1 de agosto de 2008

Campo pequeno demais para tanto talento…

star tracking O PR foi ao Campo Pequeno encontrar-se com o Caminho das Estrelas, uma constelação (ou será antes uma nebulosa?) de quinze mil jovens talentosos que emigraram e se distinguiram lá fora nas suas áreas de actividade. O PR agradeceu aos jovens Star Tracking e o Presidente da Comissão, também presente no evento,  afirmou que a melhor maneira de vencer na vida não é andar para aí a marrar contra os ventos da globalização, mas antes juntar-se a ela de alma e coração.

Os jovens menos talentosos não estiveram presentes, claro. Os milhões de jovens menos talentosos que continuam à espera da sua aurea mediocritas, uns empreguinhos medíocres e honestos para poderem viver de torso levantado, são todos, decididamente, uns perdedores e não têm direito â honorífica bajulação dos seus donos. Com um pouco mais de azar, nem donos eles têm mais…

(Imagem tirada daqui)

26 de julho de 2008

Tenho um apêndice entalado entre as palavras

Virgula Sempre me interessei pela vírgula. Desde muito cedo refutei a teoria primária colegial de que a vírgula servia para respirar. A vírgula é o sinal de pontuação mais manhoso da nossa língua. Franceses e ingleses estão agora só agora a dar-se conta de como pode ser transcendente virgular com dignidade. Quanto a nós desde o professor ao cientista desde o politico ao jornalista passando pelo escritor e pela minha empregada de fora (meu deus como virgula mal aquela mulher - virgula quase tão mal como poda e rega) todos virgulam de modo tão primário como os meus alunos do sétimo ano.

Estudo virgulação há vários anos e aprendi que ninguém me pode ensinar tão transcendente competência. Nunca encontrei uma vírgula em Mário Cesariny de Vasconcelos nem em Daniel Filipe nem em Melo e Castro nem em Natália Correia (esta nunca terá ouvido sequer falar de tal apêndice) nem em José Forte nem em Maria Teresa Horta nem em Gastão Cruz nem em António Aragão nem em Dórdio Guimarães nem em Saramago nem na Guidinha nem mesmo neste meu pobre texto. Muito poucas em Pedro Tamen e poucas e más em Ana Hatherly.

Decididamente não se pode aprender esta matéria com escritores.

O problema é que estou a criar uma rejeição quase histérica a quem virgula mal. A única classe que irremediavelmente discrimino é a classe dos maus virguladores. O tipo virgula mal pronto perdeu a razão e nunca mais confio nele nem para amolador de tesousas.

Sou um animalejo inofensivo. Mas se algum dia tivesse que linchar alguém seria certamente um desses desvirguladores fanáticos.

(Imagem tirada daqui)

Hoje deu-me para olhar para a carteira…

burro1 Por que será que os velhos clientes de qualquer empresa de serviços, os mais fiéis (aqueles que mais lucro já deram, visto estarem há mais tempo a ser comidos), são sempre mais mal tratados do que os novos? Será que as empesas pensam que têm os old ones for granted?

Quando se trata de um bem determinado no tempo, como por exemplo a compra de um telemóvel ou de um computador, ainda faz um certo sentido que quem já comprou ontem tenha pago o dobro de quem vier comprar amanhã. (Faz sentido, embora dê cá uma raiva…). Porém, serviços continuados, como, por exemplo, a televisão por cabo ou satélite, a Internet adsl, ou mesmo a assinatura da revista Deco não deveriam discriminar tão negativamente os velhos fregueses em detrimento dos novos aderentes.

Acabei agora de verificar que as ofertas de serviços idênticos aos novos clientes são, indiscutivelmente, muito mais favoráveis do que as precaríssimas condições em que estão mergulhados os clientes mais antigos. É como se o facto de eu entrar na loja mais cedo me vá penalizar no preço da mercadoria… Parece um contra-senso e nem acredito que esta política venha a ser muito saudável para as empresas, tão logo as pessoas se apercebam a sério destas anómalas situações.

Fiquei siderado ao perceber que pago, há seis anos, 35,57 por uma ligação adsl de 8 mbs, quando os novos aderentes estão a pagar 29,99 por 16 megas e ainda recebem serviço de telefone com chamadas ilimitadas. Trata-se, quanto a mim, de um abuso inqualificável. No cabo passa-se coisa idêntica: possuo, há cinco anos, o pacote clássico por 26,08 com ligação a um só televisor e agora a empresa está a aliciar os novos aderentes com um faustoso clássico por 23,39 que ainda permite ligação a três televisores.

Que espécie de ódio terão eles contra quem já subscreveu os serviços há mais tempo?

Isto é mesmo assim? Tem sentido? Há alguma razão ética? Há só uma razão comercial? Estou enganado e isto não está a acontecer nem a mim nem a ninguém?

(A sério, se alguém souber o que se passa e por que se passa, informe-me. Agradeço, não em meu nome pessoal, mas em nome da minha carteira, coitada…)

(Imagem tirada daqui)

25 de julho de 2008

Much ado...

gestao escolar Não me preocupa sobremaneira o novo modelo de gestão antidemocrático. Cada regime ou sistema traz consigo a génese do seu contrário. Não foi o modelo democrático que permitiu o engendrar deste que agora se prefigura? Presumo que sabem porquê e desejo ardentemente que sim, para não ter que produzir aqui uma explicação pormenorizada.

Perdeu-se a democracia na escola. E daí? Uma gestão democrática envolver-me-ia, necessariamente, no projecto da escola. E quem, em seu juízo perfeito, estaria interessado em se envolver num propósito tão abjecto como o que representa esta escola hoje? Claro, certamente, os que o ministério comprou. Mas sobre esses não garanto nada, nem mesmo que estejam em seu juízo perfeito…

(Apesar de tudo, direcciono os meus leitores para o texto “contra o novo modelo de gestão escolar”, onde poderão ler sobre o assunto.)

(Imagem tirada daqui)

Smile… you’re in candid camera

Sorriso Ter de sorrir está-se a tornar insuportável. Sinto que estou a mobilizar um exército de músculos e de outros elementos faciais. Muitos mais do que os que movimento para simplesmente deixar cair as beiças e as pelancas deste meu imperturbável frontispício. O resultado desta construção hercúlea do convenientíssimo sorriso é um cansaço desmesurado, uma prostração quase definitiva.

Reconheço que um bom sorriso me poupa algumas chatices quotidianas. É por isso que penosamente tento construí-lo e mantê-lo. A relação com os outros pode melhorar, fica mesmo mais provável que alguém por perto sinta um súbito desejo de me pagar a bica ou de me ceder um cigarro. Tudo isso é benefício civilizacional.

Mas a que preço, caramba!

(Imagem tirada daqui)

24 de julho de 2008

Menos televisão, por favor!

TVCABO Estimados Senhores

O que pretendo é, de facto, um downgrade do pacote Clássico para o pacote Selecção que foi, aliás,  o que pedi inicialmente, no momento da subscrição do V/ serviço de TV por satélite e não um upgrade para mais canais e mais telefone e Internet mais rápida, como creio seria do gosto de V. Exas. Deve ter-se formado entre nós um hiato de comunicação, o que não admira, visto que um homem sem dinheiro fica tendencialmente autista.

A razão que me levou a solicitar este downgrade é uma razão de natureza predominantemente  económica, isto é, estou a ficar ensopado em dívidas e a ver-me obrigado a cortar seriamente em todas as despesas. E V. Exas aparentam ser uma delas.

Se, como me escreveram, o downgrade que lhes solicito não é exequível, desejaria ser informado da razão desse facto do mesmo modo claro e inequívoco com que acabei de informar V. Exas da razão do meu pedido.

A escusa avançada por V. Exas de que "não se verificam todas as condições necessárias" não colhe nem me parece suficientemente apaziguadora. Teria, assim, todo o prazer em conhecer pelo menos uma dessas condições necessárias que tão irredutivelmente impediram a satisfação da minha “empenhada” súplica.

Ficarei, entretanto, calmo e embevecido, coleccionando as facturas emitidas mensalmente por V. Exas, angelicamente destituído de qualquer intenção séria de as pagar.

Com enlevada estima e consideração

Um professor verdadeiramente "empenhado"

(Imagem tirada daqui)

19 de julho de 2008

A morte e a morte…

jorge amado Fui bebido ontem ao cair da noite.

Por toda a tarde, meus amigos ébrios transportaram-me de tasca em tasca, achando que eu ainda estava vivo. Quando finalmente descobriram o meu estado rígido e frio, sepultaram-me sobre a mesa da sala e esgotaram um garrafão de bagaço. O álcool fazia-os rir e chorar.

(Eu divertia-me com esse seu estado indeciso, embora apreensivo pelo que se faria de mim quando eles saíssem e me deixassem só).

Um alambique na madrugada

Alambique[1] Hoje acordei com vontade de fazer aguardente. Por alguma razão cheirou-me a Setembro. Na imagem estava o meu pai sentado junto da fornalha do alambique, um prato de batatas e algumas postas de bacalhau prontas para assar, enquanto um fio de um destilado cristalino escorria por uma folha de tangerineira. Um exotérico aparelho estava mergulhado na bilha de vidro que aparava a cachaça. Meu pai passava horas a verificar a flutuação do teor alcoólico.

(Não sei por que razão hoje acordei com vontade de fazer aguardente. Ou foi o tempo que me cheirou a Outono ou o outro tempo que me cheirou à vida que se vai destilando, inexorável, em fino fio, através de uma folha seca de tangerineira…)

(Imagem tirada daqui)

9 de julho de 2008

intendencia1

Foram corrigidos erros e gralhas de vária ordem desde 05 06 2008 até à presente data.

Inépcias

inepcia Sinto-me como quando tinha quinze anos.

Evidentemente, não estou a falar de pujança física, ou de saúde a rodos, ou de alegria tonta, ou de paixão incontinente, ou de esperança enérgica ou de todas as vigorosas mazelas dessa idade. Não. Sinto-me como quando tinha quinze anos porque, nesse tempo, sofria admiravelmente, todos os fins-de-semana, o martírio de ter que escrever uma redacção até domingo à noite ou, na melhor das hipóteses, até às nove horas de segunda-feira, momento em que tinha que a ler em voz alta perante o irascível Professor Álvaro. Não era nada fácil. Só muito mais tarde revivi esses terrores, esses suores, quando a crónica radiofónica não saía, ou quando, no momento da entrega, a acta se me desconjuntava toda em fragmentos desaparelhados.

Hoje sei que a atávica sensaboria do que escrevo (que perpetuamente me seguiu, desde as redacções do Dr. Álvaro até aos relatórios, actas e blogs, passando pelas crónicas na rádio) teve sempre a mesma causa: uma inépcia monumental. Mas tratava-se de uma inépcia articulada sobre panoramas diversos: a inépcia das redacções escolares provinha do facto de nada ter para dizer e precisar, portanto, de inventar; a inépcia do blog procede de ter tanto para dizer e de não haver mais razão para inventar nada, a não ser o silêncio, a mudez provocada, provocatória.

(Mas, ainda assim, inepta…)

 

(Imagem tirada daqui)