9 de maio de 2008

Orlando Borges

orlando Orlando Borges tem sessenta e três anos e ainda lecciona. Trinta e quatro anos de serviço e um montão de alarvidades de alunos, colegas e tutelas não foram suficientes para lhe corromper a sabedoria e embotar o humor. Orlando entra na sala de professores. Pouca gente àquela hora, só eu (também arrastando já trinta de serviço) e uma empregada, arrastando a perna e o aspirador. Sala aquecida, Orlando despe o velho casaco, pendura-o numa cadeira e nota que há, pregado nas costas, um grande pedaço de papel onde se lê “sou um grande burro”. Uma pausa curta, um sobrolho carregado, um desalento fugaz. Orlando desprega o papel, acrescenta o texto “cuidado, posso dar coices”, volta a pregá-lo onde estava, veste de novo o casaco e abandona a sala…

 

(Imagem tirada daqui)

Quando Sua Exª vier ao palanque

reforma Quando Sua Exª vier ao palanque dizer que fez a reforma do ensino, 150.000 professores dirão em uníssono: “Faz Vª Exª muito bem em nos avisar. Vamos votar contra si.”

Sim. Se ainda restar um pouco de honra e decoro nesta espécie de asnos em que se tornaram tantos Portugueses de hoje, cento e cinquenta mil homens irão às urnas dizer-lhe que basta. Se, pelo contrário, isto não se verificar, mande Vª Exª preparar as ratoeiras porque são ratos, e não homens, os bichos que Vª Exª mantém no sistema educativo.

Parece-me, no entanto, óbvio que ninguém mais revogará a sua reforma, Senhor Primeiro-Ministro. Sabemos o que ela é, e sabemos que é com essa anomalia que vamos ter que viver, nos próximos governos, sejam eles seus, de correligionários seus, ou de quaisquer outras forças partidárias.

Temos que ser realistas: nem Vª Exª nem ninguém vai querer mais ouvir falar da sua reforma do sistema educativo.

Os que vierem depois de Vª Exª passarão o menos possível junto dela, olhá-la-ão de soslaio, mas não a revogarão. Não falarão dela, não a brandirão como uma bandeira de glória, mas deixá-la-ão sobreviver na sua acanhada infâmia.

Ninguém tentará fazer melhor que o Senhor, mas também ninguém jamais se atreverá a fazer pior, por absolutamente desnecessário.

E a sua reforma resistirá ao tempo, como um aleijão institucional imprestável, obscuro, desonesto, injusto, mas perene como a junça…

 

(Imagem tirada daqui)

Perdoe, excelência, mas só tenho a quarta...

labrego “Sim, Senhor Ministro, eu sei que o seu plano tecnológico deve, certamente, colocar o seu país na linha da frente. Mas isso será no seu país. O seu país não é o mesmo que o meu. Eu não sei de planos tecnológicos, não sei de computadores nem de Internet, nem de quadros interactivos, nem de finanças, nem de ofechores. E sabe por que eu não sei de nada disso? Simplesmente porque sou apenas um agricultor, quarta classe bem feita em 1963, e moro num país diferente do seu, embora tenha nascido e vivido sempre aqui no Lombo.

Sei quando é necessário sachar o milho, semear as batatas, colher as favas, fazer as vindimas. Sei mondar e regar e sei tratar bem a terra, mãe de todos nós, e do Senhor também, seu filho pródigo do caralho. Sei trabalhar de sol a sol, porque a agricultura não tem horas, nem sapatinho de verniz, nem reuniões importantes. Sei viver com o que a terra dá, sem automóveis negros, nem pontes, nem tegevês, nem aeroportos, nem o raio que o parta. Sei fazer isso tudo, mas perdi o meu biscate e não tenho terra.

Será que o Senhor Ministro, tão sabedor dessa coisa dos planos tecnológicos, tão amigo dos pobres e oprimidos, me poderia arranjar um pouco de terra, ou um patrão com terra, de onde eu possa retirar o meu sustento e o dos meus? Ficar-lhe-ia eternamente grato. (Eu cedo à terra o meu corpo, em breve, prometo. Ela sabe lavar-se, com os diabos). Depois, pode até meter a minha reforma no cu, se V. Exª preferir, para ajudar a resolver o seu caso com a balança de pagamentos e mais o seu deficit das contas públicas.

Fique V.Exª com os seus problemas, os seus computadores, o seu poder e que Deus lhe dê muita saúde.”

José Serrano, agricultor de primeira classe, M. de Cavaleiros

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8 de maio de 2008

Ele há cada emprego...

executive Finalmente entendi a razão por que Durão Barroso concorreu àquele emprego em Bruxelas.

Entendi isso hoje, no telejornal da 3: Barroso aproxima-se da sua cadeira, ladrão de galinha, ar delicodoce, andar macio de malandro panamá, dançando no toró de sapato branco glorioso. A sua assistente, uma inefável mulher, cabelos Berlaymont coiffeurs, decote auspicioso, interrompido por leve tailleur executivo, postada por detrás da cadeira de Durão, leva as delicadas mãos ao elaborado espaldar, e aconchega Durão à enorme távola florescente.

Não me lembro de ter visto Prodi ou Santer ou Delors serem assim mimados! Qual seria o homem, em seu perfeito juízo, que recusaria um emprego destes? (Eu aceitá-lo-ia por dois salários mínimos e um salvo-conduto no Genesia ou no Golden Gate). Claro está, José Manuel declarou que o futuro a Deus pertence, mas que gosta muito do emprego e que adquiriu, entretanto, uma experiência valiosíssima (pelo que não correrá o risco de ser considerado inapto para o lugar).

Disso não sei. Mas o lugar da sua sedutora assistente está, por certo, assegurado. Assim haja justiça neste mundo!

 

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7 de maio de 2008

Teresa, 17 anos, deficiente profunda

loucura Teresa apaixonou-se pelo professor de Ginástica. Segue-o por todo o lado com o seu irrequieto e fascinado olhar de girassol. Procura-o nos espaldares, no campo de ténis, dentro dos fatos de treino adidas, nos balneários dos rapazes. Encontra-se com ele, amorosamente, ao lusco-fusco da sua adolescência perturbada. Louca de desejo, contou a toda a escola que o professor a tinha beijado desvairadamente, atrás do pavilhão oficinal, no refúgio dos amantes, onde o sol nunca alcança. Sofreu uns dias o ginasta. Demorámos algum tempo para provar que aquele beijo arrebatado não tinha acontecido no fosso abissal da escola mas no do cérebro de Teresa, alucinado pela demência crua. Demorámos algum tempo para entender que Teresa é limitada na cabeça, mas excessiva no coração.

 

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27 de abril de 2008

Haverá só um partido?

pastel Quando atento na actual conjuntura político-partidária, o que mais me preocupa não é o facto de todos os actuais partidos serem maus, mas antes o facto de todos eles serem bons. Não há, no actual espectro partidário, um partido que uma pessoa possa, sossegadamente, odiar. Não há, de facto, nenhum partido que apeteça roer, esganar, arranhar, vergastar, meter dentro de um pote de vinhos de alhos. Enfim, nenhum partido a quem valha a pena rosnar, alçar a perna ou eleger como saco de pancada privilegiado. Todos têm comportamentos asseados, açucarados, higiénicos. Todos se maquilham daquela cor neutra dos andares modelo. Deve, aliás, ter sido essa super ideologia pastel da construção civil que inspirou o actual leque partidário a ser o que é hoje, não necessariamente cinzento, mas bege, branco sujo, creme ou champanhe. E isso é muito irritante. Irritante e tristemente redutor.

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23 de abril de 2008

"Agora façamos o ponto...

... e mudemos de assunto, sim?"

derrota

Chegaram hoje mais acórdãos a rejeitar providências cautelares interpostas pelos sindicatos de professores contra o processo de avaliação em curso. Chegaram aos cachos e vieram, com força da lei, contrariar outras tantas que, em tempos e em relação ao mesmo assunto, terão tido, nos tribunais, acolhimento favorável.

Visto que não acredito na circunstância de erro judiciário, só me restam duas hipóteses: ou os tempos mudaram de repente ou as anteriores providências cautelares, alegadamente resolvidas a favor da plataforma sindical, nunca existiram.

Se analisar serenamente a primeira hipótese, concluirei que os tempos terão, então, mudado demasiado depressa para que eu possa assimilar a mudança. Se examinar friamente a segunda, terei que reconhecer aqui, diante de todos vós, que esta minha guerra educacional assentou, como tantas outras, num lastimável equívoco.

Só a verdade me faz mexer. Se suspeito da sua ausência, ainda que parcial, esmoreço, capitulo. Declaro-me, pois, terminantemente quieto.

Aplauso a todos os meus adversários. Honra aos vencidos.   :)

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21 de abril de 2008

gramática anamórfica

gramatica(Construções perifrásquicas)

-"Isso deve ser tido em consideração."   - "E foi?"  - "Deve ter sido tido, acho eu."   - "Tens a certeza?"   - "Não, só acho que pode ter devido ter sido tido em consideração…"   - "Então, terá sido devido ser tido."   - "Se não tiver sido, será tido."   - "Sim, terá de ser tido, mas terá sido tido?…"

 

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Ainda sobre o acordo pornográfico...

acordo ... entre Maria de Lurdes e a Plataforma

 

- Eles disseram-me que houve acordo, que é para eu pensar que não houve acordo nenhum. Mas a mim não me enganam: houve acordo, sim senhor!

19 de abril de 2008

O "Abrupto" também sabe...

Sindicalismo “O PCP e os seus Sindicatos sabem, melhor do que ninguém, que precisavam como pão para a boca de um acordo e sabiam que o Ministério também precisava do mesmo. Um precisava de parecer que ganhava e o outro de parecer que cedia.”

In “Abrupto”, 19 04 08.  Para ler integralmente aqui!

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Ou seja: Não será a última vez na história das lutas populares que os sindicatos revisionistas refreiam o ímpeto das massas, amaciando-o e oferecendo-o, já inerte, em bandeja de prata, aos poderes instituídos. E sempre de modo que as mais ignóbeis cedências pareçam vitórias aos olhos daqueles que dizem representar. De modo a poderem perpetuar a sua dúbia permanência na praça.

Ou seja ainda: “Se não sabes jogar, não vale a pena pedir a alguém que jogue por ti”.

In “Tralapraki”, 12 04 08 (uma semana antes do artigo de Pacheco Pereira).  Para reler aqui!

 

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O lado de lá da questão…

ignorancia … para se poder entender o de cá.

Embora dar ouvidos à ignorância não deva nunca representar uma premência na construção da nossa vida e do nosso carácter, é aconselhável, muitas vezes, descer até esse porão do analfabetismo mais arrogante, para que não se quebre, definitivamente, a nossa ligação ao mundo real que, muitas vezes,  é apenas isto e nada mais do que isto.  Assim, recomendo hoje que leiam Fenprof: vergonha nacional, Ensino da Matemática, Elogio dos maus professores e outros textos aqui à mão, em “De Cara ao Vento”.

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