26 de novembro de 2010

coisas giras por email

“Camões, grande Camões, quão semelhante…”    (Bocage e eu)

camoes           As sarnas de barões todos inchados
           Eleitos pela plebe lusitana
           Que agora se encontram instalados
           Fazendo aquilo que lhes dá na gana
           Nos seus poleiros bem engalanados,
           Mais do que permite a decência humana,
           Olvidam-se de quanto proclamaram
           Em campanhas com que nos enganaram!
          
           E também as jogadas habilidosas
           Daqueles tais que foram dilatando
           Contas bancárias ignominiosas,
           Do Minho ao Algarve tudo devastando,
           Guardam para si as coisas valiosas…
           Desprezam quem de fome vai chorando!
           Gritando levarei, se tiver arte,
           Esta falta de vergonha a toda a parte!
          
           Falem da crise grega todo o ano!
           E das aflições que à Europa deram;
           Calem-se aqueles que por engano…
           Votaram no refugo que elegeram!
           Que a mim mete-me nojo o peito ufano
           De crápulas que só enriqueceram
           Com a prática de trafulhice tanta
           Que andarem à solta só me espanta.
          
           E vós, ninfas do Coura onde eu nado
           Por quem sempre senti carinho ardente
           Não me deixeis agora abandonado
           E concedei engenho à minha mente,
           De modo a que possa, convosco ao lado,
           Desmascarar de forma eloquente
           Aqueles que já têm no seu gene
           A besta horrível do poder perene!

Enviado por Rogério Cunha 

Autor não identificado      

(Imagem daqui)

19 de novembro de 2010

Embarco ou não?

rumosEstou farto de ouvir dizer que Portugal devia ter um rumo. Ora, eu acho que o melhor para Portugal não é ter um rumo, mas vários, para o caso de alguns falharem. Cavaco Silva (o que quer menos palavras) tem um rumo; Manuel Alegre (o que até preposições sabe usar, imaginem) diz ter um rumo. O outro candidato, de cujo nome não me lembro (mas isso não admira nada, porque na verdade ninguém se lembra), também propõe um rumo, apesar de ter a palavra fanhosa e usar óculos. Há ainda um outro candidato que nunca vi mas desconfio que existe e que também tem um rumo para Portugal.

Ora, partindo do são princípio de que cada um deles terá o seu rumo próprio e que não se enfiam todos no mesmo, temos quatro rumos, quatro palavrosos/lacónicos rumos para Portugal.

Proponho que sejam eleitos os quatro candidatos e que governem o país ao mesmo tempo, munidos de rumos naturalmente divergentes. Assim, os portugueses poderiam, depois de espreitar os quatro destinos, tentar perceber qual deles é o de férias. E embarcar nesse.

(Imagem daqui)

13 de novembro de 2010

casuística educacional

arrogantePara que os Alunos possam crescer, precisam de respeitar e admirar os Professores. Mas para serem admirados e respeitados, os Professores não têm margem para nenhum erro. E, no entanto, erramos mais vezes do que acertamos. E um dos mais graves erros que os professores cometem de modo recorrente e corporativo, é amuar e remoer perante críticas insultuosas, esquecendo, por vezes, que o oponente insultuoso já perdeu a razão e o debate, ainda que a possua em demasia. 

No caso concreto reagimos muito bem, mas seria espectável que tivéssemos reagido ainda melhor, aniquilando o inimigo com branda energia, inteligente postura e irónica subtileza. Estes ingredientes, claro,  não se compram em acções de formação, mas seriam armas implacavelmente eficazes se as possuíssemos. (É urgente que as possuamos...)

O ascendente académico de que a Senhora EE se reveste frente aos professores da turma é que a induziu ao descalabro incontinente de que foi acometida. Que péssimo serviço prestou ela à instituição académica onde serve, à dignidade da investigação que conduz, ao grau de Doutor que ostenta e, em última análise, a si própria. É como se os míticos e superlativos sabetudos da nossa praça rolassem lá das alturas e se estatelassem no chão, diante da mais humilde das criaturas. "Quantos vão a Coimbra, se burros vão, burros vêm", diz-se por estes lados. Dignidade não vem de Bolonha, no pacote expresso.

(Imagem daqui)

12 de novembro de 2010

gabinete do aluno (2)


disciplina

Caros estudantes do…

Embora continue intimamente convencido de que os comportamentos manifestados por dois alunos na última aula são passíveis de incorrer em procedimento disciplinar, sinto obrigação de, antes de toda e qualquer demarche naquele sentido, vos comunicar a minha decisão quanto ao tratamento da situação em análise.

São três as ordens de razões que me ditaram a decisão que ora vos comunico:

1. Uma razão de natureza pedagógica.  Os castigos, ainda que intencionalmente pedagógicos, têm baixo efeito na construção do carácter dos aprendentes. Não raro desaguam até em efeitos perversos, produzindo reacções e atitudes opostas às pretendidas.

2. Uma razão social. O professor está, obviamente, velho e, portanto, perdendo aceleradamente o resto de paciência que a vida lhe reservou para compreender e  aceitar as naturais cretinices em que a juventude é tão orgulhosamente pródiga.           

3. Uma razão pragmática, administrativa e metodológica.

Depois de abandonarem a sala, os alunos em causa não se dirigiram ao  gabinete que os deveria ter acolhido, provavelmente porque seria demasiado tarde para ainda encontrarem aberto o referido depósito. Nestas circunstâncias não foi possível acolher os estudantes que, certamente traumatizados por o encontrarem  fechado, terão optado por abandonar recinto e propósito, não deixando assim um rasto sequer da situação criada. Como reunião sem acta ou desafio sem árbitro, perdeu-se para sempre a oportunidade de evidenciarmos as nossas (minhas e vossas) mútuas recriminações, falácias e aselhices. 

Por tudo isto, declaro esquecido o incidente, na esperança de que situações tão inopinadamente tolas não voltem a atravessar as vidas dos que na presente imbecilidade se envolveram.

(Imagem daqui)

7 de novembro de 2010

o sapato

Sapato 2Era um sapato classe média. Média alta, por causa do salto alto. Era um sapato que saltava alto, sonhava alto, falava baixo. Sonhava afagar o pé de princesa, de milionária, de economista loira, de artista de cabaré, de puta. De Cinderela. Conheceu o pai, um operário que o aconchegou contra o peito (para lhe dar graxa e pôr as solas). Conheceu o patrão que o chutou e lhe roubou a mais-valia. Conheceu Sócrates, o filósofo, que tentou calçá-lo sem sucesso. (Sócrates tinha um pé tão descomunal como a cabeça). Conheceu Sócrates, o governante, que lhe encurtou o cadarço e lhe aumentou o iva. Conheceu a princesa que não suspeitou da sua existência. Conheceu a milionária que o rejeitou por falta de griffe. Conheceu a economista loira que o contou várias vezes e disse que eram vários. Conheceu a artista que lhe prometeu vida de luzes, mas caiu no palco e nunca mais usou sapatos. Conheceu a puta que o comprou por trinta noites. Conheceu a Cinderela-povo que o desejou ardentemente, mas que continuou descalça, nunca ninguém me explicou porquê…

(Imagem daqui)

3 de novembro de 2010

Dossier de evidências

cantoras Vem aí o Natal, uma das épocas mais propícias à exteriorização da alegria e de outros comportamentos idiotas. As cantoras do grupo disciplinar prepararam uma linda festa para as crianças (por enquanto felizes, por ainda não pertencerem a escola nenhuma). Mas o grupo disciplinar, além das referidas cantoras, inclui também um professor desajustado, absolutamente irrelevante, de voz indizível e presença surreal, incapaz de subir a um palco ou mesmo de ficar muito próximo dele.

Linda a festa. Aplausos dos comensais, de orelha tão romba quanto afiado o apetite. Fotografias-atestado para o registo de evidências da área de empenhamento pessoal da avaliação docente. E o prof não-cantor, sentado à mesa, esperando já ansioso o bacalhau, acabrunhado, low profile, sofrido, sumido, reza baixinho para que tudo acabe logo. E os convivas que o ladeiam a mostrar interesse em saber por que razão ele não está no palco e de que modo, afinal, colaborou ele no evento. E o nosso prof restante, o não-cantor, a responder que suara a camisola da escola muito mais que muitos outros. E os outros a reclamar uma explicação melhor. E o prof restante a explicar que tentara, cem vezes e sem sucesso, convencer as colegas a ficarem caladas na ceia de Natal…

(Imagem daqui)

1 de novembro de 2010

grades

Era escurão. Não me pareceu tipicamente afro, mas era escurão. Pequenas várias cicatrizes percorriam-lhe testa e faces. Blusão sujo, cabelo rapado, beiçola superior proeminente. 16 anos. Entrou, olhar distante, no Gabinete do Aluno, espécie de prisão para os facínoras, instaurada pelas novas escolas, a fim de combater a indisciplina generalizada que as transformou em atafulhados manicómios, onde não se sabe quem leva a palma em matéria de sandice e desvario, se os alunos, se os professores, se os outros…

Entrou assim, de esguelha, pisando ovos, com seus ténis descomunais. Veio enviado por um professor que não o consentiu na aula.

Vinha revoltado pela injustiça de que tinha sido vítima (outros alunos também mascavam pastilhas e, contudo, ficaram na aula), mas com palavras sussurrantes, melífluas, que mais pareciam de afecto. (A revolta assim expressa costuma ser mais preocupante do que quando existe natural e espontânea 

grades
correlação entre ela e as palavras usadas para a exprimir). Vinha por ter cometido o crime de mascar chicletes na aula. Regulamento Interno, artigo 116, parágrafo único, é o que é.

E era escurão, embora não me parecesse tipicamente afro. Não sabia o nome do professor mas era Matemática a aula. A falta do nome do professor contrariou a responsável pelo gabinete, já ia ficar um campo por preencher. (E dá trabalho ter que bisbilhotar depois quem foi o professor, normalmente dá para perder o intervalo, quiçá o apetite…)                   

(Imagem daqui)

30 de outubro de 2010

a cadeira do poder


cadeirão
Li no amirgã mais um sarcástico texto que nos recorda a semelhança que Eça via entre os políticos e as fraldas. Eça achava, de facto, que os políticos são como as fraldas, que devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão.

Discordo em absoluto. Cheiram, claro, (e quase tanto e tão depressa como as ditas) mas isso acontece exactamente porque os eleitos do povo sabem que serão mudados num abrir e fechar de olhos, desalojados das

suas fofas cadeiras em menos de um fósforo (embora quase nunca a tempo de evitar a contaminação do ar, como de facto acontece com as fraldas).

No primeiro dia em que um político senta na cadeira do poder, digamos assim pela tardinha do primeiro dia, por vezes ainda antes das telenovelas que tão artisticamente produzem e encenam, já ele começa a imaginar onde vai buscar o graveto para estimular as suas contas bancárias (as legítimas e as outras, pois claro) antes que o povo se arrependa de o ter escolhido. E corrompe-se e cheira rápido como elas, as fraldas…

A verdade é que deveríamos dar aos políticos lugares robustamente perenes, ou, pelo menos, dar-lhes a ilusão de que o eram, embora não o sendo, obviamente.  Isso levá-los-ia a adiar os primeiros golpes, visto que, descansadamente, pensariam que não haveria urgência tão urgente em afundar o país, tarefa que poderia esperar até o dia seguinte, mês seguinte, ou mesmo ano seguinte, sempre depois das divertidas telenovelas da sua predilecção. É isto, prontos.

(Imagem daqui)

29 de outubro de 2010

a palavra dos outros

abelhas
 

(Imagem do blogue)
Finandos

“Não sei a que causa, comemoração, valor, instituição, idade, parentesco, festividade, ementa, santo, continente, oceano, espécie em extinção, perigo, buzinão, anúncio de candidatura, inauguração, implosão, explosão, doença da fome, doença da fartura, se dedica o dia de hoje. (…)”

In Amirgã 27/10/2010

Para ler integralmente aqui.

24 de outubro de 2010

a primeira negativa a espanhol


 espanhola


(Imagem daqui)

O Pedro Serra, 15 anos e três repetições na sua já arrastadamente longa vida académica, tirou ontem a primeira negativa a Espanhol de que há memória na escola. Foi um alvoroço. É quase como se alguém tivesse tirado uma negativa a Educação Física ou a Moral. Olharam-se mutuamente os professores das outras disciplinas, depois olharam incrédulos para o professor de Espanhol e finalmente mostraram desejo de conhecer o Pedro. O Pedro, esse, olhado com espantada admiração na escola toda (até mesmo pelo Senhor Director), afirmou, com um leve toque de orgulho, que, embora o facto não esteja, na realidade, ao alcance de qualquer um, para ele foi como limpar o cu a meninos…