuntamento, espécie de quermesse ou micarene ou baile de bombeiros, junto ao paredão. Tinham alcatifado um recinto e pousado em cima um presidente da câmara, três guarda-sois e dois vereadores, e havia miúdas a saracotear a coluna, e outras colunas pousadas no chão, de onde brotavam ganidos do cantor de charme que garganteava as cantigas de Agosto, e uma banda a suar soar, com as guitarras desligadas, que a luz está cara. E, claro, havia a providencial caterva daqueles apresentadores basto comunicantes, cursinhos tirados nas universidades comunicaciológicas, cultura colada às pressas, muito sorriso pepsodente, pouco bom senso e praticamente nenhum talento.

Vai daí aproximei-me, muito mais para ver as pernas das bailarinas (esta miopia galopante obriga-me a aproximar cada vez mais, e mais perigosamente, deus me valha, do objecto a tocar focar) do que o talento dos rapazolas tagarelas. Mas ai, um dos pepsodentes veio ter comigo e perguntou-me de onde eu vinha. Apanhado de surpresa, disse a primeira coisa que me veio aos beiços: Unhais da Serra. Aí ele respondeu muito bem, sim senhor, Unhais da Serra! E continuou o seu trabalho. E eu fiquei a pensar ufa que sorte que tive. Se tivesse dito outra coisa qualquer, talvez não tivesse acertado… mas Unhais da Serra valeu-me um ‘muito bem’ do locutor. Há tiradas de sorte…

Post 689    (imagem daqui)

29 de janeiro de 2011

coisas giras por email

email

Hoje recebi o que segue:

Grande incêndio num edifício de quatro pisos, em Paris.    Uma família de 6 Argelinos vivia no 1º andar. Todos pereceram queimados.
Uma família cigana de 8 pessoas, que vivia no 2º piso, também pereceu no fogo.
Todos os 10 membros duma família do Senegal, que vivia no 3º piso, também foram vitimados.
Um casal de Franceses brancos vivia no 4º andar. Ambos sobreviveram!
A Associação Muçulmana Árabe local já exigiu saber porque sobreviveram os brancos quando os demais pereceram.
A Liga da Raça Negra insistiu em que se realizasse uma investigação publica.
A Agência para os Refugiados e Minorias também insistiu que se levasse a cabo uma grande investigação policial sobre a actuação dos bombeiros.
Questionado sobre o assunto pelos repórteres, o Chefe dos Bombeiros foi muito claro e explícito: Os dois brancos que viviam no edifício sobreviveram, porque tinham ido trabalhar!”

Enviado por Paula Leitão

Post 688     (Imagem daqui)