5 de fevereiro de 2010

Não sei se vá se fique, não sei se fique se vá.

indecisao “Está decidido. Vou pedir a reforma antecipada”

“Mas, se pedes agora, vais ter um corte maior que o corte inglês”.

“Está decidido. Não peço”.

“E quando pedes?”

“Mais tarde”

“Mais tarde, com o aumento do tempo da reforma, o desconto tenderá a ser maior”.

“Está decidido, vou pedir a reforma antecipada.”

“Com apenas 31 anos de serviço, dão-te à volta de 50 por cento. A menos que ganhes muito bem…”

“Está decidido. Não peço.”

“O FMI diz que o país está à beira da bancarrota, como a Grécia. Se cairmos mesmo na tal bancarrota…”

“Está decidido. Vou pedir a reforma antecipada.”

“Em qualquer caso, serão sempre os reformados e os pensionistas a pagar a crise.”

“Está decidido. Decido amanhã.”

a palavra dos outros

viegas Aqui, Cavaleiros do Norte, de Viegas, um repositório pitoresco de histórias de guerra em Angola, nos idos de 74.

não leiam isto

vampiro Fui maltratado hoje. Como ontem e anteontem. É como se de repente a vida fosse só o lado mau da vida, o gémeo travesso dela, um menino que fere com a inocência, um garoto da rua que mata distraído.

Há tempos que é assim. Dificilmente atravesso ileso as multidões do quotidiano. Não me exponho um dia sequer sem, pelo menos, um bom arranhão. Mas hoje fui mais zurzido. Voraz, a vampirina vida mordiscou a minha tranquilidade. Na jugular.

(Calma. Eu disse só “mordiscou”. Ainda me terão amanhã para me queixar de novo…)

(Imagem daqui)

31 de janeiro de 2010

ouvindo o pedro…

blogosfera Pedro Rolo Duarte, numa entrevista ao Biography Channel, aflora a questão de uma certa desorientação que diz notar na imprensa escrita em geral. Esta desorientação, esta perda de paradigma não é mais que uma pssageira crise de crescimento, digo eu. A blogosfera que, no dizer do jornalista, representa um pouco do que ele gostaria que fosse a imprensa, não a substitui nem se lhe assemelha, volto a dizer eu. De jornalismo nada sei, como nada sei de um sem número de outras coisas, incluindo a própria blogosfera, sobre a qual escrevi, sobre a qual me empolguei um dia, prescrevendo-lhe normativos e augurando-lhe  um lugar de destaque na tribuna mundial da opinião e da irreverência polemizada. E ela é hoje tudo isso. Mas o seu problema consiste em não ser mais do que isso. Ser uma tribuna de opinião política e sociológica, um speaker’s corner das oposições, um muro de lamentações da crise económica, é muito pouco para a blogosfera. Quereria que ela fosse também a expressão de um individualismo sério e autorizado, a manifestação de um estado de alma ecoante, de uma constante poética, de um esboço de novos rumos para a escrita criativa universal. Ecce blogosfera…

Pedro Rolo Duarte no Biography Channel

(Imagem daqui)

the eportfolio explained to digital natives

The English eportfolio represents nowadays one of the most efficient English learning tools. Apart from this process it helps learners recognize their difficulties as well as have a full panorama of their evolution. The eportfolio brings consciousness to the learning process…

30 de janeiro de 2010

obsessões do meu ipod (4)

fausto papetti 

Fausto Papetti é, obviamente, uma pequena concessão que faço ao purismo jazzístico. Papetti não é, definitivamente, um homem do jazz, nem é definitivamente jazz a peça que vos mostro hoje. Porém, ela é encantatória na sua contenção e maturidade extremas. E muito pouco do que nos encanta pode ser totalmente alheio ao jazz. Digamos que se trata de música ligeira, no melhor easy-listening que se pode ter. Ah, pode até ser música do baile dos bombeiros, mas que nos traz uma arrepiante nostalgia, um lampejo da inocência perdida, lá isso traz…

(Imagem daqui)

a palavra dos outros

Performing Math Calculations at Chalkboard “a obrigação dos professores é ensinar”

O que aqui se diz sobre o Professor do Ensino Superior espelha o que já há muito tempo é recorrente no Secundário. A “clientela” do Secundário é assim há muito tempo e, pelos vistos, já inundou também o Ensino Superior. Helena Damião escreve aqui um artigo cuja leitura é, a todos os níveis, recomendável.

“ (…) Perante tal cenário, o docente, sobretudo se leccionar uma disciplina das chamadas ciências humanas, começa a contemporizar e, pragmaticamente (porque sabe que os olhos de toda a turma ele não passa de um «zé-ninguém» ao pé das «estrelas» do pequeno ecrã), vai dando «uma no cravo, outra na ferradura» para não se exaltar ou sofrer um inquérito «politicamente correcto» (dado ter origem nos «clientes» do sistema de ensino, como gostam de sublinhar todos os ministros da educação cavaquistas e guterristas) às suas aptidões pedagógicas e científicas. Eis, pois, que entra em cena o «pragmatismo», esse tenebroso estado de espírito que se instala no seio das instituições e as destrói lenta, mas seguramente. (…)”

Texto integral aqui:A Obrigação dos Professores é Ensinar

in “De Rerum Natura”

(Imagem daqui)

prémios literários

livros … o meu amigo gameiro ganhou o prémio literário joão de miranda m., vencedor do prémio joão tordo de literatura, que ganhou o prémio josé saramago de literatura, vencedor do prémio nobel de literatura que ganhou o prémio bertha kinsky da literatura. O meu amigo santosilva é candidato ao prémio gameiro de literatura…

(Imagem daqui)

27 de janeiro de 2010

“Another Step”

O hábito de comprar serviços ao sector privado também já chegou à escola pública, cada vez mais armada em empresa. Evidentemente que a fatiota do modelo empresarial não lhe assenta nada bem, mas gestaoela já não sabe disso porque a sensibilidade e o bom gosto já se lhe embotaram. A coisa é mais ou menos assim: tendo desistido completamente de se pensar por si própria, a escola pública desanimou diante de tanta pulhice tresloucada. Os alunos não querem estudar e enervam-se facilmente; os professores não conseguem ensinar e debandam macambúzios e arrepiados para as suas envergonhadas reformas; o que se ensinava já não serve (nem servem já aqueles que ensinavam) e o que eventualmente poderia servir ainda ninguém descobriu o que é, De modo que a escola pública, assim enfezada, sem saber resolver os seus problemas, contrata empresas privadas de gestão, estatística e avaliação para com elas aprender de vez o que sempre soube e que, sabe-se lá porquê, esqueceu. E assim, vêm uns romeiros em peregrinação às escolas públicas debitar modelos de gestão (agora há uma enormidade deles, cada qual mais enorme do que o outro) e fórmulas eficazes e boas práticas e poções mágicas que só os gestores privados, quais druidas deste tempo, conhecem e denodadamente receitam às decrépitas e descompassadas empresas públicas de ensino. E essas piedosas empresas privadas brandem todas nomes em Inglês, copiados talvez do quadro europeu de línguas ou do descalabro tratatório de Lisboa, sei lá… Uma dessas empresas salvadoras do ensino pátrio que acabei por conhecer (juro que sem querer) chama-se “Another Step”, empresa muito digna, atenção, mas cujo nome me fez estremecer porque, à primeira ouvidela, percebi “A hundred steps”.

(É que esta gente quando começa a caminhar nunca mais pára…)

(Imagem daqui)

25 de janeiro de 2010

o meu médico…

medico O médico que me assiste é tecnológico, lacónico, portista, e metafórico. Numa das últimas visitas que temerosa e sistematicamente lhe faço desde Setembro passado, ele acariciou o teclado do seu novo gadget e disse:

“Vamos fazer outra citologia”.

“A coisa piorou, doutor? Pode falar claro.”

“Meu caro, ninguém vence este desafio. Estamos a jogar fora de casa e um empate já será uma vitória. O nosso objectivo é que haja prolongamento…”

Só quando cheguei a casa é que vi que, no dia seguinte, ia haver o Benfica-Porto para a Liga Sagres. Era então a este desafio que o meu médico se referia. E havia alguma razão para a sua derrotista previsão. Era a jornada 14 e o Benfica ganhou em casa por um a zero…

(Mas nada disso tem a ver com o meu caso clínico. Ou tem?!)

(Imagem daqui)

24 de janeiro de 2010

…sobre aquilo que quase não se vê e fica ali situado entre o umbiguismo e o provinciano…

recado Não me espanta haver em Portugal noventa por cento de pessoas sem habilitação superior. O que me espanta é o facto de tantas das restantes dez por cento terem conseguido obtê-la… É-me mais fácil saber que competências seria suposto ter para a conseguir do que quais as inépcias que poderiam obstrui-la. Muitas vezes me pergunto como é que alguns indivíduos pertencem àquele risonho e encantado grupo dos dez por cento, tal a abusiva riqueza de boçalidade e tacanhez que, sem nenhum dramatismo, vão evidenciando em todas as manhãs, tardes e noites das suas abovinadas vidinhas. Ah, mas é que pertencem mesmo, assim nos afiançam os seus ostentativos canudos.

É exactamente como dizia a Ti’Maria do X, nos áureos tempos da sua juvenil irrequietude, quando um doutorzito qualquer, todo metido a besta, a olhava de cima da burra: “Ah quantos vão a Coimbra, se burros vão, burros vêm…