19 de agosto de 2010
18 de agosto de 2010
17 de agosto de 2010
Desapaixonadamente, o PRS 600 da Sony
Adquiri recentemente o PRS 600 touch edition da Sony. De todas as referências que li e vi sobre o gadget, nenhuma se mostrou, quanto a mim, verdadeiramente confiável. Umas porque eram óbvias propagandas do produto e outras porque o apresentavam de modo mais ou menos apaixonado, poucas foram as que analisaram o produto de forma rigorosa e desmistificadora. Vou eu tentar fazê-lo agora, visto que já possuo o aparelho há três semanas, tempo suficiente para começar a apreciar nele o que ele é e não o que desejaria que ele fosse.
A primeira conclusão que devo apresentar a todos quantos desejem adquiri-lo é a de que o gadget não é bom nem é mau. Faz, de um modo apenas aceitável, aquilo para que foi criado – ler livros electrónicos.
A primeira mistificação que nos é apresentada pela propaganda refere-se à duração da bateria. Oito mil virares de página, diz o fabricante. É absolutamente falso. Depois de carregada ao máximo (o que de facto se consegue em menos de 4 horas por ligação USB), dispus-me a ler um livro, no caso “Three Men in a Boat”de Jerome K, Jerome, que, no formato Epub e na fonte de tamanho médio (visto que o tamanho por defeito é ilegível na sua pequenez), apresenta 175 páginas. Não usei nenhuma outra função do aparelho, à excepção do virar de página, quer por meio da tecla de avanço, quer por meio do toque no ecrã táctil. Ao longo de 5 dias consegui concluir o livro. Porém, o que sobrou da bateria foi quase nada, a ponto de, uma vez reiniciado, o aparelho requerer de imediato nova carga. Posso, pois esclarecer os eventuais compradores que os 8000 virares de página por carga de bateria é pura mistificação. Uma carga de bateria dá para ler um livro médio e há que ser muito frugal no manuseamento.
Outra mistificação é a chamada tecnologia e-ink ou e-paper. Tratando-se de um écran táctil, o contraste fica seriamente comprometido. Não posso dizer que não seja possível ler, já que podemos aumentar o tamanho da letra, o que corrige parcialmente algumas limitações devidas à falta de contraste. Não é, no entanto, nada do que afirma o fabricante. São apenas letras cinzentas escuras sobre fundo cinzento um pouco mais claro. O Sony 550 possui melhor contraste, visto que não recorre a tecnologia touchscreen, o que o torna certamente mais apetecível neste ponto.
Outra limitação deste gadget é a quantidade de formatos que lê sem problemas, que é muito reduzida. Lê bem o formato BBeB da Sony, o Epub, o Doc, o TXT, o RTF e o PDF. Porém, não lê o HTML, pelo que é necessário proceder à conversão deste formato para Epub, por exemplo, o que leva o seu tempo e atenta contra a paciência dos leitores.
A leitura de imagens é pobre. A ausência de contraste transforma todas as fotos em uma massa desfocada e desinteressante, pelo que não vale a pena tecer expectativas à volta desta função.
Nem tudo é mau. O ecrã não cansa a vista, ao contrário do que acontece com os ecrãs frequentes rectro-iluminados. Se houver boa luminosidade ambiente, pode-se dizer que o ereader cumpre a sua função. Com luz artificial, ainda que incidente, a leitura fica um pouco mais desconfortável. O som é soberbo, embora deite abaixo a bateria em menos de um fósforo. O tópico ouça música enquanto lê perde todo o sentido em face do que se pretende de um ebook reader – levar connosco uma centena ou duas de livros e ficar duas semanas lendo, sem ter que o recarregar. O PRS 600 está ainda a milhas deste desiderato. Tem, de facto, ainda muito trilho a percorrer.
Enfim, o gadget é bonito, quase todos os clássicos estão disponíveis gratuitamente, é possível comprar best-sellers em algumas livrarias. Faz sentido que rapidamente as editoras portuguesas se debrucem a sério sobre o leitor de livros electrónicos e disponibilizem a cultura e a informação a um preço muito mais razoável do que a que se vende em papel tradicional.
16 de agosto de 2010
15 de agosto de 2010
14 de agosto de 2010
13 de agosto de 2010
O professor desmemoriado
Entre os professores menos jovens (um pouquinho menos jovens, enfim, como é o meu caso) a falta de memória é uma situação constrangedora mas ao mesmo tempo contraditória: se, por um lado, ela representa um atentado bem sucedido à nossa competência profissional (um professor sem memória serve para quê?), por outro lado, ela sabe esconder-se criteriosamente sob o manto diáfano da fantasia que ainda dita que o professor sabe sempre tudo (valha-nos Deus) e que todas as suas limitações aparentes não passam do seu proverbial bluff educacional.
Ser professor de línguas é, notoriamente, uma profissão crítica nesta matéria da desmemorização, como se sabe. Quando um falante esquece um vocábulo, sobretudo no plano do léxico activo, isso compromete em parte (ou no todo, Santo Deus), a eficácia do discurso. Ah, mas tenhamos calma: no meio do discurso, nos momentos cada vez mais frequentes em que a memória nos falha, podemos sempre pedir auxílio aos alunos, implorando-lhes a palavra que falta ou o redireccionamento do discurso em que nos perdemos. Eles vão continuar a achar que estamos a desempenhar o tradicional papel (de pedagogia duvidosa, sabe Deus) do professor que faz perguntas para os avaliar e não pela simples e cruel razão de se ter esquecido da matéria…
Daí a contradição: no professor, a desmemorização tanto se manifesta de modo fulgurante como se esconde de modo providencial.
(Imagem daqui)
