20 de fevereiro de 2008

Tentação de ostentação

Irresistível.
Irresistivelmente hilariante o modo como se “trabalha” agora na escola secundária. O trabalho tornou-se, de repente, odorífero, visível, ostentatório. Cheira, ouve-se, insinua-se, patenteia-se. Cada professor rodeia-se de néons fulgurantes que publicitam as suas novas imagens de labor, dinamismo e competência, grotescos simulacros que brotam risíveis num sistema confrangedoramente dissimulado…

(Imagem tirada daqui)
Os amigos que me lêem regularmente aperceberam-se de que tenho vindo ultimamente a mudar as cores do template, com frequência desusada. Que poderá isto querer dizer? Nem mais nem menos: falta de imaginação. Quando escasseiam as ideias, muda-se o template.
Será que vou deixar o “Trala” estiolar assim, preso a tão imprestável formalidade?

Salvaguardando a devida distância, passar o tempo a mudar a cara de um blogue, à espera de um artigo salvador que o reoriente no caminho certo, pode comparar-se à recente operação estética governamental, onde se implantou o silicone da aparência.

Tanto veemente reparo para escrever e, em vez disso, atenua-se o blogue com charmes...
Tanto rumo errado para corrigir e, em vez disso, atapeta-se o torto rumo da irracionalidade...

(Imagem tirada daqui)

16 de fevereiro de 2008

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balancoBalanço semanal

Os menos maus do "Trala" esta semana:

1º Renata; 2º A escola de Léautaud e Darien; 3º audácia e coerência inconcebíveis

"Paideia" é mais?

paideia1 Ou é impressão minha, ou perscruto aqui uma posição que ainda não tinha visto clarificada em "Paideia"?!

É, decerto, impressão minha. "Paideia" é, há algum tempo, um arrimo, um arquétipo, uma parte importante da minha "formação contínua". Mas sempre achei também (e desculpar-me-á a sua autora) que "Paideia" fosse um pouco a voz do dono.
Será que me enganei? Será que posso confiar também no posicionamento crítico de "Paideia", para além da competência educacional que sempre lhe reconheci? Seria ditosamente excessivo...

audácia e coerência inconcebíveis

escola1

Ao longo do tempo, sempre os sucessivos ministérios da educação olharam para o sistema educativo com alguma gana indómita de o mudar. Uns mais afoitos, outros mais tímidos, todos tentaram modificar-lhe a estrutura, por forma a fazerem da educação uma coisa diferente do que era antes.

Voracidade não tem faltado também ao actual Ministério, neste campo. E coerência também não. Voracidade, porque nenhuma outra reforma anterior conseguiu ser tão profundamente inconcebível como esta. Coerência, porque nenhuma medida subsequente desmerece da anterior. Todas têm sido igualmente concebidas de acordo com a mais estrita inconcebibilidade.

15 de fevereiro de 2008

A escola de Léautaud e Darien

Duvido, no entanto, de que os nossos alunos desprezem a escola pelas mesmas razões de Léautaud e Darien:

darien leautaud “L'instruction apprise ne prouve rien, ne rime à rien, est complètement inutile, pour ne pas dire malfaisante, et ne fera jamais d'un imbécile un homme intelligent, d'un cerveau obtus un cerveau actif, et d'un être sans compréhension un être capable de jugement personnel. La seule instruction qui compte, et qui donne des fruits, c'est celle qu'on se donne soi-même car seule elle prouve chez un individu le désir de savoir et l'aptitude au savoir. Elle a de plus cet avantage qu'on s'instruit selon le sens de son esprit, en conformité avec lui, d'une manière appropriée à la nature de son être, à ses tendances et à ses goûts, ce qui ajoute encore à l'efficacité de cette instruction. En réalité, l'enseignement pédagogique est fait pour les paresseux, pour les esprits sans curiosité, pour les individus qui resteraient complètement ignares si on ne leur apprenait pas quelque chose de force, pour ainsi dire. Il n'y a que l'élite qui compte, et l'élite ne se constitue pas avec des diplômes. Elle tient à la nature même de certains individus, supérieurs aux autres de naissance, et qui développent cette supériorité par eux-mêmes, sans avoir besoin de l'aide d'aucuns pédagogues, gens, le plus souvent, fort bornés et fort nuisibles.”

Paul LÉAUTAUDdarien

“Et puis l'école obligatoire, c'est très joli... Pourtant, ce n'est pas l'école qui forme l'esprit, l'intelligence et le coeur. C'est la nature ; c'est le contact avec la vie ; le commerce libre des deux sexes. L'école est un bâtiment. Tous les bâtiments sont des prisons. Ce n'est pas le maître d'école qui doit être le vrai éducateur et le guide du peuple. Le maître d'école est un maître. Tous les maîtres guident l'homme vers une seule direction : la servitude. Les éducateurs et les guides de l'enfance, ce sont tous les hommes qui vivent bien, c'est-à-dire librement ; et tous les morts qui ont bien vécu, c'est-à-dire qui ont librement vécu.”

Georges DARIEN

(Imagens Wikipédia)

coisas giras por email

obviousJá aqui escrevi sobre o assunto, mas ainda não o tinha feito (nem tinha visto outros fazer) do modo como o faz Gabriel Mithá Ribeiro. Dou, pois, a palavra ao autor, extraindo do seu artigo, este pequeno excerto:

(Mas saiba Vossa Ex.a, Senhora Ministra da Educação, que o texto não é meu. Nunca seria capaz de colocar um tal texto num blogue que me pertencesse...)

“(…)

(vi) um ensino que já tinha as escolas, de algum modo, dominadas por caciques, escancara agora as portas ao caciquismo mais rasteiro a pretexto da aproximação às comunidades, a pretexto da «melhoria» da gestão e a pretexto de uma nova forma de avaliação dos professores;

(vii) escudados por essas pretensas inovações, os «iluminados» atacam a sala de aula enquanto espaço de intimidade intelectual entre professor e alunos, tentando transformá-la num «território» vigiado, inventando-se para isso umas aulas assistidas ao longo de toda a carreira docente por uns «controleiros» que, de maneira directa ou indirecta, mesmo que não o queiram individualmente, a pressão do sistema fará deles agentes do reforço do controlo ideológico das «ciências da educação» (ou de outro «lobby» que existirá no futuro) sobre a prática docente, atentando contra o essencial da noção de liberdade que morre se não for construída a partir do ensino. Professores que tomem isso como normal, tanto do ensino básico e secundário quanto do ensino superior, era bom que tivessem um pouco de vergonha na cara. Não sei o que vai na alma do «actual» Partido Socialista, mas sei que a liberdade, naquilo que há nela de mais íntimo e essencial, está a ser cerceada, num processo que chegou à sala de aula. Resvalamos para domínios altamente preocupantes. E quem duvida disso era bom que estivesse nas escolas básicas e secundárias dos dias de hoje. Perceberia por evidência empírica o que pode ter sido, há pouco menos de um século, o resvalar para o totalitarismo. Felizmente ainda estamos no início. Mas só travaremos o «monstro» se o enfrentarmos na sua vontade férrea de imposição de um suposto «bem comum» que só «eles» (os que mandam) parecem ver. Os professores não são massa estúpida, gananciosa e interesseira, como o populismo alimentado pelo actual governo faz crer. Fazem parte do grupo socioprofissional mais vasto, qualificado e diversificado da nossa sociedade. E se nele não existe massa crítica, ela não existirá em mais lado nenhum. Só uma grande dose de ingenuidade fará acreditar na «bondade» e nas «boas intenções» do actual Ministério da Educação. Recordo que o Ensino é da Sociedade, não é do Estado e muito menos do «actual» Partido Socialista. Não é preciso ser-se de esquerda ou de direita para se perceber o que está em causa. Inacreditável é que aquilo que hoje e à pressa está a ser imposto às escolas vai sendo conseguido sem um contraditório consistente, quase sem escrutínio, num país que se diz democrático. António Sérgio falava n'«o reino cadaveroso ou o reino da estupidez». O que diria António Sérgio se assistisse ao que está a ser feito hoje ao ensino e, por via dele, a prazo, à sociedade?

Com os melhores cumprimentos,

Gabriel Mithá Ribeiro”

(Imagem tirada daqui)

14 de fevereiro de 2008

Renata

renata

Renata possui dezassete anos e uma risada certeira.

Frequenta um curso profissional, sem aproveitamento. Nas aulas sorri para mim despudoradamente e eu fico feliz, imaginando que ela está a perceber o que lhe digo. Chego mesmo a pensar que aprecia as minhas aulas e, imbecilmente, envaideço.

Mas não. As risadas ostensivas de Renata devem-se a uma lesão no seu cérebro que a faz evocar ou engendrar situações ou cenas hilariantes.

Que paramoléstia misteriosa será esta que faz felizes as pessoas? A psiquiatria chama-lhe um nome obsceno, impronunciável. Eu não lhe sei chamar nada a não ser refúgio.

Paulatinamente, Renata vai-se evolando no ar, num fade out progressivo, deixando, cá em baixo, o mundo pequeno dos outros, irremediáveis doentes que se arrastam tristonhos e decrépitos e se contristam, piedosos, com a alegria vigorosa das gargalhadas pontiagudas de Renata…

(Imagem tirada daqui)

10 de fevereiro de 2008

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balancoBalanço semanal

Os menos maus do "Trala" esta semana:

1º Arbeit Macht Frei; 2º Uma hipótese escandalosa?; 3º Educação para a sexualidade

Uma hipótese escandalosa?

familia

Se a instituição familiar e a instituição escolar estivessem irmanadas num objectivo comum, e se esse objectivo comum fosse, verdadeiramente, trabalhar para um efectivo sucesso escolar dos alunos (e não esse sucesso fictício com que se pretende, a todo o custo, promover um ranking aceitável para Europa ver) os professores poderiam enviar aos pais, com duas semanas de antecedência, todos os testes de avaliação que pretendem aplicar aos seus rebentos.

Imaginemos, por mera hipótese depravada, que isto acontecia um destes dias. Os professores resolviam enviar, por e-mail, aos pais dos alunos, cópias dos testes de avaliação, acompanhadas do seguinte apontamento:

“Ex.mo Senhor

Seguem em anexo os testes de avaliação que pretendo usar como um dos instrumentos escritos a aplicar aos saberes e competências do nosso estimado Educando, o Aluno Fulano de Tal. Cumpre, agora, a Vª Exª acompanhar o Aluno no estudo e desenvolvimento das matérias e competências exigidas. Obviamente, exclui-se a situação indesejável de uma pura e simples elaboração conjunta do referido instrumento de avaliação, dado que esta hipótese não contribuiria para a formação integral do seu Educando.”

Quantos professores seriam capazes, neste momento, de confiar aos encarregados de educação os testes de avaliação de todos os períodos lectivos? Muito poucos, em meu entender. E quantos encarregados de educação sucumbiriam à tentação de, simplesmente, os mostrar aos seus educandos? Quase todos, presumo eu.

Se as minhas expectativas forem verdadeiras, ninguém me fará acreditar na possibilidade, ainda que remota, de unir pais e professores na prossecução dos verdadeiros fins de educação e formação dos jovens. Irmanar professores e encarregados de educação seria um pouco como irmanar patrões e operários, vendedores e compradores, polícias e ladrões, vencedores e vencidos (e com notória primazia para qualquer um dos exemplos do segundo termo da comparação)…

9 de fevereiro de 2008

Educação para a Sexualidade

sexualidade escolar

Miguel P. (Bicicleta de Recados) diz ter encontrado este cartaz numa escola secundária da região centro. Segundo o autor do blog, o cartaz poderá ser o produto final de um trabalho sobre Educação para a Sexualidade. Miguel P. ridiculariza a situação e critica, muito educadamente, o professor que, eventualmente, tenha orientado tal trabalho.

Quanto a mim, não posso criticar, porque esse professor simplesmente não pode existir. Se eventualmente existisse, no sistema educativo, uma singularidade deste jaez, formar-se-iam filas de cépticos só para ver de perto esse precioso exemplar.

Não, não metam professor nisto, que dão razão à Ministra! Estou convicto de que terá sido um aluno dos primeiros anos que escreveu aquilo a expensas próprias. Mas, ainda assim, resta uma dúvida relevante: quem permite que um chouriço destes permaneça pendurado na parede de uma escola secundária? Fico corado, só de o ver pendurado no blog…

Também não faço ideia do que seja “vida matrimonial sem dom de si”…

(A minha ignorância é tão preciosa e singular como o professor que não há. Ou há?)

(Imagem tirada daqui)