8 de fevereiro de 2008

O Dragoscópio passou para a carteira da frente?

dragoscopio novoO Dragoscópio está diferente...

O blog pirata e anacoreta aligeirou-se, esmerou-se, coloriu-se, “educou-se”.

Acho que se metrossexualizou um pouco!

Os textos continuam muito bons, sem dúvida, mas parecem-me um pouco mais mansinhos. É como se o autor tivesse aberto uma sucursal, e tivesse dito ao gerente: “Ficas aqui a ler os posts anteriores com atenção e, depois, tentas imitá-los”.

Será que a “nacinha”, que tanto e tão merecidamente apanhou do Dragão, acabou por, num ímpeto masoquista, o promover? É que, sinceramente, achei os textos mais sociáveis, mais tranquilos, mais bentos…

Ou ter-se-á o autor simplesmente aperaltado com o meu capote da razoabilidade, agora que decidi despi-lo definitivamente?

Enfim, não posso negar a beleza do sol poente que emoldura o novo Lança-Chamas, mas fica-me um leve gotejo de saudade do velho Dragoscópio negro.

 

(Imagem retirada da sidebar do blog)

7 de fevereiro de 2008

"Arbeit Macht Frei"

liberdade expressao1

Um pouco antes da sua maratona sobre as eleições americanas, Daniel Oliveira, no Arrastão, trazia-nos (com youtube e tudo) a curiosa história de uma jovem apresentadora da televisão alemã, que, num concurso, terá soltado, a um qualquer despropósito, a expressão “Arbeit macht Frei” que encimava a entrada dos campos de concentração nazis, nos anos 30 e 40 do século passado. Mais nos adianta Oliveira que, tendo caído em si ou tendo sido informada do que dissera, a pequena terá pedido desculpas, facto que de nada lhe serviu, pois foi logo ali liminarmente despedida.

Daniel Oliveira, com um esboço de juízo de valor, remata que é assim mesmo que as coisas acontecem num país a sério, onde se respeita a memória. Imaginei, por momentos, ter percebido uma ironia subtil nestas palavras. Mas não. O homem falava a sério.

A opinião de Daniel Oliveira (atribuindo justa causa ao despedimento da jovem, em nome do respeito pelos que sofreram a torpe carnificina nazi) não me suscitaria nenhum comentário pessoal minimamente inflamado, visto que não conheço a referida apresentadora de concursos e o medo do meu próprio despedimento está a tornar-me insensível aos despedimentos dos outros. Mas acontece que o referido post despoletou, até ao momento em que escrevo isto, nada menos que 62 comentários, muitos dos quais embarcando, com Oliveira, na tese do justo e douto castigo – o despedimento sucinto e relâmpago da desbocada apresentadora. E foi aí que me assustei a sério.

E, já que Oliveira (que é um jornalista dos bons) pode terminar com um juízo de valor, muito mais o posso eu que não sou coisa nenhuma. Aí vai, pois: os nazis estão vivos e são, certamente, os patrões da rapariga que foi despedida. Nazis parecem ser também todos os que consideram que terá havido justa causa para o despedimento.

Se descontextualizarmos “Arbeit macht Frei”, ficaremos com uma frase absolutamente inócua. Porém, um despedimento nunca é inócuo, seja em que contexto for.

Nem mesmo tratando-se de despedimentos absolutamente indiferentes, como são os dos outros…

(Imagem tirada daqui)

5 de fevereiro de 2008

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intendencia1

Corrigidos hoje erros de vários tipos em todos os posts publicados entre 26 01 08 e a presente data.

4 de fevereiro de 2008

balancoBalanço semanal

Os melhores do "Trala" esta semana:

1º As metas; 2º Democracia de trela; 3º O Capote da Razoabilidade

As metas

professorOrlando de Seide estava arrasado!

Tinha declarado, em Setembro, que as suas metas de sucesso para 2008 se situariam pelos 70 por cento. Mas é que nessa altura ele ainda não sabia que o sucesso dos alunos representaria uma componente de peso na sua própria avaliação como professor.  E a tragédia instalou-se, lenta e insidiosamente.

Ao princípio nem parecia uma tragédia a sério. Só uma simples contrariedade. Mas logo se avolumou e se abateu sobre ele, sem apelo nem agravo: ele tinha, imagine-se, logo no primeiro período, conseguido um inesperado e inexplicável sucesso de 92 por cento, em todas as suas turmas. Este lamentável falhanço nunca mais deixou Orlando dormir sossegado…

Confrontado com a situação (os donos da sua escola não se inibiram de lha fazer ver do modo mais incisivo que encontraram), Orlando viu agigantar-se um problema que nunca pensou que alguma vez o fosse. Mas era.

O facto de ter ultrapassado de longe, logo no primeiro período, as metas que estabelecera para todo o ano lectivo, fazia dele um professor  irresponsável, desatento, pouco ambicioso e desastrado. Irresponsável, porque poderá ter cedido a um impulso porreirista, falho de rigor e pouco profissional, na medida em que teria sido o imperativo da sua própria avaliação a ditar aqueles magníficos e magnânimos resultados; desatento, porque não soube adivinhar, com exactidão, as potencialidades e as limitações de cada um dos seus alunos em processo de aprendizagem; pouco ambicioso, porque o facto de ter traçado uma meta tão modesta pressupõe, de imediato, uma certa predisposição do professor para a lassidão, o laxismo, a preguiça e a acomodação. Finalmente, desastrado, por ter, levianamente, pensado que aquela espécie de promessa eleitoral (que as chefias designam por metas) teria, como todas as outras promessas eleitorais, um único e previsível destino, o de ser calma e deleitosamente esquecida.

O post já vai longo. Não é, no entanto, apenas por isto que o panicovou terminar aqui. A outra razão é que não entendi muito bem a tragédia de Orlando de Seide e não sei, portanto, como resolvê-la.

E vocês? Entenderam? E sabem?

(Imagens tiradas daqui)

medicamento eficaz

Noticiou-se hoje que o Champix, um medicamento contra o habito de fumar, está a induzir desejos suicidas nos pacientes. É óbvio que, se o paciente morrer, o medicamento cumpre eficazmente o objectivo para que foi criado. Mas achamos que, em benefício da saúde dos fumadores, não se deve lançar mão de medicamentos assim tão convincentes… :)

(imagem tirada daqui)

3 de fevereiro de 2008

Aplainar a História ou o sábio ignorante

carpinteiro3

Nas aldeias há homens espantosos. Vivi muito tempo na Beira Interior e conheci lá, numa das suas aldeias paradas no tempo, um carpinteiro sábio, homem que em 1985, devia girar já pelos seus 70 anos. Passava tardes a conversar com esse homem. Fotografei-o de vários ângulos, quer no sentido próprio, quer no sentido figurativo, sempre escorado na sua banca carcomida, rodeado das suas plainas, plainetes e garlopas, como se fossem troféus de uma glória improvável.

“Quem trabalha no meu ofício não entende as mudanças do tempo. Nem do tempo que faz nem do tempo da História. Sinto que hoje está mais frio que ontem, e sei que houve uma revolução em Lisboa há dez anos, mas nunca entendi por que essas coisas acontecem. Sempre trabalhei aqui no torno e tudo o que ouço dizer não tem para mim nenhum sentido: nem o fascismo, nem a democracia, nem o 25 de Abril, nem o 11 de Março, nem o 25 de Novembro, nem a ditadura, nem o liberalismo, nem a realeza, nem a república, nem o comunismo, nem o capitalismo. Não sei que coisas são a intriga política, o terrorismo, ou a corrupção. Passo as tábuas no torno, desenho-as a lápis e produzo as minhas obras de arte, mesas e bancos, que me dão o que comer. Sempre foi assim. Mesmo que quisesse entender isso tudo de que me fala, já estou plainado demais para que alguma coisa se me agarre ao cerne.”

Aí está um verdadeiro sábio que não sabe absolutamente nada...

(Imagem tirada daqui)

31 de janeiro de 2008

Boa noite

boa noiteE se eu viesse aqui agora só para dizer “boa noite”? Se eu viesse aqui, pesada e arrastadamente, dizer apenas boa noite, todos veriam que a minha criatividade já dormia, mas que, mesmo assim, eu teria vindo aqui sem ela, desacompanhado e ermo, dizer apenas boa noite.

Na letargia do cansaço, ser-me-ia desculpada a trivialidade de apenas dizer boa noite, mas todos intuiriam que a minha criatividade se dissolvera, exígua, morta.

(E, contudo, não há no mundo nada mais criativo que vir aqui, de cérebro vazio e coração cheio, desejar-vos boa noite…)

 

(Imagem tirada daqui)

30 de janeiro de 2008

promocaonovo2 "O Presidente da minha Escola, Um Engenheiro de Têxteis, Presidente do Conselho de Administração de Uma Empresa de Atoalhados, sediada em Pequim, convocou para uma reunião de emergência todos os docentes reformados, a partir de 1980 até à presente data, para tratar de assuntos de interesse mútuo."

Imperdível. Leia-o integralmente aqui!

O Capote da Razoabilidade

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Por vezes acontece-me vestir o capote da razoabilidade.

É fantástico. A gente enfia aquela indumentária ridícula e perece outra. Dizemos trivialidades iguais às de toda a gente, somos previsíveis como calhaus, rimos de imbecilidades, aceitamos as nossas lorpices e compreendemos as de toda a gente.

Apertamos as mãos e falamos do tempo, esperançados na chuva, no sol e no vento e parecemos estar de bem com a natureza e com as nossas vidinhas medíocres e desprezíveis.

Saudamos cordialmente cada novo dia, ouvimos as notícias com recato, rimos alarvemente das piadas do Markl e do Malato. Enfim, integramo-nos no bando imbecil dos acomodados.

É fantástico como este capote da razoabilidade, assente sobre o colete da moderação, nos simplifica a vida e o relacionamento com os outros! Tornamo-nos, de repente, cidadãos respeitáveis. Depois, é só apagar do domínio público o tipo pestilento que éramos antes de o vestir.

Tudo está agora em paz e a vida pode voltar a sorrir…

Assim vestidos, até conseguimos aplaudir a minúscula remodelação ministerial.

E acreditamos, devotamente, que o facto de o governo não se ter remodelado em bloco se deveu apenas à incúria do porteiro que o deixou trancado lá dentro e perdeu a chave…

(Juro que não era minha intenção dirigir o post para este lado. Mas, abafando de torpor e lassidão dentro do capote, despi-o compulsivamente.)

Razoabilidade? Delicadeza? Mediocridade? Sujeição? NÃO. Antes pão seco que tal conduto...

Remodelei-me, pois então.

(Imagem tirada daqui)

27 de janeiro de 2008

Democracia de trela...

caes

Tenho três cachorros. Felizes! Boas camas, comida saudável, perfeitamente ASAEada (novo termo para “asseada”) e uma veterinária estonteante, tão boa que faz fechar todo o comércio da aldeia (mesmo sem qualquer intervenção daquele organismo exterminador de comércios pequenos).

Felizes!

Mas o que mais invejo naquelas vidas de cachorro é o facto de nem sequer suspeitarem da existência de tantos filhinhos da mãe que nos aporrinham, quotidianamente, as existências…

Quando lhes abro o portão (aos cães, e não aos filhos da mãe), mordiscam, displicentemente, os calcanhares dos pobres labregos que passam a caminho das jeiras.

“Mal feito” - digo-lhes eu.

Mas tenho certeza de que eles mordiscariam, democraticamente e com idêntico despudor, os calcanhares de todos os filhos da mãe, cuja existência, para sua ventura, desconhecem.

Nada mau, para cães educados em pleno regime democrático!

(Mas penso que, ainda assim, devo reorientar-lhes um pouco o seu sábio conceito de democracia pluralista.)

(Imagem tirada daqui)