(Imagem daqui) | Apresento-vos o filho do trala, o ligeiríssimo, que já tem dois anos, mas que ninguém conhece. Quando me sentir normal, isto é, moderadamente estúpido, escreverei aqui no trala. Se, por outro lado, me sentir anormalmente estúpido, escreverei no ligeiríssimo. Poderá, no entanto, ser a imbecilidade de tal modo avantajada que alimente a ambos. Neste caso, multiplicarei as camelices (como os profetas multiplicam pães e litradas de vinho) graciosamente pelos dois espaços. |
5 de outubro de 2010
um blogger bipolar?
4 de outubro de 2010
Irreverente chatice…
(Imagem daqui)
2 de outubro de 2010
Qual ameaça, Ana?
O elevador
| O Dr. Salgado não sabia ao certo se o descadeiramento do seu esqueleto configurava ou não a tal emergência absoluta, mas, na dúvida, premiu disfarçadamente o botão de chamada e esgueirou-se para dentro da cabina de riquíssimo alumínio, tão logo a porta amavelmente se lhe abriu. Às seis da tarde de um dia de Setembro ainda quente e arrastado, o Dr. Salgado verificou que não conseguia cumprir a cem por cento a meta a que se propusera desde o primeiro dia de aulas: levar a primeira semana a bom termo, sem desancar ninguém na sequência de alguma repentina e desusada perda de lucidez, sem se queixar de nada, ainda que isso configurasse um projecto demasiado ambicioso, sem ficar afónico ao fim de duas ou três aulas e sem se descadeirar todo, de tanto subir e descer umas escadas demasiado íngremes, feitas por um jovem arquitecto, destinadas a outros jovens, que nada neste mundo parece já feito para os velhos, na medida em que essa opção consubstanciaria um imenso erro financeiro, uma aposta em cavalo que perde, um investimento falido. Ora, seis lances de escada ainda representam um bom esforço orçamental para o governo e outro tanto de cruzes e de fémures para o Dr Salgado. Teve que se encostar logo ali, no primeiro vão, estendendo os olhos piscos para o alto, a medir o quanto ainda faltava para a sala onde trinta matulões o esperavam para tirar |
E, espreitando na esquina, ao longo do interminável corredor, Salgado arrastou-se até o elevador novo, instalado por um jovem mecanotécnico e destinado nunca o Salgado soube a quem, visto que lhe fora dito tão somente que o aparelho se destinava a ser usado apenas em situação de emergência absoluta. Não sabia ao certo se o descadeiramento do seu esqueleto configurava ou não a tal emergência absoluta, mas, na dúvida, premiu disfarçadamente o botão de chamada e esgueirou-se para dentro da cabina de riquíssimo alumínio, tão logo a porta amavelmente se lhe abriu. Mas entrou quase aterrorizado, por estar a usar sem autorização superior, um luxuosíssimo meio de subir três andares que, sabia-o agora de fonte segura, não lhe estava de facto destinado. (Imagem daqui) |
25 de setembro de 2010
50 anos antes da República…
própria revolução. Povinho besta este que sempre desejou um líder que o guie oprimindo-o, por ser mais do que ele, em vez de desejar um que com ele siga, por ser tanto como ele!
Fonte: Biblioteca Nacional Digital (Imagem daqui)
24 de setembro de 2010
obsessões do meu ipod (19)
| Um hilariante talento. No momento deste espectáculo, o violinista tem três anos de idade, possui uma inusitada ligação directa entre o ouvido e a boca e deixa escorregar o violino sem uma perturbação. Chama-se Akim Camara e é filho de pai africano e mãe germânica. Esta fusão sanguínea produziu o imperscrutável talento que hoje vos apresento. (Imagem daqui) |
18 de setembro de 2010
Virgílio Castelo e eu
|
Um rapaz da minha criação, de barbas brancas e algum discernimento, estava a falar das coisas que a vida lhe ensinou. Creio ser mais ou menos universal a tendência de ficarmos comparando vidas, projectos, perspectivas, ideologias, vivências… (Imagem daqui) |
| Enquanto me delicio a corrigir testes diagnósticos, espreito a SIC e ouço Virgílio Castelo que concede uma entrevista a Daniel Oliveira (o miúdo). Virgílio Castelo disse várias coisas suas que, inevitavelmente, tive que comparar com as minhas. O actor, de 57 anos, disse que mal viveu e já é quase sexagenário. Eu não vivi e já sou sexagenário. Disse ainda que os seus pais lhe compravam sapatos a prestações. Sorte dele. Eu tinha 13 anos quando tive direito às minhas primeiras chancas, compradas também a prestações, é claro. (Lembro-me de como me senti, de repente, mais alto e mais imponente). Disse ele também que a família é uma coisa que se constrói | até à morte. Mas não falou da competência que é necessário possuir para a construir. Eu não fui capaz. Disse ainda que está a atravessar um período áureo da sua vida porque, aos 57 anos, tem saúde. Eu perdi-a e estou com dificuldade em a reencontrar. O meu período áureo estaria ferrugento, se o ouro enferrujasse. Ele acrescentou que quem tem saúde não precisa de se reformar. Eu não podia estar mais de acordo e, por isso mesmo, corri ao blogue para aqui registar a agradável impressão que um simples actor me deixou hoje… (Não é necessário ler os grandes filósofos para me explicar a vida…) |
15 de setembro de 2010
Ao futuro!
|
Todos evidenciaram os seus presentes sem mácula de tristeza e todos fizeram brilhar os seus olhos vivos perante a perspectiva dos futuros que me descreveram. Serão médicos, advogados, informáticos, juízes, cantores, engenheiros, turistas, preguiçosos, ricos. E os seus futuros estão vincada e indelevelmente traçados por eles. Se alguma coisa não der certo, nunca será culpa sua, tão crédulos e confiantes o desenharam hoje. |
E eu, cujos sonhos são tão módicos, cujos dias tão contados, fui momentaneamente contaminado, de uma contaminação boa e sadia que me fez outro. Grato aos estouvados lenitivos desta formosa juventude! Não me absolveram os futuros juízes, mas mostraram-me que ainda pode haver perdão; não me curaram os futuros médicos, mas deram-me a beber um paliativo doce; não me embalaram os futuros cantores, mas mostraram-me uma linha viva da imortal partitura… (Etc… podem completar vocês o texto agora…) |
(Imagem daqui)
13 de setembro de 2010
uma vida sem chumbos… (2)
| Gregório de Matos, poeta barroco e satírico português, no Brasil colonial (1636-1695), escreveu um pequeno poema sobre a impossibilidade de se viver sem se ser reprovado por alguém.
(Imagem daqui) | Algumas pessoas que leram o post anterior sobre uma escola sem chumbos, aproximaram-se com aquele sorriso mordaz que costumamos colocar quando a situação nos parece de tal modo estranha que nem merece reflexão, por mais volátil que seja. Houve os que desde o início remeteram o texto para a ironia e isso resolveu de vez todos os pruridos. “Aquele Tudo bem! Também não sei se consigo falar do assunto sem me sentir um pouco idiota. Afinal de contas, mesmo que isso possa ser uma solução assaz pertinente, aplaudível e lucrativa, como diabo se processaria, no terreno, tal desiderato? Bem, isso não sei! Mas a escola pública está cheia de indivíduos obcecados por métodos, estratégias e operacionalizações. Alguma saída eles encontrariam para concretizar aquela aspiração, por enquanto só minha e dos alunos (suponho), embora (tepidamente) acarinhada pela tutela. |
10 de setembro de 2010
uma vida sem chumbos…
| A Ministra da Educação propõe uma vida académica sem chumbos. Faz basear a sua proposta em dois pilares fundamentais: 1- o chumbo não traz qualquer benefício ao aluno (e eu acrescento: nem sequer tem grande piada); 2- os chumbos custam ao país 600 milhões de euros por ano. Segundo um artigo da Vida Económica, que chegou à blogosfera via “A Educação do Meu Umbigo”, cinco ditos especialistas são confrontados com aquela proposta da Ministra. Rotundamente disseram NÃO, e outro tanto sugere Paulo Guinote, o autor daquele blogue. Todos referem que, num mundo em que se diviniza tão solenemente a avaliação dos professores (e, enfim, | de outros agentes profissionais) não faz sentido acabar com ela em relação aos alunos. Todos estariam, obviamente, à espera que eu viesse corroborar a opinião dos especialistas entrevistados pela VE. Lamento muito, mas não corroboro. Pelo contrário, subscrevo em absoluto a proposta de Isabel Alçada e sustento que aqueles que não querem ver instituída a transição automática de ano não passam de um friso de indivíduos arrogantes e controladores que estão no mundo apenas para lhe trazer aquela infelicidade de que eles próprios sempre sofreram. Quanto a mim, a escola deve, de facto, alijar essa tremenda responsabilidade que é reter alunos. À escola compete ensinar com eficácia e distinguir os alunos entre si, obviamente, numa escala bem longa (como, por exemplo, de 1 a 100 ou 200) mas nunca ditar uma reprovação, a menos que o aluno ou o seu encarregado de educação a determinem. Obviamente, alguém pode vir a chumbar alunos no futuro, mas que isso seja feito a jusante da escola e nunca sob a sua vigência. (Imagem daqui) |
9 de setembro de 2010
O Burro de Orwell
Deus me livre de estar agora aqui a denegrir a auto-avaliação das escolas, dos professores, dos alunos, dos encarregados de educação, dos funcionários, dos ministros e de toda a fauna nuclear e adjacente à escola pública. Nem por sombras! Tenho a auto-avaliação em elevada estima, e com toda a consideração subscrevo tal método de avaliação, até mesmo porque é o único que se coloca sempre do lado do avaliado. Em verdade vos digo que, por mim, toda a avaliação poderia perfeitamente reduzir-se a este item, com notórias vantagens para todos os intervenientes na vida escolar. (Imagem daqui) | Já o disse aqui e, embora os tempos estejam de feição a que um cristão tenda a mudar de ideias a cada quinze dias, na presente questão declaro manter-me perenemente conforme. Do que não estava à espera é que os iluminados que defendem e proclamam este método avaliativo venham a lume declarar a sua suspeição, e mesmo absoluta rejeição, do método de avaliação dita externa que outros tantos, igualmente iluminados, seguem tão crédula e fanaticamente empenhados como os primeiros. Mostrou-se-me absolutamente óbvio que, quando duas facções se digladiam assim, só pode estar em causa uma questão de sobrevivência. Por mim (e apesar de me tender o coração para o primeiro método avaliativo) deixarei, plácido, que se derrubem mutuamente até que, por fim, ressurja do anonimato o burro de Orwell, zurrando fleumaticamente que “foi um tempo mau que já passou”… É que, de facto, muito melhor que ter-nos Deus dado um rabo para afugentar as moscas será não precisarmos de rabo por não haver moscas. |