18 de outubro de 2008

bilu bilu...

parabens Outubro 04, 2006

Foi quando nasceu o “Tralapraki”, ainda na maternidade http://tralapraki.blog.com. Pai desnaturado, que deixou, pela segunda vez,  passar desapercebido o aniversário do seu pobre rebento…

15 de outubro de 2008

Rituais

mijar Era um homem que só fazia rituais: acendia velas, fumava cachimbo, ia à missa, passeava o cão, tomava café, lia o jornal, sentava-se no engraxate, dava corda ao velho relógio de parede, falava do tempo, cheirava a comida, decantava o vinho. Guardanapo, sempre de pano, sobre o joelho direito, pousava os cotovelos sobre a mesa e ficava duas ou três eternidades tamborilando, rodopiando, estalando os dedos grossos em frente das ventas dos comensais. Sorvia a sopa com estridência impositiva, encavalitava montões de espinhas na borda do prato. Pacientemente, construindo com elas hipotéticos puzzles.

Entrava em todo o lado com o pé direito. Se se enganasse, saía e entrava de novo. Muitas vezes esta fronteira entre o dentro e o fora eram só linhas imaginárias que ele teimava em fabricar. Usava papel mata-borrão desde 1954 e, quando no ano passado lhe foi impossível adquiri-lo na velha papelaria do Senhor Abreu, benzeu-se em desespero e marcou uma entrevista com Dona Marianita. Estas idas regulares à bruxa da Videira eram sempre marcadas pelo ritual da mola-de-roupa: a bicicleta reluzente, a calça boca-de-sino e o colocar metódico e um pouco histriónico da mola na dobra da perneira das calças. Assobiava Moonlight Shadow em todos os sítios e situações. Ele dizia que era Moonlight Shadow e, de facto, parecia-se muito com Moonlight Shadow, pelo menos nas pausas. Acabei de vos apresentar o Zé da Albina, mas já não me lembro a que propósito…

(Ah, lembrei: obrigou-me a mijar com ele ontem, atrás da capela...)

(Imagem daqui)

No encalço de Dermeval Saviani (1)

demerval Reunião looonga, bocejo looongo, corredor looongo… Num dos extremos do velho corredor, uma jovem empregada passava a pano o vasto mosaico do chão. Aproximei-me e senti, revigorado, o perfume a lavado que o seu trabalho rescendia. Pela primeira vez em cinco horas nessa tarde, senti que alguém naquela escola fazia alguma coisa bela, conveniente, inadiável: lavava um corredor. E aqueles professores que nos retiveram cinco horas numa lengalenga institucional, tão medonha quanto impraticável, não mereceram, nessa tarde, a fruição do trabalho dessa jovem. E eu soube logo ali, de um saber certeiro e envolvente, que a escola deve reassumir, com urgência, o seu papel de ensinar alunos, deitando para o caixote mais próximo tudo o que a possa afastar deste propósito. E tudo o que eu ouvi naquela reunião a afasta, irremediavelmente, dele…

(Imagem do site de Dermeval Saviani)

12 de outubro de 2008

A palavra dos outros

É à política e não ao estado que devemos regressar            ("Abrupto", hoje)

crise Pacheco Pereira faz aqui uma análise inteligente sobre a questão da recente crise bolseira e as alegrias e eventuais dividendos políticos que esta actual mancada do sistema capitalista irá trazer a Sócrates e ao partido socialista. Em Pacheco, sempre admirei a coerência interna de um raciocínio limpo, embora não possa garantir que a sua clarividência seja capaz de me fabricar um mundo melhor.

O problema no seu raciocínio de hoje parece-me residir no facto de que nem a crise é capitalista, nem Sócrates é socialista, nem o partido socialista é o que quer que seja, nem mesmo o que Pacheco Pereira está convencido de que ele é. Enfim, nem o liberalismo se afundou, nem o socialismo será instaurado. Esta crise não tem, em termos de sistema económico, nem vencedores nem vencidos. Quem a pagará serão os mesmos de sempre, mas isso não representa nenhuma novidade revolucionária.

Quanto aos dividendos de Sócrates, a ubíqua estupidez lhe atribuirá, certamente, alguns, talvez muitos. Mas acredito que possa por aí haver uma pequena multidão semi-escondida que não votará em José Sócrates nem que a vaca tussa, embora não tenha ainda descoberto em quem votar, pelo simples facto de que não há.

(É que, por vezes, do meio de um monturo de camelices bastardas, podem nascer as flores inesperadas de uma vibrante e indómita inteligência…)

(Imagem tirada daqui)

10 de outubro de 2008

Nunca confie plenamente nos animais domésticos

jose gil José Gil, no Radar Ensaio (Visão, 2 de Outubro de 2008), fala assim da domesticação dos professores: “Assim começa a interiorização da obediência (e, um dia, do amor à servidão). (…) São técnicas terríveis de dominação, de castração e de esmagamento e de fabricação de subjectividades obedientes.”

José Gil tem toda a razão. Os professores foram domesticados. (Também o meu burro o foi. Mas foi no exacto momento em que o dei por irredutivelmente manso que levei dele o maior coice da minha vida. Inesperado e demolidor, tanto quanto o pode ser um coice colectivo de 200.000 patas domesticadas.)

9 de outubro de 2008

Aula de Ingreis

may i - Meia cabine?

- Sorry… What is that supposed to mean?

- Num entendo. Meia cabine, ou não?

- Mas o que é isso de “meia cabine”, ra-

  pariga de Deus?

- Estou a pedir para entrar, claro. Daaaa…

                        (Contado por Rogério Cunha)

(Imagem tirada daqui)

6 de outubro de 2008

A palavra dos outros

karla

Angu Dadá Australopitecus 

Quando se descobre uma grande escritora não se pode ficar, placidamente, sem um sobressalto, olhando o umbigo. Por isso vos trago hoje, vindo da outra margem do mar, este arrepio.

3 de outubro de 2008

Uma história verdadeira…

saudade 

- Mas olha lá, tu gostas dele ó não?

- Mas ele é muito criança pra mim.

- Não é rico. Tem terras… e o pai botou-o a estudar. E tu não dás prós estudos e também não tens grande fazenda. Eu acho que ele pode ser alguém.

- Mas é tão pequeno ainda…

- Ele crece

Assim que soube que mãe e filha falavam dele, esgueirou-se sorrateiro e esqueceu o diálogo. Quarenta anos depois lembrou-se disto e sentiu uma inóspita vontade de lhe contar. Mas agora ela era um esqueleto soterrado há trinta anos, desde que guinou o MG do pai ribanceira abaixo. E ele ia morrer em breve sem mesmo conseguir pagar o T0 dos seus estreitos sonhos.

Em que repartição se resolvem estes casos?

(Imagem tirada daqui)

2 de outubro de 2008

A minha cobardia reside nisto

cobardia Ao longo de alguns anos me agastei por aqui contra quem fez o mundo, os homens, o sistema capitalista e todas as demais encanzinações do universo. A minha falta de mira na detecção dos culpados de todo o mal que há no mundo não é só estupidez. É, sobretudo, cobardia. Quase sempre atribuo todas as culpas à Natureza, à potestade suprema, enfim, a Deus, porque sei que Ele não lê blogues, ou, pelo menos, este. (Há, ainda assim, um potencial perigo de eu vir a ser enquadrado judicialmente pelas minhas invectivas contra o Criador. É o facto de alguém mais perto da minha essência comezinha tomar as dores de Deus e disparar, em Seu nome, um anátema fodido contra mim.)

Quando aprenderei a dizer que os culpados da merda desta sociedade putrefacta estão muito mais perto de mim do que Ele, e lêem blogues, e sabem quem eu sou, bem mais do que eu poderia imaginar e, porventura, desejar?

(Imagem tirada daqui)

27 de setembro de 2008

A palavra dos outros

sistema educativo O “Movimento Mobilização e Unidade dos Professores” cristaliza aqui alguns dos argumentos contra muitas das palhaçadas que dia a dia se vêm infiltrando, de modo mais ou menos clandestino, no Sistema Educativo Nacional.

 

 

(Imagem tirada daqui)

Repescando tralices

clock3 José Manuel Pureza dizia ontem de manhã a Eduarda Maio, no “Conselho Superior” da Antena 1, uma coisa tremendamente parecida com a tralice que hoje vos relembro. Foi publicada em 10 03 2007 e está aqui.