17 de abril de 2010

Herman - o que o povo tem e não merece ter

HERMAN_JOSE Não consigo conceber esta zanga dos Portugueses com Herman, ou de Herman com os Portugueses. Admito que Herman José esteja de mal com os Portugueses, depois do modo como foi vilipendiada a Hora H”, a sua última produção televisiva. Não aceito, no entanto, que tenha sido o povo a enxotá-lo.

O Humor é, como a Política, um assunto muito sério. É tão necessário a um povo como uma liderança sólida e competente. O Humor é mais imprescindível que a Educação. Ele é, quando excelente, a própria educação de um povo. Se os nossos políticos não merecem o povo que têm, no caso do Humor a coisa funciona ao contrário: o nosso povo não soube merecer o humorista que tem – Herman José.

O primeiro programa de Herman, O Tal Canal, foi saudado pelo povo como algo inovador e absolutamente radical. E foi-o, de facto. Mas foi também um programinha primário, até medíocre, se o compararmos com as produções posteriores do humorista. Porém, à medida que Herman evoluía realmente (Herman Enciclopédia, O Casino Royal, O Humor de Perdição e, sobretudo, Hora H) o povo ia-se desligando, acabando por desistir de Herman, detestando-o até um pouco, sem articular um esforço para aprender e evoluir com ele. Enquanto Herman fez um humor directo, básico, elementar, o povo adorou-o. Quando Herman voou para um humor realmente fascinante, o povo chutou-o por imprestável.

É por isso que considero que a longa ausência de Herman junto dos Portugueses só é compreensível se tiver sido o próprio Herman a ditá-la. Já é um pouco mais triste considerar que o povo português não tenha evoluído a ponto de reclamar uma nova e urgente presença do maior humorista português de todos os tempos.

(Não quero nem pensar que possa haver outras razões que tenham eventualmente ditado o afastamento de Herman José das casas dos Portugueses)

(Imagem daqui)

16 de abril de 2010

finalmente, alguém reconheceu a importância das reuniões

REUNIAO Os gestores executivos ganham 7400 euros por cada reunião. Já conhecia as histórias sobre salários, sobre prémios e outras inconcebíveis alcavalas, mas só hoje fiquei a saber de mais esta, que me apetece repetir: os gestores executivos recebem 7400 euros por reunião. Obviamente, estas reuniões devem ser extraordinariamente importantes, muito diferentes de uma reunião de grupo ou de departamento no ensino médio que não servem absolutamente para nada. Não, estas reuniões dos gestores executivos terminam sempre com decisões relevantemente úteis no sentido de completar o progressivo esmifranço das classes mais desfavorecidas. É, certamente, nestas reuniões que se decide sobre o modo como extorquir mais dinheiro às classes honestamente laboriosas e como empurrar para a bancarrota este país de cândidos labregos.

Os gestores executivos ganham 7400 euros por cada reunião a que assistem. Acho muito bem, ora. (E nem sequer fazem a acta…)

(Imagem daqui)

14 de abril de 2010

obsessões do meu ipod (12)

O Grande Circo Místico é uma das mais belas e representativas obras-primas de Chico Buarque d’Holanda, neste caso em parceria com Edu Lobo. Beatriz é a trapezista por quem um jovem estudante de medicina se apaixona de um modo irreversível… Canta Milton Nascimento.

10 de abril de 2010

obsessões do meu ipod (11)

Costumo resistir a incorporar nesta rubrica videos do YouTube por considerar que a qualidade de som deixa muito a desejar. Desta vez, no entanto, não resisti ao encanto de Maria Rita Mariano e resolvi sacrificar a qualidade de som ao charme irresistível que se desprende, tão natural, desta mulher.

Maria Rita Mariano. Conversa de Botequim. De Noel Rosa e Vadico.

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do fute..bol

Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão
Uma caneta, um tinteiro,
Um envelope e um cartão,
Não se esqueça de me dar palitos
E um cigarro pra espantar mosquitos
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste umas revistas,
Um isqueiro e um cinzeiro

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa...

Telefone ao menos uma vez
Para três quatro quatro três três três
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório
Seu garçom me empresta algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro,
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure esta despesa
No cabide ali em frente
Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do fute..bol

a palavra dos outros

hoje ha con Tomás Vasques, do “Hoje Há Conquilhas…” vai estar amanhã, domingo, na TVI 24, na edição das 7. Junto com outros bloggers de primeira linha, vai abordar o Congresso do PSD.

(Imagem do blogue)

vencer a crise

carteira Há 15 anos que não sou promovido. Primeiro, achei que tinha sido objecto de esquecimento. Depois, e de acordo com o Princípio de Peter, verifiquei que, de facto, tinha atingido o meu nível de incompetência.

Há, no entanto, outros como eu. E, curiosamente, considero esses bastante competentes no seu trabalho. Deve, no entanto, haver algum quid pro quo que lhes impede a progressão, como um cadáver no armário ou um escândalo sexual na adolescência, sei lá… A perplexidade do comparativo do eu com os outros é mais perplexa do que eu, quando me perplexizo. Na verdade, nunca soubemos por que razão os outros são piores ou melhores do que nós. Agora não sabemos também por que razões alguns são iguais a nós…

Já que a receita se manterá inalterável sine die, a solução da minha crise vai ter que se fazer do lado da despesa. Assim, já cortei quase tudo, excepto a água, o gás, a electricidade e a net. Mas também está por dias. Para começar, deixei de pagar o telefone. Toca todos os dias. Uma voz simpática de mulher aconselha-me a pagar a factura atrasada. Desligo. Não tenho grande respeito por vozes de máquinas.

Um dia desses vou ter que perguntar aos meus amigos perenemente despromovidos como fazem eles para chegar airosamente ao fim do mês.

(É que, comigo, chegar airosamente ao fim do mês é uma interrupção meteórica na minha ordinária pelintrice que não augura nada de bom…)

(Imagem daqui)

7 de abril de 2010

A minha geração apanhou sempre…

palmatoria A minha geração, e sobretudo aquele grupo dela que se encaminhou para a docência, apanhou sempre. (Lawrence Ferlinghetti, Allen Ginsberg e Gregory Corso chamaram à sua a geração batida – a beat generation. Eu chamo à minha a mesmíssima coisa, só que, no caso da minha, o epíteto é absolutamente real, palmatórico, canuloide, vergastífero).  A minha geração, sobretudo a tal que rumou ao professorado, começou por apanhar dos professores e acabou apanhando dos alunos. Nem mais: a minha geração, sobretudo a que optou pelo sacerdócio da formação de jovens, acabou por apanhar destes tanto quanto apanhou um dia dos seus formadores.

Bom, eu acredito que muitos de nós, os que apanharam forte e feio dos seus mestres, foram para o ensino na expectativa de se vingarem um pouco do que tinham sofrido e poderem repor um dia o equilíbrio histórico, fazendo o gostinho ao dedo, desancando, por sua vez, as novas gerações. Mas mudou-se o bico ao prego e quem voltou de novo a apanhar foram os que já tinham experiência bastante disso…

Acredito ainda que estes professores (experientes em apanhar reguadas na sua infância e pré-adolescência) acalentem ainda o sonho arredio de um dia poderem bater em alguém: ministros, secretários de estado, dirigentes sindicais, deputados, encarregados de educação e alunos. Este parece ser, lá no fundo, um dos desejos inóspitos dos actuais professores com mais de sessenta anos. Ah, mas ficarão pelo desejo. E levarão para penates esse desejo lúcido mas inconsequente.

(Imagem daqui)

31 de março de 2010

Esperar por D. Sebastião

bagão félix A trilogia Nuno Crato, Bagão Félix, Medina Carreira agasta-me. Quando os ouço caio em mim e fico de repente a sentir o verdadeiro país que me envolve. Desgasta-me saber tudo o que não se faz e devia fazer e tudo o que se faz sem a mínima utilidade. Medina e Félix dão-nos um país em queda livre, uma queda sem retorno e sem esperança. Nuno Crato mostra-nos um ensino pobre, mesquinho, subterfugiado, quase devasso. Nenhum dos três apresenta soluções para além dasmedina-carreira conhecidas, mas dão-nos os três a imagem verdadeira da tragicomédia que nos avassala. Perante o fiscalista e o financista, fica-se com a sensação dominante de que a solução económica não se encontra mais dentro do sistema. Diante da univocidade das medidas propostas (que se quedam por mais trabalho, mais exportações, menores salários, menores reformas, menos apoio social), nada mais parece fazer sentido a não ser alguma reviravolta inovadora, inesperada, NunoCrato audaciosa, marginal. Quanto a Crato, oitenta por cento dos professores com quem privo parecem concordar com ele em género e número. Eu também. Mas não sei se todos temos consciência de quão difícil e desconfortável poderia ser para nós o ensino que ele apregoa. E, sobretudo, se ainda existe no sistema educativo alguém capaz de materializar o ensino de Crato, do modo rigoroso e sério como ele o concebe…

(“Tão mais fácil esperar por D. Sebastião, quer venha ou não”)

(Imagens daqui, daqui e daqui)

24 de março de 2010

ouvido aqui e ali

ouvido- O que é que o colega fez na aula de substituição?

- O mesmo de sempre. Pus as mãos na cabeça.

21 de março de 2010

obsessões do meu ipod (10)

Ant_Silva 2

Isto abre-se, liga-se à parede, e é uma torneira a deitar música, você vai ver…

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Benny Goodman1 Benjamin David Goodman (1909-1986) foi clarinetista exímio e ficou conhecido como o Rei do Swing, tendo editado mais de 40 discos, entre originais e colectâneas. Aqui, Let’s Dance, composta ainda nos anos 30, é um hino aos tempos das big brass bands. Desligue o radio do blog e ouça esta pequena pérola.

 

 

oldradio002

 

 

(Imagens daqui e daqui)

19 de março de 2010

o poder autárquico que temos… (1)

poder local Almocei hoje com um daqueles economistas que andam de autarquia em autarquia a ensinar estratégias de gestão dos dinheiros públicos. Contou-me que o trabalho não falta. As autarquias estão mesmo a nadar em dívidas, a maior parte vive da pura expectativa do dinheiro que, se tudo correr bem, há-de chegar um dia e não de dinheiro real ou existente. E o homem anda por aí, como um bom samaritano, cobrando balúrdios à hora, (que estes tipos são samaritanos mas não são de Calcutá), ensinando as autarquias a governarem a casa, pois que, pelos vistos, os eleitos do povo esqueceram completamente como acertar uma conta de somar.

Deixo uma sugestão aos autarcas que esbanjam o dinheiro do povo em comezainas e querem botar figura, erguendo fontanários e esmifrando o contribuinte para arranjar uma estradeca ou enterrar uns canos de esgoto: leiam com atenção o livro único da segunda classe, edição de 1958, na secção de aritmética. É bom que aprendam a fazer subtracções com números positivos. Não devem subtrair 10 a 5. Se o fizerem, terão depois que pagar indecorosos montantes a um tipo que fez a segunda classe bem feita, como é o senhor economista com quem almocei hoje…

(Imagem daqui)