Os professores do Secundário estão a ficar velhos, velhos demais para se lembrarem de todas as tarefas que ainda se supõe que façam nesta idade. Alguns já não conseguem sequer decorar os seus horários, os seus planos de aula, entrando em pânico se, por alguma razão, os perdem momentaneamente de vista. O controlo dos tempos de aula passou, de repente, a ser um problema monumental. O seu discurso flutua repetitivo, cada vez mais insípido, e o discurso dos alunos parece-lhes sempre vago, desenraizado, frouxo. O humor dos alunos, por insuportavelmente básico, nunca vem ao seu encontro e o seu próprio humor, por demasiadamente refinado, raramente os conquista. Um hiato comunicacional vai-se estabelecendo entre as gerações, cada vez mais distantes, cada vez mais estremadas…
Nestas condições, os últimos anos de docência de um professor do Secundário podem desaguar num íntimo desconforto, numa espécie de mutilação identitária. Os alunos, por seu turno, têm um projecto de vida ainda novato à sua frente, um sonho ainda imberbe, inconsistente, e não se revêem, por isso, nos professores velhos que esvaecem pardos, entre o dever e a lassidão.
Poucos docentes sabem enfrentar isto com atitudes indómitas e insuspeitamente afirmativas. Poucos sorvem a dose diária da loucura que os revigora. Poucos reaprendem a rir e a contemporizar. Poucos arrancam da boca a flor do cardo, poucos sabem saltar fora do esquife que se anuncia…
(Contudo, serão estes poucos que encontrarão uma réstia de ternura no olhar dos seus alunos. Serão estes que merecerão deles o mais desejado epitáfio: “Era um ganda maluco”.)
(Imagem daqui)
Fabinca