. combater a crise (07 07)
. teodisseia de betesga (10 07)
. as coisas são como são (12 07)
. Claudino Mendes (17 07)
. gebo dois (29 07)
. combater a crise (07 07)
. teodisseia de betesga (10 07)
. as coisas são como são (12 07)
. Claudino Mendes (17 07)
. gebo dois (29 07)
Isabel Baptista enviou-me este documento que considero interessante:
“Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.
Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família. Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.
Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.
E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.”
(Pedro Afonso, médico psiquiatra, no Público, 2010-06-21)
(Imagem daqui)
Acompanho a sua carreira desde 68, quando interpretou na RTP uma espécie de telenovela, Gente Nova, onde já se vislumbrava o grande talento que cresceria sem medida até O Filme da Treta, uma das obras mais representativas da cinematografia nacional. António Feio morreu hoje. Ficamos mais sós…
(Imagem daqui)
Lembram-se do boneco do filósofo matarruano de Ricardo Pereira, o que chegava a ter dois pensamentos por mês? Pois o labrego que ora vos fala é filósofo muito maior que aquele. Só hoje, imaginem, só hoje e em menos de duas horas, tive dois pensamentos dois e uma pergunta existencial. Começo pela pergunta existencial: Quem disse que há alguém responsável pela Praia de Mira? Agora os pensamentos: 1º pensamento - Faltam-me dois meses para ser sexy genário. O aspecto vai coincidindo. Mas descobri que não é a careca ou a barriga que denuncia tão ferozmente a nossa idade. É o pescoço. Veste uma camisola de gola alta e tens logo menos 20 ou 30 anos. Vivam as camisolas de gola alta; 2º pensamento - Cinco euros podem comprar cinco segundos de exultação, uma espreitadela furtiva do paraíso pela frincha da porta que alguém esqueceu entreaberta. Fui almoçar na praia e paguei a conta de 15 euros com uma nota de 20. Como o vinho tinha sido bom e a garota que me atendeu foi prestativa e atenciosa, deixei-lhe os cinco euros de gorjeta. “Muito obrigada. O senhor é muito simpático. Tive muito prazer em o servir. Volte sempre.” – disse ela. Setenta caracteres de felicidade suprema -digo eu…
(Imagem daqui)
A imagem que guardo dele é a do professor competente e do advogado sério. Foi também um estudioso multifacetado e um homem invulgarmente culto. Foi, durante anos, a animação inteligente das salas de professores que tiveram a sorte de o acolher. Palavra fácil, raciocínio veemente e certeiro. Antunes de Almeida morreu hoje. Sentidos pêsames à viúva e a todos os seus muitos e grandes amigos.
(Imagem daqui)
… disse hoje o nosso Presidente. É por essas e por outras que eu nunca poderia ser presidente da república. E sabem sobre que é que ele vai reflectir? Vai reflectir no sentido de decidir se se vai ou não recandidatar à Presidência. Admitindo que tal decisão é, de facto, uma decisão grave e difícil, não me custa imaginar que Sua Exª passe todos os vinte e três dias úteis das suas férias a pensar, a reflectir. E este mar? E Este céu? E estes 30 graus? O que se faz quando a natureza nos brinda com estes milagres? Reflecte-se sobre ser ou não ser Presidente?! Ah não!
E tem mais, coitado! Suponhamos que ele decida recandidatar-se! E, pior ainda: suponhamos que ele volta a ganhar as eleições, coitado! Já que ele acha que o Verão é tempo de reflexão, sendo assim um Presidente tão reflexivo, vai perder, inapelavelmente, mais quatro ou cinco Verões de sol, finos, praia, mergulhos e bikínis. Coitado!
(Imagem daqui)
Rendo-me ao ebook reader. Definitivamente e por todas as razões. Desejo que desde já os editores e todos os actores culturais se voltem para o gadget e comecem a produzir, em primeiro lugar e completamente grátis, toda a literatura portuguesa do domínio público. Em seguida desejo que, sempre que se editar um livro em papel, que se edite também (no formato pdf, ou epub ou doc, ou txt, ou qualquer outro formato universalmente compatível) o mesmo livro para ebook reader, a metade do preço da obra em papel. Desejo que não haja complicações no download de nenhum formato e que a aquisição seja rápida e intuitiva. Desejo ainda que, rapidamente, o e-reader evolua no plano do grafismo (de modo a não borrar as fotografias), permita a leitura de formatos de música e não custe mais de 100 euros por unidade. E quero isto tudo para estas férias. Pode ser?
Apesar da onda de avassaladora cretinice, de estupidez insana, que submergiu a escola pública até ao esterco abissal que hoje é, muitos professores continuam a lutar, denodadamente, pela verdadeira qualidade do ensino. Bem os vi. E como estão eles a lutar? Muito simplesmente: ensinando. Ou alguém algum dia imaginou que seria suposto que um professor lutasse de maneira diferente?
Vi-os e ouvi-os. Estavam lá, nos seus postos obscuros, low profile de todo, tentando fazer-se ouvir por cima da buliçosa agitação de alunos cada vez mais boçais. Estavam lá, maltratando as suas vozes e gargantas, alguns tiritando de febre e cambaleando de cansaço, amparando-se, doentes, no quadro, para cumprirem de pé a sua função, o seu sonho, a sua ambição. Estavam lá, inteirando-se, tanto quanto lhes é permitido, das dificuldades dos seus alunos. Lá estavam, nas aulas, nos apoios pedagógicos, nos intervalos, no correio electrónico, nos blogs de apoio, tentando penosamente cumprir o seu dever de elevar os jovens a um plano superior de dignidade.
(Outros, porém, nem tanto. Mestres na arte da dissimulação, que aprenderam depressa com os seus donos, organizam dossiers de evidências para ficarem bem na fotografia final da avaliação para poderem aumentar os salários, diminuindo os horizontes. São os pobres filistinos do sistema, miseráveis anedotas de um equívoco chamado educação.)
(Há três anos, neste mesmo blogue)
Claudino Mendes, antigo combatente da primeira guerra, vivia, nos alvores dos anos sessenta, num pardieiro em ruínas que fora em tempos cortelha de galinhas, nos limites da povoação chamada do Cabeço. Conheci-o. Tanto quanto mo permite agora a memória das coisas que se guardam na infância, assemelhava-se a um daqueles profetas do Antigo Testamento que povoavam a minha Bíblia das Escolas – longas barbelas hirsutas, gabão de surrubeco corroído, olhava-nos garboso do alto dos seus quase dois metros e dos pergaminhos ilustres do posto de cabo de infantaria que honrou na Flandres. Claudino Mendes era o tolinho do Cabeço. Intrigados com tal personagem, costumávamos espiá-lo dentro do seu galinheiro, aconchegado no gabão, pés de fora do cancelo aproveitando os ténues raios de sol das tardes de inverno.
Maria das Dores surgiu, afogueada, do quintal vizinho, transportando na mão um grande saco de abrunhos amarelos.
- Oh Ti Claudino, arranje-me aí um pratinho que eu deixo-lhe uns poucos destes abrunhos.
Claudino Mendes olhou para dentro do barraco e chamou:
- Copeiro, traz uma salva da cristaleira para guardar os abrunhos da Senhora Maria das Dores!
(Imagem daqui)