Arqueado me retorno ao nada...
[Estou fosso! (particípio passo). Merda de poema, puta de vida! (particípia passada, passiva, fanada)]
(Imagem daqui)
Arqueado me retorno ao nada...
[Estou fosso! (particípio passo). Merda de poema, puta de vida! (particípia passada, passiva, fanada)]
(Imagem daqui)
Estive paralisado hoje, das 8.30 às 10.00. Senti-me como se, de repente, tivesse sido compulsivamente reformado. Não ficou ninguém comigo. Todos se foram dirigindo aos diversos sectores de trabalho, informando, por conveniência, que não podiam fazer greve, pois isso atrasaria todo o trabalho e reverteria, em última análise, contra si próprios. Compreendo. Foi sempre assim. Até o secretário-geral da CGTP, de ordinário tão confiante, foi adiantando que não esperava grande adesão à paralisação, exactamente devido às mesmas razões. É. As nossas paralisações não substituem o trabalho. Apenas o adiam.
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arrepiantes sensações de quase muda perseguição
Em 20 11 07 ainda não se sabia ao certo que ameaça era esta que já pairava no ar. Passados dois anos, já sabemos todos, de um saber perverso e ultrajado. Foi a peçonhenta crise, a ignominiosa avaliação do desempenho, o vergonhoso estatuto da carreira docente e muitos outros descalabros de toda a ordem que arrasaram a vida dos Portugueses.
Para reler aqui, se tiverem paciência…
Meu pai era lavrador, mas, nos primeiros frios do inverno, aquietada a faina das colheitas, fazia rodízios para azenhas. Foi num desses dias felizes de há 50 anos que, enquanto desbastava uma pena com a enchó, me contou uma história a que, com visível ar de mistério, chamou “coisas do diabo”.
“Estava um homem afiando um fueiro, tal como eu faço agora com esta pena, quando foi abordado por um estranho que lhe disse que tivesse muito cuidado, que podia cortar o nariz. O carpinteiro achou o conselho muito tolo e continuou o seu trabalho. Porém, o estranho reforçou o aviso: cuidado, que podes cortar o nariz.
- Mas como posso eu cortar o nariz, se estou a afiar um fueiro que está a meio metro de distância dele?!.
- Já ficas avisado: tu vais cortar o nariz!
- Irra que você é burro. Para eu cortar o nariz teria que fazer assim. (Aqui o carpinteiro aproxima a enchó do seu rosto e executa com ela um movimento para exemplificar o único modo como poderia cortar o nariz).
E cortou o nariz.”
É. A nossa memória ri-se de nós, da nossa cara cada vez mais evanescente, do nosso nariz cada vez mais inverosímil.
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Os contratos de trabalho dos banqueiros e gestores bancários (enfim, de todos os que têm acesso fácil e privilegiado à massa com que se compram os melões) deveriam contemplar uma cláusula que justificasse a falta ao emprego quando aqueles profissionais acordassem de manhã com uma indomável vontade de fazer uma falcatrua financeira ou um desvio de capitais para as suas contitas pessoais. Chamar-se-ia Cláusula da Desonestidade Latente (CDL) e, no limite, evitaria a bancarrota do sistema capitalista. Não é que eu esteja particularmente empenhado em que o sistema capitalista não caia do cavalo ou não rebente pelas costuras. Por mim, pode até explodir, implodir, derreter, escoar-se, petrificar-se, que eu não estou nem aí. Mas custa-me por demais ser mais um dos pacóvios que andaram para aqui a ver navios, trabalhando decentemente, cheios de pruridos e de contenções éticas, enquanto uma falange de mafiosos se governou com o meu trabalho de asno e a minha inépcia financeira.
Cláusula semelhante deveria ser introduzida no ECD, permitindo aos professores ficarem em casa nos dias em que acordassem invulgarmente estúpidos. Neste caso a cláusula seria chamada CII (Cláusula da Idiotia Imprevisível). É que cachorrice e imbecilidade não são doenças genéticas. São adquiridas socialmente e mais contagiosas que sarna multissintomática.
Por que falo destes dois casos? Bem, do primeiro quem fala é a minha lamurienta e desprestigiada carteira. Quanto ao segundo, caí, desamparado e zonzo, numa reunião de professores contra encarregados de educação e vi quão benéfica teria sido uma quarentena. Chiça!
Tenho estado fechado. Por causa da gripe porcina ou mexicana ou lá como se chama essa nova coqueluche. (Ultimamente temos andado a sofrer de pandemonias várias: freeportite A, vitalmoreirite B, crisite C, desempreguite D, campanheleitoralite E, etc. Por isso estive fechado esse tempo todo. Mas agora vou regressar, visto que afinal só houve um caso em Portugal e ainda nem sequer foi caso que se visse. Portugal continua a ser um paraíso onde os vírus não se dão bem. (Nem os corruptos, que também são uma espécie de vírus mas maiores e com barba na cara, embora sem vergonha). Por isso vou regressar. De máscara clínica. Mas vou.
(Fica a ameaça.)
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Sempre que alguém escreveu panegíricos, arrependeu-se um dia. Músicos endereçaram odes triunfais a ditadores de esquerda e de direita e rasgaram as partituras. Grandes Poetas debitaram loas aos seus heróis e descreram de tudo na última página. Dramaturgos sublimes elevaram aos píncaros os seus heróis colectivos e nunca mais foram lidos.
A única literatura que perdura é a da mordacidade. O único texto decoroso e honesto corre contra a corrente. O único poema que nos arrebata é o do ressentimento cristalizado.
Tudo o mais fica aí a perpetuar a mediocridade de quem o fez, a limitação triste da triste humanidade…
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Lembraste-te, pois foi… Eu sei que ficaste apaixonado pelo Radio Days. A propósito dos Mass Media que leccionas em Inglês e, mais especificamente, a propósito da importância da rádio nos anos 40, ousaste levar o filme para a aula. Enquanto te deleitavas com tudo o que Allen te propunha, desde a música até os inteligentes diálogos de cena, passando pelos escultóricos receptores de madeira e a guerra dos mundos de Welles, os teus alunos adormeciam lenta e despudoradamente na semi-obscuridade da sala. E tu não entendeste que porra falhou ali.
Ou já previas tudo isso, mas ainda assim apostaste. E perdeste, já se vê.
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Os certinhos que eu conheço (e cada vez conheço mais) nadam da nascente à foz. Eu nado da foz à nascente, como uma truta suicida. E caio directo na boca do urso…
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É um nevoeiro pegado este processo de directorização das escolas públicas! Mal dá para ver a nossa própria estupefacção. Os labregos dos docentes, os pequenos, aqueles que realmente trabalham no sistema educativo, e mantêm, malgré tout, a máquina em movimento, olham para tudo isto com o seu mais recente ar de bovinidade compassiva. E, se alguém liga os faróis e tenta ver além da sua tromba, recebe logo uma mão-cheia de areia nos ditos, que logo o restitui à imbecilidade.
O novo senhor director vai receber um suplemento mensal de entre 600 e 750 euros, enquanto os docentes, estacionados há anos na mediocridade das suas carreiras, vêem multiplicar todos os dias o trabalho imprestável a que estão submetidos e os seus magros salários desaparecerem no dia 10 de cada mês.
Claro, é tempo de contenção. É a crise. E eu, que não vejo tanta crise assim, (pelo menos quando olho para as carteiras de alguns), fico imaginando como o nevoeiro cresce e alastra. ![]()
Não contem comigo, no entanto, para impugnar nada nem ninguém. Apenas reclamo o direito de denunciar o escândalo que é um director de uma escola pública ganhar 3.000 euros mensais líquidos, enquanto os que se arranham na sua escola (nas aulas curriculares e nas aulas de apoio e de substituição, não pagas, e leccionadas em cubículos imundos, sem janela nem quadro; nos apoios conhecidos como salas de estudo a que nenhum aluno vai, mas que obrigam à permanência integral do professor; na planificação e preparação de aulas; na elaboração de materiais didácticos; na correcção, análise, avaliação e relatório de instrumentos; nas tarefas burocráticas que todos os dias recrudescem, como a elaboração de testes em conjunto, com critérios de correcção e grelhas de cotação homologadas, e actas e relatórios sobre cada treta que se faz ou deixa de fazer na escola) pouco passam dos 1.000.
Prefiro nevoeiro a areia. Dói muito menos nos olhos…
Curiosamente, parece também avolumar-se a ideia de que o ensino privado, além de mais barato por aluno é também melhor e mais eficaz. Quem tem dinheiro para fazer estudar o filhote numa escola privada paga o estudo do seu próprio mostrengo ao privado, nas propinas, e paga o estudo dos mostrengos dos pobres ao estado, nos seus impostos. Nada mais cristão…
Mesmo pagando duas vezes, quem tem dinheiro admite sempre preferir o ensino privado ao ensino público. Não será, certamente, porque lhe fica mais em conta. Obviamente que deve ser porque o privado vai dotar o seu rebento de estranhos instrumentos que o elevarão a pastor da carneirada que o público debitará. A manutenção da carneirada terá que ser atribuída ao serviço público de educação, enquanto a produção dos respectivos pastores será atributo da escola privada. É a divisão de trabalho. Cristianíssimo outra vez.
Um senão: para construir essa mole meio zombie, mas acatadora das políticas vigentes, o ensino público vai precisar de um contingente de professores burros. A escola pública ainda não possui, infelizmente, esse tão desejado contingente. Mas está a trabalhar acerrimamente para isso. E está no bom caminho…
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