28 de junho de 2008

Coisas giras por email

luta Recomecemos assim:

 

(Retirado do site da APEDE)

ACÇÕES DE FORMAÇÃO SOBRE A AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES: RECRUTAMENTO IDEOLÓGICO

Por estes dias, as escolas andam a receber "propostas", mais ou menos compulsivas, de acções de formação sobre avaliação. São acções destinadas aos "avaliadores" (membros de conselhos executivos e das comissões de avaliação e coordenadores de departamento) e a alguns (poucos) "avaliados", estes últimos talvez destinados à triste função de cobaias - por antecipação, pois todos nós iremos ser ser "testados" neste sistema.

Não é difícil antever o que estas acções significam: um imenso trabalho de doutrinação - ou de lavagem do cérebro - que visa "evangelizar" o modelo de avaliação do desempenho que o Ministério pretende impor, convertendo-o numa "boa nova" que os professores deverão, depois, aplicar acriticamente. É mais um passo no esforço de arrebanhamento com que a equipa ministerial procura "pacificar" o próximo ano lectivo. Perante este quadro, a APEDE vem apelar a todos os professores, e em particular aos que irão participar (à força) nas referidas acções de formação, para que não descurem a atitude vigilante e para que mantenham o olhar crítico face a esta nova onda de propaganda. Contra a retórica com que os professores irão, certamente, ser inundados, convém recordar alguns dados elementares:

1 - A avaliação do desempenho não é, nem nunca será, uma ciência exacta (aliás, não é sequer uma ciência).

2 - A avaliação do desempenho, tal como aparece plasmada no Decreto Regulamentar 2/2008 e nas famigeradas grelhas que o concretizam, está fortemente investida, de alto a baixo, por opções ideológicas e políticas que importa saber desmontar.

3 - A suposta "objectivação" do desempenho dos professores, através de uma miríade absurda de micro-parâmetros "quantificáveis", pretende apenas fazer-nos esquecer os factos enunciados nos dois pontos anteriores.

4 - A ideologia dominante no modelo de avaliação perpetrado pelo Ministério consiste em reduzir todas as práticas institucionais ao "paradigma" economicista da "gestão dos recursos". Não é por acaso que a "formação" no referido modelo está a ser ministrada, sobretudo, por especialistas em gestão, e não por pedagogos ou por "cientistas da educação".

5 - A ideologia acima citada julga ser possível avaliar uma prática complexa como a do ensino mediante um esquema reducionista e atomista, no qual essa prática é desdobrada em itens fragmentados, descontextualizados e isolados entre si, aos quais se atribui depois um valor numérico arbitrariamente definido.

6 - A ideologia "gestionária", importada de um universo empresarial tendencialmente opressivo e totalitário, faz da compulsão a hierarquizar os "recursos humanos" uma "necessidade" que se pretende inquestionável.

7 - O modelo ministerial da avaliação dos professores adopta essa compulsão, reforçando-lhe os mecanismos punitivos e disciplinares. Trata-se, precisamente, de disciplinar os docentes, de os fazer vergar perante a ameaça de diferenciações hierárquicas enquanto relações de poder.

8 - Assim como a ideologia gestionária procura manter os trabalhadores, reduzidos a "recursos" descartáveis, sob um regime de vigilância e de controlo permanente, também o modelo ministerial de avaliação do desempenho quer introduzir nas escolas um sistema de "big brother" intrusivo, convertendo os "avaliadores" em inspectores e capatazes ao serviço de um requisito de "transparência" das práticas educativas.

9 - Nessa "transparência", toda a interacção pedagógica com os alunos perde a dimensão de intimidade sem a qual dificilmente se constrói uma relação de confiança com os mesmos.

10 - Os pontos atrás referidos colidem com uma escola onde a construção e a transmissão do saber se faça de forma cooperativa e participada, oposta ao regime de competição selvagem por um bem escasso - as classificações mais elevadas -, regime típico de um mundo mercantilizado que o modelo de avaliação quer impor aos professores e às escolas.

(Imagem tirada daqui)

5 de junho de 2008

O tralapraki não morreu, não. Levou uns tabefes aqui e uns tabefes acolá, sim. De pouca monta. Mas não morreu. Tem estado calado, apenas. A tomar balanço. Segundo a APEDE, a luta do próximo ano vai ser renhida. E o Trala pretende acompanhar aqui todo o processo, com ligações a tudo o que mexer e com textos do seu autor, ameaço já, o mais descarados possível.
O trala continua, pois claro. Bom serviço de exames.

17 de maio de 2008

O fumarento caso Sócrates...

cigarro Hoje vou também falar do seriíssimo incidente do fumo de Sócrates no avião. Sócrates fumou, sem reparar que havia a bordo um zelosíssimo contador de priscas.

Pronto, já falei. (A blogosfera nacional já não me pode acusar de estar sempre tão desatento ao que de importante acontece no país. E também ninguém se pode queixar de que eu não soube enriquecer a minha análise com um sugestivo suplemento icónico)

(Imagem tirada daqui)

Disentanglement

promocaonovo2"However, some critics disagree with the association of the concept of desenrascanço with the mainstream Portuguese culture. They argue that desenrascanço is just a minor feature of some portuguese subcultures confined to some non-representative groups at the end of the 20th century".

In "Interne me"

Um curioso olhar sobre o desenrascanço lusitano por quem fala a língua de Shakespeare. Para ler integralmente aqui:

16 de maio de 2008

Este Maio, aquele Maio...

maioHá uns anos atrás - desejaria que tivesse sido há muitos, em plena barbárie humana, por exemplo, para poder justificar tão grande boçalidade e inconveniência - um director de turma, querendo ser claro e objectivo sobre o desajustado comportamento de um aluno, informava o encarregado de educação de que o aluno em causa era, de facto, um cancro que precisava de ser extirpado. E informava-o com tanta convicção e, sobretudo, com tanta pontaria, que, soube-se depois, a mãe do referido aluno se debatia, estoicamente, contra um cruel cancro de mama.

Depois de ouvir a inequívoca mensagem do senhor director, o pai do aluno retirou-se abatido e nunca mais foi visto naquela escola.

(Não foi na barbárie humana que esta história aconteceu. Foi em 1988, num mês de Maio mais primaveril e absoluto que este.)

(Imagem tirada daqui)

esteto2 UMA -  Fica sabendo que, tendo procedido como procedeste, deixaste-me muito mal vista perante os órgãos de direcção.

OUTRA - Mas fiquei bem vista eu, ora essa...

(Isto ouviu-se mesmo, sic, num corredor de uma escola secundária. Nem queria acreditar nas minhas orelhas. Deve ser por isso que um amigo meu costuma dizer que, ultimamente, tem vindo a sofrer de surdez selectiva.)

10 de maio de 2008

Quotas para os cotas

incompetente Nas más escolas, escolas de avaliação externa negativa, haverá 5 por cento de professores excelentes e 20 por cento de professores muito bons. Faz todo o sentido que os professores bons sejam em maior número que os muito bons. Se mantivermos a mesma relação verificada entre os dois primeiros grupos, teremos, por exemplo, 35 por cento de professores bons. Nada mal.

Os restantes 40 por cento serão preenchidos por professores incompetentes, inadaptados, irresponsáveis e afins, previstos, portanto, para retenção nas carreiras e/ou exclusão do sistema.

Ora, na situação conjunturalmente aviltante em que o sistema hoje chafurda, será uma enorme honra pertencer a estes últimos 40 por cento. E, maravilha das maravilhas, será muito fácil ser-se um professor honrado, visto que não se prevê grande afluência a este grupo...

(Imagem tirada daqui)

metas quotas quotas metas

metas Afinal havia mesmo metas na ASAE (daaa), como há metas e quotas no ensino (daaa), como há quotas e metas em todo o lado (daaa-se).

Quotas e metas - incompreensíveis lorpices, inoportunas imbecilidades, infames vergonhas nacionais.

(daaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa)

9 de maio de 2008

Orlando Borges

orlando Orlando Borges tem sessenta e três anos e ainda lecciona. Trinta e quatro anos de serviço e um montão de alarvidades de alunos, colegas e tutelas não foram suficientes para lhe corromper a sabedoria e embotar o humor. Orlando entra na sala de professores. Pouca gente àquela hora, só eu (também arrastando já trinta de serviço) e uma empregada, arrastando a perna e o aspirador. Sala aquecida, Orlando despe o velho casaco, pendura-o numa cadeira e nota que há, pregado nas costas, um grande pedaço de papel onde se lê “sou um grande burro”. Uma pausa curta, um sobrolho carregado, um desalento fugaz. Orlando desprega o papel, acrescenta o texto “cuidado, posso dar coices”, volta a pregá-lo onde estava, veste de novo o casaco e abandona a sala…

 

(Imagem tirada daqui)

Quando Sua Exª vier ao palanque

reforma Quando Sua Exª vier ao palanque dizer que fez a reforma do ensino, 150.000 professores dirão em uníssono: “Faz Vª Exª muito bem em nos avisar. Vamos votar contra si.”

Sim. Se ainda restar um pouco de honra e decoro nesta espécie de asnos em que se tornaram tantos Portugueses de hoje, cento e cinquenta mil homens irão às urnas dizer-lhe que basta. Se, pelo contrário, isto não se verificar, mande Vª Exª preparar as ratoeiras porque são ratos, e não homens, os bichos que Vª Exª mantém no sistema educativo.

Parece-me, no entanto, óbvio que ninguém mais revogará a sua reforma, Senhor Primeiro-Ministro. Sabemos o que ela é, e sabemos que é com essa anomalia que vamos ter que viver, nos próximos governos, sejam eles seus, de correligionários seus, ou de quaisquer outras forças partidárias.

Temos que ser realistas: nem Vª Exª nem ninguém vai querer mais ouvir falar da sua reforma do sistema educativo.

Os que vierem depois de Vª Exª passarão o menos possível junto dela, olhá-la-ão de soslaio, mas não a revogarão. Não falarão dela, não a brandirão como uma bandeira de glória, mas deixá-la-ão sobreviver na sua acanhada infâmia.

Ninguém tentará fazer melhor que o Senhor, mas também ninguém jamais se atreverá a fazer pior, por absolutamente desnecessário.

E a sua reforma resistirá ao tempo, como um aleijão institucional imprestável, obscuro, desonesto, injusto, mas perene como a junça…

 

(Imagem tirada daqui)

Perdoe, excelência, mas só tenho a quarta...

labrego “Sim, Senhor Ministro, eu sei que o seu plano tecnológico deve, certamente, colocar o seu país na linha da frente. Mas isso será no seu país. O seu país não é o mesmo que o meu. Eu não sei de planos tecnológicos, não sei de computadores nem de Internet, nem de quadros interactivos, nem de finanças, nem de ofechores. E sabe por que eu não sei de nada disso? Simplesmente porque sou apenas um agricultor, quarta classe bem feita em 1963, e moro num país diferente do seu, embora tenha nascido e vivido sempre aqui no Lombo.

Sei quando é necessário sachar o milho, semear as batatas, colher as favas, fazer as vindimas. Sei mondar e regar e sei tratar bem a terra, mãe de todos nós, e do Senhor também, seu filho pródigo do caralho. Sei trabalhar de sol a sol, porque a agricultura não tem horas, nem sapatinho de verniz, nem reuniões importantes. Sei viver com o que a terra dá, sem automóveis negros, nem pontes, nem tegevês, nem aeroportos, nem o raio que o parta. Sei fazer isso tudo, mas perdi o meu biscate e não tenho terra.

Será que o Senhor Ministro, tão sabedor dessa coisa dos planos tecnológicos, tão amigo dos pobres e oprimidos, me poderia arranjar um pouco de terra, ou um patrão com terra, de onde eu possa retirar o meu sustento e o dos meus? Ficar-lhe-ia eternamente grato. (Eu cedo à terra o meu corpo, em breve, prometo. Ela sabe lavar-se, com os diabos). Depois, pode até meter a minha reforma no cu, se V. Exª preferir, para ajudar a resolver o seu caso com a balança de pagamentos e mais o seu deficit das contas públicas.

Fique V.Exª com os seus problemas, os seus computadores, o seu poder e que Deus lhe dê muita saúde.”

José Serrano, agricultor de primeira classe, M. de Cavaleiros

(Imagem tirada daqui)