5 de março de 2010

o epitáfio mais desejado

epitafioOs professores do Secundário estão a ficar velhos, velhos demais para se lembrarem de todas as tarefas que ainda se supõe que façam nesta idade. Alguns já não conseguem sequer decorar os seus horários, os seus planos de aula, entrando em pânico se, por alguma razão, os perdem momentaneamente de vista. O controlo dos tempos de aula passou, de repente, a ser um problema monumental. O seu discurso flutua repetitivo, cada vez mais insípido, e o discurso dos alunos parece-lhes sempre vago, desenraizado, frouxo. O humor dos alunos, por insuportavelmente básico, nunca vem ao seu encontro e o seu próprio humor, por demasiadamente refinado, raramente os conquista. Um hiato comunicacional vai-se estabelecendo entre as gerações, cada vez mais distantes, cada vez mais estremadas…

Nestas condições, os últimos anos de docência de um professor do Secundário podem desaguar num íntimo desconforto, numa espécie de mutilação identitária. Os alunos, por seu turno, têm um projecto de vida ainda novato à sua frente, um sonho ainda imberbe, inconsistente, e não se revêem, por isso, nos professores velhos que esvaecem pardos, entre o dever e a lassidão.

Poucos docentes sabem enfrentar isto com atitudes indómitas e insuspeitamente afirmativas. Poucos sorvem a dose diária da loucura que os revigora. Poucos reaprendem a rir e a contemporizar. Poucos arrancam da boca a flor do cardo, poucos sabem saltar fora do esquife que se anuncia…

(Contudo, serão estes poucos que encontrarão uma réstia de ternura no olhar dos seus alunos. Serão estes que merecerão deles o mais desejado epitáfio: “Era um ganda maluco”.)

(Imagem daqui)

3 de março de 2010

a palavra dos outros

julio dantas Apreciem aqui, no “Estúdio Raposa”, um excerto de “A Seia dos Cardeais” de Júlio Dantas (em audiobook) . A razão por que chamo a vossa atenção prende-se, sobretudo, com a excelente qualidade do audio. Apreciem, sobretudo, a perfeita estereofonia, conceito hoje um pouco abandonado. Creio que o link acima conduzirá directamente ao referido post. Se não, procurem em audiobooks.

alteridades

vida Queria ter sido Aristóteles, visita da casa de meu pai. Quereria ter sido a casa de meu pai. E Arquimedes e Santo Agostinho. E Bachelard e Proudhon. E Bruno e Brentano. A folha de papel pardo de Pitágoras. A marmita de Papin, o pátio das cantigas, a Vénus de Milo. Quem me dera ter sido o fogareiro de Feuerbach, o pénis de Epicuro. Queria ter vivido como Dante, morrido como Cervantes, escrito como Breton. Um murmúrio de Shakespeare, um poema de Blake. Quereria ter sido o lado lunar de Margarida Gautier. Um fidalgo da casa mourisca, o moinho de Daudet. Queria ser tudo o que não fui. E sendo qualquer outra coisa, quereria ter consciência e sonho para me conhecer a mim. Tal como sou. E conhecer a razão esquiva de não me ter querido ser…

(Imagem daqui)

1 de março de 2010

redassão…redação…redacção…redacssão (ufff)

writing-letter1 Afinal, os culpados são os ambientalistas

Os homens verdes já andavam a ameaçar há dois anos, como se pode provar por este video. um dia vocês vão ver o que vos acontece. a enxurrada vem por aí abaixo, cheia de lama e de pedras e é um vê se te avias… ai andaram a construir casotas no leito das ribeiras? quando chover um pouco mais (e aqui chove se deus a dá), isto é tudo a descer, eu nem sei onde isto vai parar. se bem o disseram, melhor o fizeram. com um vídeo desses, ninguém vai mais duvidar de que a tragédia tem o dedo dos ambientalistas. ah pois tem. o alberto jardim, esse, acha que o melhor é encanar as ribeiras. se as ribeiras não estivessem canalizadas, aí sim, aí é que vocês haviam de ver. vá lá, vá lá, do mal o menos que nem foi preciso declarar o estado de calamidade. seria completamente redundante. calamitoso já é o Estado, mesmo antes da calamidade.  certo, desculpem, não fica nada bem estar a atribuir culpas agora. Por isso é que sócrates andou bem, acho que andou bem bem bem. mesmo bem. como nunca tinha andado antes. mostrou dignidade. calou-se e disse só que ia dar a mão à madeira, nesta hora apertada… há males que vêm para bem. temos uma tragédia na madeira, morrem pessoas, destrói-se todo o património, mas salvam-se as relações institucionais. e isso é bonito. é ver o joão jardim todo pimpão, armado em civilizado, que nunca tinha visto o homem tão metro… aposto que pôs perfume para falar no programa daquelas miúdas que só sabem fazer solidariedades na televisão… ai como se chamam… aquilo é solidariedadade por tudo e por nada. tens um puto que perdeu o telemóvel? vai ao programa e recebes dois ou três. não consegues pagar a renda da casa? vai ao programa e eles compram-te uma casa nova. o povo português e as raparigas solidárias da televisão (ai como é mesmo o caraças do nome delas?) são demais, de mais, são mesmo demais. de mais, demais. eu até queria também telefonar, mas estava impedido, tal a quantidade de gente a debitar cêntimos para a madeira, pelo telefone. atenção, eu acho que não é demais. tínhamos que fazer outro programa e talvez outro e outro. o povo gosta mesmo é de dar, doar, entregar cobertores, bolachas, atuns. e de telefonar para ouvir a voz das miúdas da solidariedade (como é que elas se chamam, catano?) a dizer muito obrigada. até se rebentam as lágrimas. mas agora há que prender os tipos que ameaçaram destruir a madeira, os tais tipos verdes, os ambientalistas deste vídeo. olha-me só para isto, deus nos acuda…

Guidinho

28 de fevereiro de 2010

prateleira anacrónica

livro da segunda classeNo acampamento”

“A noite, muito suave e cheia de luar, passou-se no acampamento; e os rapazes da Mocidade nem queriam acreditar que estavam em Lisboa, porque o ar puro e fresco daquela manhã de Maio tinha o perfume das flores do campo.

Os lusitos, os infantes e os vanguardistas, vindos de todas s províncias, dormiam e sonhavam ainda, quando um toque vibrante de clarim os despertou: Tatá… Tatatá!…

- Eh! rapazes! – gritaram os comandantes de castelo.- É o toque de alvorada. Levantar! Levantar!

O sol não tardou a erguer-se também para tornar mais lindo aquele dia 28 de Maio – dia de festa da Mocidade Portuguesa.

Todos se aprontam. Das tendas de lona do acampamento saem centenas e centenas de rapazes, desembaraçados e alegres, para assistirem à missa campal.

Batem as dez horas. Vai ser saudada a Bandeira. Todos os castelos estão formados em quadrado. Ao centro vêem-se os guiões azuis e amarelos e as bandeiras brancas e vermelhas. Toca a sentido. Logo a seguir, ouve-se o toque de continência. Os rapazes, direitos e firmes como estátuas, estendem o braço.

Está a ser içada a bandeira nacional.”

(In O LIvro da Segunda Classe – Ed. 1958)

A minha geração tinha sete anos quando leu e interiorizou isto para sempre.

(Imagem daqui)

Nota: Santa Nostalgia é um blogue que, seja qual for a sua orientação política, tem o mérito de nos restituir um tempo que passou.

chave inglesaRevisão

Foram hoje corrigidos todos os erros gralhas e incorrecções cometidos ao longo do mês de Fevereiro.

obsessões do meu ipod (7)

india

J. A. Flores / M. O. Guerreiros / José Fortuna

Índia” - Gal Costa

A beleza da simplicidade.

As duas vozes de Gal.

(Imagem daqui)

27 de fevereiro de 2010

Haiti, Madeira, Chile…

ira Que dívida é esta, Mãe Natureza, que nos estás cobrando? Será porque te temos tratado tão mal? És então antropomórfica? Tens uma consciência? Iras? Amuos? Vinganças?

Não te imaginei tão mesquinha. És, na verdade, igual a mim.

 

(Imagem daqui)

24 de fevereiro de 2010

Solidariedade sim, mas nem tanto…

reforma Em meu entender, a solidariedade, como a amizade e o amor, deve ter sempre um caminho de volta. Damos solidariedade hoje para a recebermos amanhã. Eu sei que a verdadeira solidariedade é dar sem esperar receber. Mas esta é a solidariedade dos cristãos, dos mártires e dos otários.

As nossas reformas estão cada vez mais longe. Correm mais que nós. Hoje atingi a idade da reforma de há dez anos atrás. Mas ela fugiu-me hoje para 2017. Se chegar a 2017, ela terá chispado para 2025. Entretanto, continuarei a trabalhar e a descontar para a segurança social. Peraí! Segurança social de quem? Quando e onde diabo pretendem dar-me algum do dinheiro que venho descontando há 32 anos? Lá em cima (ou lá em baixo, ou mesmo ao lado de alguma coisa) não creio que vá precisar de dinheiro, a menos que as minhas dívidas me persigam até lá onde não há mais cartões de crédito…

Creio que faria algum sentido pedir hoje um pequeno adiantamento à Previdência (ou à Providência), por conta da remotíssima reforma, a descontar no período de férias… (as graaaaaaaaandes, claro está).

(Imagem daqui)

22 de fevereiro de 2010

Pesquisar é na Net, pois claro…

pesquisa Fabinca aborda aqui o problema dos direitos de autor ou, se quisermos, da atribuição errónea de autorias. A blogosfera sofre, de facto, da síndrome do ladrão de vasos  que a autora divertidamente recria no texto que hoje vos recomendo.

 … e viva a internética pesquisa…

A avó de Fabinca, pelos vistos, sabia bem que não se pode acreditar em tudo o que se vê na TV. E na Internet? Pode? Bem, os meus alunos acham que sim. Instados a fazer uma pesquisa sobre o trocadilho, foram ter a um blog rasca em que o assunto se espraiava em inúmeros exemplos elucidativos, porém cada um deles mais ordinário e grosseiro que os outros. E apresentaram o trabalho assim mesmo, com pompa e circunstância. Eram miúdas de doze anos, presumivelmente inocentes, que assim apresentavam a um professor sexagenário um trabalho hediondamente pornográfico. O professor desconfiou. Não acreditou que elas tivessem consciência do que tinham feito. E não tinham mesmo. Nem sequer leram o trabalho, depois de impresso. Fizeram copy/paste e pronto.

( Viva a boa pesquisa. Preservada a virginal inocência, por enquanto!… )

(Imagem daqui)

21 de fevereiro de 2010

obsessões do meu ipod (6)

copacabana

A voz feminina do Brasil não é Elis, nem Maria Rita Mariano. Nem Marisa Monte, nem Bethânia e muito menos Adriana Partimpim. A voz feminina do Brasil é Gal, indubitavel- e inconfundivelemte. Tal como a masculina é Chico e não Roberto ou Caetano. Tanto quanto o Brasil é o Rio e a praia do Mundo inteiro se chama Copacabana. É uma canção de Dorival Caymmi e Jorge Guinle. “Fim de Semana Em Copacabana”. Era ainda um tempo marcado a Vinicius. Se repararmos bem, ele está nessa foto. Não se vê, mas só pode estar…

Depois de trabalhar toda a semana Gal_Costa_1969
Meu sábado não vou desperdiçar
Já fiz o meu programa pra esta noite
E sei por onde começar

Um bom lugar para encontrar
Copacabana
Prá passear à beira-mar
Copacabana
Depois num bar à meia-luz
Copacabana
Eu esperei por essa noite uma semana
Um bom jantar depois dançar
Copacabana
Pra se amar um só lugar
Copacabana
A noite passa tão depressa
Mas vou voltar lá pra semana
Se eu encontrar um novo amor
Copacabana

(Imagens daqui e daqui)