Lido muito bem com a crítica. Não no momento em que ma fazem, mas depois de respirar fundo durante uns dias e concluir que não é uma boa opção matar o indivíduo que ma fez. Se a crítica vier duma pequena multidão, preciso de duas semanas para evitar o genocídio. Mas sempre consigo.
Em relação às críticas favoráveis, prefiro ouvi-las agora, enquanto estou mais ou menos vivo. Depois de morto só serviriam para me aborrecer. Vocês fazem lá ideia de como custa a um morto ter que ouvir laudata e encómios fingidos dos amigos que cá ficam, vivos, risito aflorando disfarçado no canto do lábio mordaz, finalmente livres da nossa insuportável presença!...
Suponhamos que um morto continua a ouvir, com uma espécie de ouvidos que alguns acreditam que a alma tem. E eu, de certo modo, acredito que a nossa alma tenha ouvidos, só não acredito que tenha orelhas, caramba. Que diabo de jeito teria uma alma com os seus ascéticos ouvidos rodeados de abundantes abanadores? Uma alma tem que se cuidar.
Porém, se um morto morre é porque o que ele quer é descanso e não ouvir o aranzel dos panegíricos. Fica, pois, aqui bradado que quero todos os louvores para hoje, o mais tardar até às onze, que é a hora a que me deito.
Não sou, no entanto, nada exigente em relação ao elogio. Qualquer “é um tipo fenomenal” ou “nunca houve inteligência tão lúcida” ou mesmo um simples “homem de uma sabedoria suprema”, ou ainda simplesmente “um sábio”. Coisa simples, mas para hoje, por favor. Nada de procurar arquitectar elogios mais eruditos e criativos, para mos dizerem só no mês que vem. É hoje… até à hora de dormir. E, depois, silêncio na tasca.
Post 675 (Imagem daqui)