2 de fevereiro de 2011

a palavra dos outros

christine Uma agenda europeia que refere as festividades de todas as religiões… menos as do cristianismo?

Não se exige que o cristianismo possua especial prerrogativa sobre as outras religiões. Mas creio que deveria ser colocado, pelo menos, em pé de igualdade, não acham? Bom, mas quem sabe é Pedro Santana Lopes que mostra uma carta de Christine Boutin dirigida ao Presidente da Comissão Europeia. Claro que tudo isto é lá com eles …

31 de janeiro de 2011

Aprovada com distinção

ActaA minha acta foi ontem aprovada com distinção, sem restrições, correcções ou adendas. Nunca percebi a razão pela qual muitos dos meus colegas se mijam todos para fazer uma acta. Para mim, uma acta é um produto intuitivo. Vomito actas por tudo e por nada. É um estado de permanente e ameaçadora iminência. Ao almoço com os amigos digo coisas que parecem actas. E por vezes são. A minha vida é uma acta. E minto e omito e retoco e simulo, tanto na acta como na vida.

Transcrevo agora um pequeno excerto da minha aplaudidíssima acta:

(…) Em cumprimento do ponto dois da ordem de trabalhos, foi solicitado aos professores que, como sempre, procedessem à necessária reflexão sobre os resultados obtidos e consequente posicionamento pedagógico para com os mesmos, sempre com o propósito de os melhorar, se, obviamente, for caso disso. Uma avaliação justa, rigorosa, sem o menor erro de natureza pedagógica ou administrativa é outra actuação primordial, profusamente recomendada pela Direcção, cujo cumprimento cabal se exige e se espera de todos os docentes. A Delegada de Grupo encorajou depois os professores a apresentarem eventuais problemas de natureza avaliativa, de que resultou a partilha de algumas, muito poucas, situações pedagógicas de solução mais delicada, como foi o caso apresentado pela docente Francelina Dominical que solicitou ao grupo um pequeno ajuste no peso da componente de produção oral. Este facto, como sempre, promoveu no Grupo a velha e recorrente discussão sobre a questão da indisciplina que alguns docentes mais visionários afiançam ter observado, em dias de muita sorte e sob conjugação astrológica favorável, etc. etc. etc. (…)

Alguém poderia apontar um defeito a esta acta? Claro que não. Preserva o são princípio de não dizer absolutamente nada. E nada mais havendo a tratar, dei por encerrado o post que, mesmo antes de ser lido por alguém, já vai assinado por mim, que o concebi e secretariei…

Post 690   (Imagem daqui)

30 de janeiro de 2011

rasmaparta se não é verdade…

apresentador

(…mais um post fútil e parvito…)

Há agora uns gabirus na televisão que nos apresentam praticamente tudo, desde programas populares a artesãos e salsicheiros e velhinhas que fazem toalhas, velas e queijadas.

Uma ocasião, numa quente e saborosa tarde de Verão, eu estava deitado na fina areia quando verifiquei que se formara, de repente, do lado do leste, um barulhoso ajuntamento, espécie de quermesse ou micarene ou baile de bombeiros, junto ao paredão. Tinham alcatifado um recinto e pousado em cima um presidente da câmara, três guarda-sois e dois vereadores, e havia miúdas a saracotear a coluna, e outras colunas pousadas no chão, de onde brotavam ganidos do cantor de charme que garganteava as cantigas de Agosto, e uma banda a suar soar, com as guitarras desligadas, que a luz está cara. E, claro, havia a providencial caterva daqueles apresentadores basto comunicantes, cursinhos tirados nas universidades comunicaciológicas, cultura colada às pressas, muito sorriso pepsodente, pouco bom senso e praticamente nenhum talento.

Vai daí aproximei-me, muito mais para ver as pernas das bailarinas (esta miopia galopante obriga-me a aproximar cada vez mais, e mais perigosamente, deus me valha, do objecto a tocar focar) do que o talento dos rapazolas tagarelas. Mas ai, um dos pepsodentes veio ter comigo e perguntou-me de onde eu vinha. Apanhado de surpresa, disse a primeira coisa que me veio aos beiços: Unhais da Serra. Aí ele respondeu muito bem, sim senhor, Unhais da Serra! E continuou o seu trabalho. E eu fiquei a pensar ufa que sorte que tive. Se tivesse dito outra coisa qualquer, talvez não tivesse acertado… mas Unhais da Serra valeu-me um ‘muito bem’ do locutor. Há tiradas de sorte…

Post 689    (imagem daqui)

29 de janeiro de 2011

coisas giras por email

email

Hoje recebi o que segue:

Grande incêndio num edifício de quatro pisos, em Paris.    Uma família de 6 Argelinos vivia no 1º andar. Todos pereceram queimados.
Uma família cigana de 8 pessoas, que vivia no 2º piso, também pereceu no fogo.
Todos os 10 membros duma família do Senegal, que vivia no 3º piso, também foram vitimados.
Um casal de Franceses brancos vivia no 4º andar. Ambos sobreviveram!
A Associação Muçulmana Árabe local já exigiu saber porque sobreviveram os brancos quando os demais pereceram.
A Liga da Raça Negra insistiu em que se realizasse uma investigação publica.
A Agência para os Refugiados e Minorias também insistiu que se levasse a cabo uma grande investigação policial sobre a actuação dos bombeiros.
Questionado sobre o assunto pelos repórteres, o Chefe dos Bombeiros foi muito claro e explícito: Os dois brancos que viviam no edifício sobreviveram, porque tinham ido trabalhar!”

Enviado por Paula Leitão

Post 688     (Imagem daqui)

28 de janeiro de 2011

Falta de respeito, bolas!

mercadosE eu que pensava que a eleição de Cavaco Silva, só por si, sendo coisa boa ou má, sendo solução ou problema, acalmaria de vez a chiliquenta irrequietude dos donos do dinheiro. Para ser honesto comigo mesmo, não fiquei muito entusiasmado com a vitória do professor. Creio até que um certo langor se apoderou de mim, como quando desistimos de nadar e nos deixamos levar pela corrente que, mais adiante, se precipita em gigantesca cachoeira que sabemos existir mas não podemos evitar… Para ser ainda mais honesto, senti que este presidente não consubstanciava nenhuma das minhas utopias. Porém, aquietei-me logo que soube que só ele poderia reverter o processo de derrocada imposto pelos mercados financeiros.

Assim, o Presidente que outros votaram passou a ser também, de imediato, o meu Presidente. Devo esquecer tudo e entregar-lhe o meu destino. Devo-lhe dedicada admiração. Devo-lhe alegórico respeito…

Mas ah! Os mercados financeiros tiveram mais um chilique dois dias depois de o Presidente se impor a todos nós pela vitória, pelo carisma e pela exclusiva competência. Os mercados financeiros, mesmo depois de saberem quem iria presidir aos lusos fados, voltaram a subir despudoradamente as taxas do dinheiro com que compramos os melões. Brincadeira de mau gosto, senhores. Já não se respeita ninguém? Nem um tal Presidente?…

Post 687    (Imagem daqui)

26 de janeiro de 2011

Se servir de alguma coisa…

dinheiroÉ voz corrente que algumas das razões da nossa degenerescência sistémica, isto é, infra-estrutural, económica, se prendem com falências sérias de duas super-estruturas funcionais: a justiça e a educação. Na perspectiva de cada vez mais interventores académicos desta área, o país não evolui economicamente porque os serviços de magistratura e de educação não funcionam.

Aparentemente, temos aqui uma inversão das teses marxistas para a compreensão racional das sociedades humanas. Segundo o intelectual alemão, o fenómeno social e cultural submete-se aos sistemas económicos predominantes e não o contrário. Ou, nas suas palavras, a super-estrutura social/política/cultural (ou seja, o regime) é resultante do modo como se estabelece a infra-estrutura económica, i.e., o tipo de relações de produção. Ou ainda: as relações de produção ditam os regimes.

Porém, ao se atribuir parte da culpa do insucesso económico de um país à sua escola ou à sua justiça, ou mesmo ao seu regime político, está-se, aparentemente, a inverter o ónus da prova. É a escola que constrói a economia ou é a economia que edifica a escola? É a magistratura que cria e domina o capital ou é o capital que dirige a magistratura? De justiça nada sei. De escola muito pouco. Apenas o suficiente para reconhecer que nunca vi nenhuma destas super-estruturas liderarem processos de transformação. Elas são, primordialmente, estruturas reprodutoras dos sistemas, espelhos reflectores das relações de produção, no caso presente, capitalistas.

Devemos saber procurar os líderes e os culpados onde eles realmente estão.

post 686       (Imagem daqui)

24 de janeiro de 2011

Profundíssima reflexão pós-eleitoral

estupidoDe repente, surgiu a polémica que se esperava: tornar ou não o voto obrigatório. É óbvio que tremi, visto que não voto desde a Constituinte e já me desabituei. Mas, atentando melhor nas propostas lançadas a debate sobre esta matéria, logo me aquietei, visto que o voto será obrigatório, sim, mas só para indivíduos inteligentes, facto que, afortunadamente, me liberta daquele detestável compromisso que, ainda por cima, calha sempre a um domingo…

Pela mesma ordem de ideias, faz também todo o sentido que os estúpidos sejam proibidos de votar. Não me digam que não há indivíduos mesmo estúpidos. Claro que há, sejamos francos. E são fáceis de detectar. Basta olhar para eles de relance: babam-se, riem só à noite, têm a cabeça em forma de cunha, uma só sobrancelha e votam sempre em professores de economia. Os que, para além de tudo isto, ainda apresentem um ar ditoso devem ser cuidadosamente evitados, ter as suas cartas de condução apreendidas e ser forçados a regressar à escola, que é lá que estão os outros… 

post 685                  (Imagem daqui)   

23 de janeiro de 2011

avaliar o trabalho colaborativo

Boa SorteEstamos de novo em plena monda avaliativa. O ano passado não houve. Deve ter sido por isso que o ano correu tão mal e que o país se afundou desmesuradamente. Está visto que basta um ano sem avaliação docente, para que o país despenque e descarrile de modo inexorável. Ah, mas este ano, não. Este ano tudo voltou ao seu lugar, os professores serão de novo eficaz e cortesmente (lê-se cortêsmente) avaliados, a paz embrulhará todos nós no mesmo absoluto lençol branco, as questões do médio oriente e da Tunísia serão resolvidas a contento, não haverá mais desemprego, nem sujeição escandalosa, nem desumana humilhação de quem procura trabalhar e ser honesto, nem haverá mais conquista, não, navegar não é preciso, viver é preciso, etc. etc. (Ivan Lins)… E tudo porque regressou benfazeja a tão dilecta avaliação docente.

E, apesar de tudo isto, ainda se levanta um tipo qualquer (no caso Paulo Guinote) que ainda não percebeu que reflectir sobre a avaliação docente é crime e, pior que isso, pode contaminar de esquisitice uma sociedade inteira que há muito deixou de pensar.

Vejam só que o autor d’A Educação do Meu Umbigo afirma, a propósito de um simples item sobre avaliação do trabalho cooperativo, não ser capaz de o preencher. Primeiro, subverte tudo, declarando que, em seu entender, não colaborar no trabalho do Grupo Disciplinar pode, inclusivamente, ser uma vantagem que ele estimaria observar em muitos dos seus pares. Caramba, meu, endoudeceste? (Para ser honesto, há muito que penso desse modo. Mas, com os diabos, um só doido, travesso e solitário, é perfeitamente absorvível pela confraria, ao passo que dois já pode não o ser tão facilmente.)

Agora, Paulo, essa de afirmar que não sabe como avaliar esse parâmetro já é demais! Oh homem de Deus, aquilo tem uns quadradinhos numa escala de 1 a 10. É só colocar o xis num deles. Percebeu?

Simples e imprescindível. (Ou será antes inevitável?)

(Imagem daqui)      post 684

reflexão

presidenciais 11Hoje estou em reflexão sobre qual o candidato que merece o meu voto. Deveria tê-lo feito ontem, mas esqueci-me completamente. O vento agreste que se ouve lá fora convida a essa mesma meditação, embora me impeça de sair de casa. Seja como for, ainda que o vendaval obstrua o cumprimento do meu dever cívico, ainda que outras razões me prendam a este sofá e a estes chinelos, a reflexão, essa, já fica feita, para futuras eleições do mesmo tipo. É que sempre me esqueço de reflectir no dia certo…

(Imagem daqui)    post 683

22 de janeiro de 2011

o humor físico e os alunos cinestésicos (1)

cinestésicoSempre me socorro do mesmo exemplo notável: o episódio em que Martim Moniz conta, post mortem, o que lhe aconteceu na conquista de Lisboa em 1147. Depois de decepado de ambos os braços, Martim pensa para consigo “Martim, a coisa não te correu bem, acho que estás definitivamente fodido”, enquanto gesticula efeminadamente com as mãos, mas, como já não tinha mãos, Martim, sentado confortavelmente na cadeira do convidado do programa televisivo “Boião de Cultura”, levanta ambas as collaneadas pernas e faz com elas o mesmo efeminado movimento enquanto pensa “Martim, a coisa não te correu nada bem, acho que estás… etc.”.  Martim exprime um pensamento com as mãos, digo, com as pernas, visto que os braços tinham sido decepados…

Riram? Não riram. Têm que ver a cena, aliás, magistralmente concebida por Herman.

Assim acontece com os nossos alunos cinestésicos. Só aprendem as coisas quando lhas dramatizam. Alunos cinestésicos fazem uma dupla imparável com o humor físico e, portanto, com professores palhaços.

Voltaremos a isto, um dia destes, quando nos sentirmos todos completamente cinestésicos… (It’s a dealer? Off shore.)

(Imagem daqui)    (post 682)

19 de janeiro de 2011

buuuum ou a venerável irritação

irritadoFiz há dias 60 anos. Não os comemorei, é claro. Comemorar o quê? A decrepitude? A solidão impenetrável? A aproximação da morte? A reforma de 800 euros? Ter sido professor? Os meus textos? A governação socialista? A social-democrata? As outras governações? O pais de merda?

Aos sessenta anos só comemoro esta minha ainda afiada língua, esta miserável prosa, este meu espírito torto, esta raiva unívoca no teclado… Ontem era voz corrente que ia morrer de cancro. Hoje inclino-me mais para uma explosão apopléctica. (Muito mais luxuosa e sublime).

(Imagem daqui)         (post 681)