18 de abril de 2009

a palavra dos outros

A escritora brasileira Karla Jacobina

A encantadora Karla seduz a todos nos palcos brasileiros, ou a maneira inteligente de dizer o íntimo, pra ninguém botar defeito. Leia-a, por exemplo, aqui.

16 de abril de 2009

Publicidade enganosa

publicidade Para mostrar as suas virtualidades face aos planos curriculares, as escolas mostram desde já as suas ofertas educativas ao mercado concorrencial. Muitas investem alguns milhares de euros em vídeos promocionais executados por equipas de jornalistas profissionais. É vê-los, acompanhados dos seus chairmen-to-be, escolhendo os ângulos mais fotogénicos das salas, dos ginásios, das bibliotecas, das alunas, das cantinas e dos bares. Não, não falo de escolas privadas. Estou a falar de escolas da rede pública. Para um homem como eu, habituado a entender o ensino público como um sistema organizado, colaborativo e sem concorrência ou disrupção internas, tais promoções fazem tanto sentido como uma viola num enterro.

Uma pergunta se impõe: quem paga estas promoções? Será o min-edu, o director-que-há-de-ser, o partido do governo, os contribuintes-em-vias-de-falência, a União Europeia, ou a puta que os pariu? Se alguém souber, me responda por favor. É que isto de estar a assistir a um filme trágicómico sem entender a história não dá com nada…

(Ah, se a resposta for a última hipótese, é bom começar a pensar na legalização da profissão da mamã, certo?...)

(Imagem daqui)

15 de abril de 2009

Reflexão com folar ainda quente…

folar Como pudeste pensar que as férias duravam para sempre? Eis-te de volta ao trabalho, mais esfalfado do que estavas antes delas. Os alunos, esses sim, refrescaram-se por dentro e por fora. Voltaram mais energéticos, mais demolidores e tortuosos, mais implacáveis do que nunca. Tu nada podes contra o vigor indomável da sua saúde. Quisera-los mais brandos, mais calados, mais frágeis, talvez mais deficitários, um pouco atormentados até, para então poderes ajudá-los. É a tua função. Mas descobres dia a dia que eles não precisam de ti, de ti que só lhes ensinas baboseiras, só lhes sugeres trabalho, esforço, renúncia, reflexão, decência, organização, método, estudo e o caneco…

(Também eles já descreram de ti, já não nutrem qualquer esperança de fazer de ti um homem feliz…)

(Imagem daqui)

3 de abril de 2009

Repescando tralices

relogio_contratempo3 03 04 2007

Há exactamente dois anos, no Tralapraki, um qualquer fait-divers visando o Serviço Nacional de Saúde (já na época muito contestado) levou-me a escrever isto.

Vou ser famoso, prontos!

fame Já decidi: quero ser famoso. Tenho praticamente todos os requisitos: sou estúpido, feio, pobre e não sei fazer praticamente nada. Nunca serei rico, nem belo, nem inteligente. Resta-me, portanto, ser famoso.

O meu problema com relação aos requisitos é que lhes falta um pouco de radicalidade. Sou estúpido, mas não sou o mais estúpido de todos. Sou feio, mas conheço pelo menos um tipo mais feio do que eu. Já é famoso, é claro. Sou pobre, mas tenho um modesto e virtuoso emprego que me dá o sustento dia após dia. Não sei fazer nada, mas os famosos sabem fazer isso bem melhor do que eu.

Enfim, não conheço maior impedimento à fama que ser quase normal. Preciso urgentemente de me anormalizar um pouco.

Mas não vou desistir. Com o que me sobrou do salário deste mês, comprei uns óculos escuros. É o primeiro passo, vocês não acham? Não será muito, mas um primo afastado meu é Presidente da Junta e...

(Imagem daqui)

2 de abril de 2009

Coçando a cabeça… (1)

coçando Estudos recentes parecem provar à saciedade que o custo médio de um aluno na escola pública é mais elevado do que o custo do mesmo aluno na escola privada. Esquecendo, por instantes, a eventual diferença de estado inicial entre estes dois alunos, o fenómeno explicará, certamente, a tentativa, por parte do estado, de reduzir substancialmente o peso do ensino público, transferindo grande parte do esforço orçamental para a esfera privada. Faz todo o sentido.

Porém, o estado precisa de um ensino público, como de pão para a boca. Não para garantir a tão proclamada igualdade de oportunidades (pois essa quimera alucinada este ensino público não garante de facto), mas para produzir uma massa enfileirada, meio amorfa e só medianamente estúpida, porém formalmente qualificada (embora, de facto, destituída de quaisquer qualificações), uma massa que saiba corresponder socialmente ao apelo do regime autocrático mais acéfalo que se conhece: a democracia parlamentar e a unidade europeia.

Será, então, para isso que serve a escola pública, onde um quarteirão de pessoas tenta diariamente impingir aos jovens o respeito e o apreço por todos os carneirismos bem pensantes e politicamente correctos da representatividade europeia? Se não for para isto, para que raio estará ela a servir?

(Imagem daqui)

PS. Para que conste: o autor é acérrimo defensor de uma escola pública de qualidade, ou seja, outra escola pública.

28 de março de 2009

Modelo de requerimento para Director de Escola

director João Honesto e Zé Grandão vêm, em parceria, mão na mão, solicitar a V. Exª a admissão ao concurso para o recrutamento e eleição do Director, dizemos, dos Directores da Es Base/3 e Seca de Bardamoita, aberto pelo aviso nº 6969/2009 publicado no Diário do Pagode, 2ª série, de 24 de Março de 2009. Para o efeito, anexamos os seguintes documentos:

.Corri com o Vitai. (O Zé Grandão correu com o PAAE.)

.Projecto de Intimidação na Es Base/3 e Seca de Bardamoita.

.Outros documentos que constam do nosso dossier de evidências online, evidentemente.

Pedem deferimento e um pouco de vergonha na cara

João Honesto e Zé Grandão

(Imagem daqui)

Minudências minhas

monotonia A monotonia

Sou um chato. Monótono e monocórdico, raramente resvalo. Passo dias observando os mesmos objectos, repetida e insipidamente pasmado. Mudo de olhos, sim, mas não mudo de motivo. A monotonia agrada-me. O meu samba é de uma nota só e é divino. Outras notas podem entrar, mas a base é uma só… etc.

Quando me sento ao piano, toco com o indicador direito. Sai uma coisa qualquer, provavelmente inesperada (um analfabeto musical nunca sabe que som vai sair de uma tecla), mas sempre sublime. E o que procuro a seguir? Outra nota? Não! Procuro a mesma, tocada em outra tecla, com outro dedo. Mas a mesma. Passei a minha vida à procura de uma mulher que conheci aos 15 anos. Quando achava que a tinha encontrado, casava-me. Afinal não era ela. Divórcio, que é a mesma coisa que a procura monocordicamente incessante, mas tocada por outro dedo, vista por outros olhos, abordada pelo outro lado da paixão.

(Decididamente amo obsessivamente a monotonia, pelo bem que traz ao mundo. Não é ela que previne a SIDA?...)

(Imagem daqui)

a palavra dos outros

dragoscópio2 20 de Março no Dragoscópio

Disparatólogos cacomantes

“Ao mais alto nível (objectivamente medido no sitemeter), é claro que, além dum asnódromo, a blogosfera, também pode ser definida como um ginásio para disparatólogos - tipos que adivinham o que quer que seja com base na copromancia da sua própria emissão de disparates. O basbaque ambulante e obsessivo, como qualquer auto-estrada ou ferrovia em hora de colisão podem comprovar à exuberância, papa qualquer coisa.”

(Texto integral aqui, no Dragoscápio, como não podia deixar de ser.

(Imagem do blog)

27 de março de 2009

A melhor anedota de 2008

rir A melhor anedota que ouvi o ano passado é esta:

“- O que pensa do aborto?

- Bom, acho que tem sido um bom Primeiro-ministro.”

(Obviamente, alguém descobriu, inventou ou criou esta obra-prima. Coisa de um anónimo, certamente. Figuras de topo da literacia mundial, celebridades literárias, escritores dos spotlights culturais e televisivos podem escrever páginas e páginas da mais desmedida chatice literária. Um anónimo inventa aquela anedota e continua anónimo! Como pode ser injusto o mecanismo da fama!

Quero conhecer o autor daquela maravilha. É com ele que quero partilhar o momento sublime de uma cerveja ao fim da tarde. Pago eu.)

(Imagem daqui)

22 de março de 2009

As férias são cooles…

pascoa Os putos vão ficar quinze dias em casa. Assim que soarem os últimos acordes das suas autoavaliações, pegam nas mochilas, nos ipodes e nos telemóveis e demandam a casa paterna. Serão quinze dias de televisão, de Nintendo, de YouTube (ou de Redtube, que esta gente pequenina de pequenino já não tem nada…), de Messenger, de Orkut, de Hi5. Serão quinze dias de convívio com os craques dos pais (que, esses sim, sabem de tudo e sabem muito), e de reuniões no McDonald’s à volta de inomináveis hambúrgueres gigantes, para ganhar no monopoly, depois de tardes inteiras escorridas nos centros comerciais a ver sapatilhas e blu-rays. As conversas aflorarão ainda os cretinos dos professores que erram pelos corredores como zombies, de olhar esmarrido, esquecendo-se de tudo, incapazes de pôr ordem nas salas, doentes e acinzentados, mas não empanarão as inefáveis alegrias do regaço familiar…

(Imagem daqui)