16 de janeiro de 2011

Sossego e croissants

prof velho van goghSalvo raríssimas excepções, não é mais nos seus locais de trabalho, as suas escolas, que os professores procuram refrigério para as suas decepções, angústias e solidões.

Como na solitária de uma masmorra, o professor sério e reflexivo sofre hoje um isolamento institucional que o calou definitivamente, permitindo-lhe apenas vazios reencaminhamentos de um certo discurso oficial politicamente correcto.

Fragilizado como nunca, escrutinado por gente incompetente para avaliar o seu trabalho, desautorizado e subserviente, já não tem quase ninguém que lhe ouça os murmúrios e os lamentos.

É por isso que alguns professores vieram para aqui (e tantos outros lados) queixar-se, onde são lidos por muitos de nós com apreço e raiva, ambos surdos, como convém. Ouvimos então o que eles nos dizem, sabemos ser verdade, quereríamos atroar os ares com violência, mas nada fazemos ou dizemos.

Olhos eternamente presos no ecrã, sentindo nossas aquelas mágoas, ficamos quedos e mudos, em nome do que há de mais sagrado nas nossas vidinhas de hoje: o croissant e o sossego.

Perdoem a lamechice. Nunca imaginei ser capaz de escrever isto. (E não era nada disto que eu queria escrever, senhor ministro. Acredite.)

(Imagem daqui – van gogh  o velho)                                                      post nº 679

a seguir: O tempo dos psicólogos…

15 de janeiro de 2011

hoje recomendo este…

insultoOuça! Você quer insultar alguém e não tem jeitinho nenhum? Não desespere. Vá AQUI e escolha. Tem quinhentos insultos qualificados e de boa cepa, para anular o voto. Escolha pelo menos dois, para o caso de haver segunda volta… Boa sorte          

                                                                               post 678 (Imagem daqui)

… e, claro, este

dragoscEu também não sabia. O Dragoscópio ressurgiu. Ressurgiu e o autor promete pancada e água à jarra na fauna dominante. Em tempos, falei aqui muito deste blog. Mas, para os que ainda não o conhecem, devo dizer que se trata de um dos mais antigos (online desde 2003) e credenciados blogs da nossa blogosfera. É também, indubitavelmente, um dos que melhor tratam a nossa língua e o que mais dignamente sabe açoitar e desmoralizar a cáfila da nacinha. Confiram, é AQUI.

 Post 677    (Imagem do blog)

14 de janeiro de 2011

Ontem como hoje… (talvez mais hoje que ontem)

Patxi Andion–“El Maestro” (com cenas do filme “La Lengua de las Mariposas”)
Em breve trarei aqui Patxi Andion, para o vermos melhor. Hoje também trago mas por outras razões, razões bem específicas, que se prendem com a atitude de ser professor, coisa que estas pobres gentes já há muito esqueceram.  E, obviamente, os poderes instituídos transformaram-na numa actividade inócua, subvencionada para o suporte prático e ideológico das suas posições.

Españolito que vienes al mundo te guarde Dios. Una de las dos Españas a de helarte el corazón. Españolito que vienes al mundo te guarde Dios. La primera manera de destruir un país es deshacerse de los que enseñan al pueblo, y eso lo hicieron muy bien.
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Un hermoso homenaje para aquellos que en tiempos difíciles supieron llevar la cultura, la verdad y la enseñanza a tanta gente, en especial a los niños (aunque estos no entendiéramos nada en aquellos momentos
)

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El ser maestro no es un trabajo sino una actitud y un estilo de vida. Animo a todos mis compañeros maestros que no mamam solo un salario sino hacen de su labor la punta de lanza para cambiar lo que esta mal.

Vivan los maestros que no educan en el sometimiento a la autoridad, ni en los valores de la patria. Los que si lo hacen (la inmensa mayoria) aun queriendo tomar una actitud altruista son los peores frenos a que se genere una nueva cultura. Lo unico que hacen es perpetuar lo establecido. No son educadores, son reproductores de un dogma.

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Hoy en chile es el dia del maestro... y al igual que en todo el mundo, la justcia y reconocimiento a su abnegada labor es una quimera. Quiero rendir un homenaje sincero a estos constructores sacrificados cuyo ejemplo es la vocacion...es hora que se les pague “los 36 meses”..y mas!

________________________________                     (Comentários sobre “El Maestro” provenientes de várias fontes na web)                       post 676

A seguir: “sossego e croissants”

10 de janeiro de 2011

… e, depois, descansar

ELOGIOLido muito bem com a crítica. Não no momento em que ma fazem, mas depois de respirar fundo durante uns dias e concluir que não é uma boa opção matar o indivíduo que ma fez. Se a crítica vier duma pequena multidão, preciso de duas semanas para evitar o genocídio.  Mas sempre consigo.

Em relação às críticas favoráveis, prefiro ouvi-las agora, enquanto estou mais ou menos vivo. Depois de morto só serviriam para me aborrecer. Vocês fazem lá ideia de como custa a um morto ter que ouvir laudata e encómios fingidos dos amigos que cá ficam, vivos, risito aflorando disfarçado no canto do lábio mordaz, finalmente livres da nossa insuportável presença!...

Suponhamos que um morto continua a ouvir, com uma espécie de ouvidos que alguns acreditam que a alma tem. E eu, de certo modo, acredito que a nossa alma tenha ouvidos, só não acredito que tenha orelhas, caramba. Que diabo de jeito teria uma alma com os seus ascéticos ouvidos rodeados de abundantes abanadores? Uma alma tem que se cuidar.

Porém, se um morto morre é porque o que ele quer é descanso e não ouvir o aranzel dos panegíricos. Fica, pois, aqui bradado que quero todos os louvores para hoje, o mais tardar até às onze, que é a hora a que me deito.

Não sou, no entanto, nada exigente em relação ao elogio. Qualquer “é um tipo fenomenal” ou “nunca houve inteligência tão lúcida” ou mesmo um simples “homem de uma sabedoria suprema”, ou ainda simplesmente “um sábio”. Coisa simples, mas para hoje, por favor. Nada de procurar arquitectar elogios mais eruditos e criativos, para mos dizerem só no mês que vem. É hoje… até à hora de dormir. E, depois, silêncio na tasca.

Post 675   (Imagem daqui)                                                 

9 de janeiro de 2011

click (1)

Belmonte

Capelas do Calvário e de Santo António, em Belmonte. Fui lá e fiz click. Chegado a casa, dei-lhe um toque de Sketcher. E vi que era bom. E fez-se tarde e manhã…                    post 674

8 de janeiro de 2011

obsessões do meu ipod (26)


mariza

Mariza – Cavaleiro Monge

Sou da primeira geração demolidora do fado. Nunca até nós o fado português tinha sido tão maltratado. Comigo, connosco, ele foi simplesmente proscrito por imprestável. E acho que o era, de facto. Ainda hoje acho que o era. Imprestável. Lastimoso e lastimável. A música que prestava estava nas baladas consequentes do Zeca, do Adriano, do Sérgio, do Zé Mário. A música que prestava vinha de Inglaterra, como um pouco antes viera de Itália e de França. Mas toda esta música morreu, ou foi repescada e traduzida por rockers que a degradaram profundamente. A minha mãe dizia-me então que eu ainda viria a gostar de fado. Como se isso fosse possível algum dia! Evidentemente daquele fado, não. Mas o fado aprimorou-se, educou-se, chamou a si a literatura e a música erudita. Deste fado eu gosto.

Mas será realmente fado isto que Mariza (e tantos outros) hoje defende nos mais exigentes areópagos do mundo?               (Imagem daqui)                 post nº 673

6 de janeiro de 2011

é só pra dizer que…

LADRAOEu não sei se todas as evidências de podridão que ultimamente têm vindo a lume sem cessar são mesmo reais, se são consequência de ganâncias extremas ou mal disfarçadas invejas, ou se são apenas ataques certeiros para derrubar adversários perigosos. Não sei, de facto, qual a etiologia de todas as torpezas e vergonhas que se avolumam grossas por baixo do pano diáfano do discurso mediático.

Se se tratar de situações verdadeiras, fica claro que vivo num país que não é o meu. Se se tratar apenas da ganância de quem ainda não tem e há muito vê os outros terem, proclamo que este país não é o meu. Se o objectivo de toda esta baixeza é apenas a luta partidária pelo poder, concluo facilmente que este não é o meu país.

O país que sei é o país dos falhados néscios a quem solidamente ensinaram as baboseiras da hombridade e da rectidão, da decência e da dignidade. Esse é o país navegador que me deixou para sempre a ver navios.

Que me desculpem todos os ladrões e embusteiros regimentados por eu ter ficado tão irremediavelmente burro…

(Imagem daqui)

5 de janeiro de 2011

bem fundadas preocupações

preocupacao Estou muito preocupado. Há dias fui tirar o cartão único. Apanhei no caminho um bocado de chuva e uma ventania de furacão, de forma que cheguei lá com os cabelos eriçados que nem gato assanhado. Tudo digital, pois claro. Assinatura, dedadas, fotografia. Não deu tempo para passar os dedos pelas melenas desgrenhadas e a máquina apanhou-me mesmo assim. Sem contemplações, sem apelo. Ainda percebi algum desassossego que a foto provocou na menina do registo civil, mas nenhum de nós moveu uma palha para substituir a inominável fotografia. Erro fatal.

Nada disto teria importância se estes novos cartões não percorressem o mundo inteiro, até irem parar algures nos EEUU, onde um dedicado funcionário analisa os trombis, as fronhas, enfim, os rostos de tudo quanto é cidadão mundial, a fim de detectar possíveis facínoras e prever eventuais ataques terroristas. Ora se, tanto quanto fui informado, o aspecto físico dos cidadãos é elemento considerável, quase decisivo, para a sua classificação como suspeitos nos arquivos da acção anti-terrorista intercontinental, não sobra nenhuma dúvida de que devo estar, neste preciso momento, numa qualquer lista negra como provável bombista, ou coisa pior. Se juntarem à insana guedelhice da minha foto doze namoradas, dois divórcios e uma vida inteira sem fé nem sacristia, pouco fica que me possa furtar à conjectura final - elemento perigoso para a civilização ocidental. No mínimo.

(Imagem daqui)

1 de janeiro de 2011

obsessões do meu ipod (25)

jose duarte



Lou Donaldson



lou donaldson

(Imagem daqui)

post nº 670

José Duarte – uma singelíssima homenagem

Não se deve obrigar ninguém a gostar de alguma coisa, do modo como as rádios me tentaram fazer gostar de hip-hop e hoje me querem obrigar a gostar de techno. Ao longo de 44 anos, José Duarte tem feito pelo jazz o que poucos fizeram, informando os ouvintes, abrindo-lhes os ouvidos para este género musical, mas jamais massacrando-os com ele. Pequenas doses diárias de cinco minutos, bem explicadas e contextualizadas, não nos aborreceram nunca, e foram acção necessária e suficiente para que eu aprendesse irremediavelmente a gostar de jazz. Desde 1966.

Muitos apreciadores pensam que devia haver maior divulgação do jazz em Portugal. Discordo. A divulgação sustentada que José Duarte tem feito, uma divulgação modesta e extraordinariamente eficaz, é imprescindível, de facto, mas suficiente. O jazz não é nosso. É, certamente, um dos melhores produtos musicais que conhecemos no século XX, mas não é nosso. Veio da América, onde é uma música de massas. A meio caminho entre o rigor erudito e a expansão caótica dos sentidos, o jazz é a expressão da alma humana mais complexamente simples, mais profundamente intuitiva a que a música soube ascender. Mas não é coisa nossa, e por isso será só de alguns de nós, os privilegiados que a queiram ouvir e entender. E assim é que está bem. Não é interessante gostar do que todos gostam. Muito mais vivificante é rejeitar o que todos amam e valorizar o que todos desprezam.

Para hoje, um tema de Lou Donaldson, Whiskey Drinking Woman, um blues, uma música do sofrimento, recorrente em Cinco Minutos de Jazz, de José Duarte.

30 de dezembro de 2010

Nada de novo…

ricos pobresEm 2011, os directores, coordenadores de serviços e chefes de sector da Segurança Social serão promovidos e verão os auferimentos das suas despesas de representação aumentadas em 30 por cento, tudo rigorosamente legal, como sempre. Saiu hoje mesmo, no Diário da República. Boa e santa medida! Que, no meio da penúria geral, haja alguém, isto é, uma pobre  classe dirigente, que passe a ganhar mais. Eis, pois, uma medida tão propícia quanto o momento em que se publica, com o povo já embotado de bêbado, sem perceber nada do que se passa, sem conseguir já focar a letra miúda do Diário, entretido que está a festejar 2011, o ano da sua ruína completa. A medida governamental que ora vê a luz do dia, se aplicada num momento de sobriedade nacional, com o povo atento e lúcido, seria, no mínimo, desaconselhável. Porém, em plena passagem de ano, já no meio dos vapores da alegria lorpa, das passas rançosas, da tosca bovinidade e do espumoso gaseificado, tudo passa na santa secretude da minúscula letrinha dos despachos da lusa governança…

(Imagem daqui)

A seguir: “José Duarte - uma singelíssima homenagem” em obsessões…