16 de julho de 2010

Gramaticarei-lho…

gramatica A fim de fazer face à presente crise, resolvi vender um velho cordão de ouro que minha mãe me deixou. Providencialmente, surgiu hoje na televisão um anúncio em que um sujeito, com uma cara de parvo simpática, anuncia que avalia e compra velhas peças de ouro. Apurei a orelha, mas logo desisti. Nunca faria negócio com um tipo que diz “enviaremos-lhe”.

(Imagem daqui)

12 de julho de 2010

“as coisas são como são”

Neoliberalismo 2 (1) A propósito disto, lembrei-me de que há gente demais a querer demolir o Estado. No dizer de Pacheco Pereira e de muitos outros (mais do que seria desejável) afáveis empreendedores neoliberalengos, o Estado acabará por sucumbir redondo aos pés do mercado, do dinheiro, do poder económico, do laissez passer, da comandita financista.

Há muito que desconfiávamos disto, mas agora é um ex-comunista inteligente e neo-pensativo que o diz, preto no branco. E ainda que não pudéssemos usufruir da desusada clarividência de JPP, não teríamos mais razão para duvidar, visto que se aproxima, em sobrecasaca alaranjada, a governação neoliberal por excelência, que será pelo menos tão incompetente como a que agora temos.

Providencialmente, a questão da venalidade e da aquisitividade sem limites só se colocou, até agora, em relação à PT, ou seja, a companhia dos telefones, sem a qual todos poderemos continuar a viver sem grande prejuízo para a Pátria, para a barriga ou para a barriga da Pátria. Mas a ânsia capitalista não conhece fronteiras temporais, espaciais ou éticas. Depois das comunicações, os capitalistas endinheirados comprarão a electricidade, a escola, a água, a justiça, o ar que respiramos, o amor que damos de borla e a sombra que nos refresca.

E, envergonhada de um dia ter existido, já não haverá golden share que se lhes oponha.

(Imagem daqui)

10 de julho de 2010

Teodiceia de betesga

deus Deus, quando criou o Homem, não lhe devotou cuidados especiais em relação aos que teve com as restantes bestas. Muito pelo contrário. Desde logo deu ao homem uma vida que pouco ultrapassava em anos a de um burro ou um macaco. Em matéria de longevidade, Deus foi mais generoso com as baleias (os cetáceos, e não as nossas insuportáveis amantíssimas esposas), às quais (as do mar) atribuiu uma vida incomparavelmente mais longa e menos estúpida burocrática. Foi devido à sua mania das grandezas, e ao seu poder reivindicativo, que o homem conseguiu, ao fim de uma interminável luta sindical, ter direito a uma vidita um pouco mais longa - 70 anos para ele e um pouco mais para a baleia lá de casa.

Não foi, no entanto, só na questão da longevidade que Deus falhou. Os órgãos! Os órgãos do homem são todos um escândalo, completamente destituídos de compatibilidade com as necessidades da sua vida. O fígado dói às segundas-feiras, a cabeça dói no fim do mês, as pernas doem no fim do dia, o cotovelo dói quando o nosso colega foi promovido e nós não fomos. E o sangue? Que raio de mistura idiota estranha pôs Ele a correr nas nossas veias? Poderia ter colocado cerveja ou vinho ou outro líquido mais consentâneo com o que costumamos beber. Mas não. Encheu-nos as veias de sumo de vampiro, pois só vampiro é que gosta de tal mixórdia fluido. O único ser humano que Ele fez que tinha vinho nas veias foi Cristo. Claro, mas esse aí é Divino, Santo, Eterno, e está sentadinho à Sua direita - uma honrosa mas injustíssima excepção. Não se faz!

(Imagem daqui)

9 de julho de 2010

obsessões do meu ipod (16)

1969. Chico estava quase no início da sua carreira. Criou Essa Moça Tá Diferente três anos depois d’A Banda que o catapultou definitivamente para o reconhecimento mundial. Estava então com 25 anos, prestes a exilar-se em Itália, por não simpatizar com a ditadura militar. Essa Moça Tá Diferente é uma das primeiras canções do Chico em que se mistura já a intensa crítica social com a mais conseguida  componente lírica, tudo servido por uma estrutura linguística, poética e rítmica, de inegável riqueza.

(Desligue o rádio do blogue e veja e ouça com atenção.)

Essa moça tá diferente
Já não me conhece mais
Está pra lá de pra frente
Está me passando pra trás
Essa moça tá decidida
A se supermodernizar
Ela só samba escondida
Que é pra ninguém reparar
Eu cultivo rosas e rimas
Achando que é muito bom
Ela me olha de cima
E vai desinventar o som
Faço-lhe um concerto de flauta
E não lhe desperto emoção
Ela quer ver o astronauta
Descer na televisão
Mas o tempo vai

Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que é que tem
Que ela só me guarda despeito
Que ela só me guarda desdém
Mas o tempo vai
Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que é que tem
Se do lado esquerdo do peito
No fundo, ela ainda me quer bem

Essa moça é a tal da janela
Que eu me cansei de cantar
E agora está só na dela
Botando só pra quebrar

8 de julho de 2010

rufen Sie uns an

Mozart, Victorino de Almeida, Otelo, Herman e Maria de Medeiros, talentos que chamam Toy (António Manuel Neves Ferrão) para a sua (deles) companhia. Desconhecia em Toy este talento. E vocês?

Curso de iniciação ao Latim

latim Gaudete in Domino  -  O Gaudêncio está no dominó.

Te deum laudamus  -  Te dei uma lambada

Gaudium et Spes  -  O Gaudêncio no Spa

Pules ad Margaritam  -  Salta para cima da Margarida

Fedro -  O Frederico

Esopo -  O ensopado

La Fontaine -  A Maria da Fonte

Agnus dei qui tollis peccata mundi -  Eu dei-te um anho porque és o tolo mais pacato do mundo.

Miserere nobis -  A Novis está uma miséria.

Habemus papam -  Chegou o padeiro

(Imagem daqui)

info-logoEsclarecimento     “O ciganito Franjoko”, que recentemente publiquei aqui, suscitou um pedido de esclarecimento chegado via email. Segue o dito deste modo: A imagem que ilustra o pequeno texto não estabelece nenhuma relação com o ciganito Franjoko (personagem inventada) nem com o teor do texto em questão. Personagem, texto e imagem não estabelecem, pois,  nenhuma relação entre si nem possuem qualquer consistência factual. Fica o esclarecimento.

O homem sintético é filho da nossa crise

hegel Da situação crítica que vivemos hoje sairá um homem novo. Tão novo, mas tão novo que até dá raiva. Esse homem não terá mais de trinta anos, trinta dólares, trinta opiniões, trinta donos, e será, naturalmente, um desempregado a viver a expensas dos pais, também desempregados.

Esse homem estuda. Estuda sempre. Estuda pra burro e sabe pra c_ _ _ _ _ o.  Mas nunca fez nada e nunca vai fazer nada: não mete água, nem medo, nem o dedo na ferida, nem o nariz onde não é chamado, nem os pés pelas mãos. Só dó.

Das crises e convulsões do passado saiu sempre um homem novo – o antitético. Desta crise sairá, finalmente, o homem sintético, o homem decadentemente jovem, alegremente triste, ricamente pobre, ignaramente culto, cobardemente destemido, arrogantemente humilde, honradamente canalha. O homem novo, danado de sintético, cheio da síntese hegeliana e de nove horas, estuda pra burro e sabe pra c_ _ _ _ _ o.

E é novo como a merda. Sintético que mete nojo…

(Imagem daqui)

7 de julho de 2010

combater a crise…

700-377968 Estão-me a dizer que não vislumbram outra solução. Vamos todos, definitivamente, ter que cortar a televisão, o telefone, a Internet (juntamente com o facebook e o farmville e as correntes de solidariedade e aquelas incontornavelmente ubíquas apresentações de powerpoint cheias de decrépitas fábulas moralizantes). Vamos ter que viver sem o 3D (e o 4D e o 5D, que já devem estar na forja). Vamos vender os telemóveis e os ipads e os pdas e pdes e pdis e restante fauna cibernética. Vamos afastar-nos decididamente do automóvel que nunca mais conseguimos pagar e dentro do qual teimamos permanecer. Vamos pregar o calote nas companhias de gás, água e electricidade, dizer adeus ao duche diário e aos motores que regam o nosso jardim, dispensar a cozinha e passar a comer figos e erva crua. Vamos fechar as nossas depauperadas mas persistentes contas bancárias e despedir por justa causa os nossos imprestáveis e obsoletos gestores de conta. Vamos recuperar os nossos sapatos do casamento, os fatinhos da comunhão e as gravatas dos nossos divórcios. Vamos vestir de novo a velha roupa que tínhamos empilhado para seguir para Angola. Vamos ficar surdos à importação, cegos às novidades e mudos à situação politico-económica. Vamos fechar a porta a todos os cobradores e abrir a janela ao ar puro, produto raro mas insuspeitamente grátis.

(Combater a crise! Que delícia! Que libertação! Que felicidade!)

(Imagem daqui)

5 de julho de 2010

coisas giras por email

Ana Drago fala sobre o novo ECD. Ministra B, o lado B da ministra A. Vira o disco…

2 de julho de 2010

o profeta da imortalidade

aubrey de gray Aubrey de Grey, o cientista inglês que profetiza a imortalidade do ser humano já daqui a 25 anos, dirige a fundação Matusalém e assegura que as crianças que nascerem hoje já poderão recauchutar as suas células (à medida que se forem estragando com a idade) de uma forma tão eficaz que poderão facilmente viver mil anos, pelo menos.

Claro que lamento ter nascido tão cedo. Já não verei a aurora desse novo e encantado mundo. Garanto que fiz de tudo para adiar o acto de nascer. Sempre me disseram que demorei mais uns dias lá dentro, para além do tempo normal de gestação. E em relação à morte, tento fazer o mesmo.

Não usufruirei da imortalidade que Aubrey preconiza e terei que engolir esta raiva muda pela flagrante injustiça vertical que a situação representa.

Para aplacar esta raiva impotente, resta-me imaginar que Aubrey não passa de um louco visionário e que a morte não está nem aí para o que ele diz. (A avaliar pelo seu aspecto bizarro, acredito que não esteja muito longe disso…)

(Imagem daqui)