15 de fevereiro de 2007

Portus Cale

O Afonso é uma criança problemática. Nascido no seio de uma família disruptiva do Minho, vinda não se sabe de onde, certamente do Leste, de mãe fervorosamente católica, (defensora do não e sexualmente frustrada) e pai ausente, bebedor de cerveja e malvasia, o pequeno Afonso, na escola e fora dela, resolve tudo à matraca, arma-se em conquistador barato, subjuga tudo e todos, espalha o terror à sua passagem e falta às aulas que se desunha.
Chamada à escola pela Directora de Turma, a mãe do Afonso, Sora Dona Tereza, queixa-se de que o filho lhe bate, diante do olhar boçal e apardalado do pai, e adianta que o Afonso tem assomos de visionário e não é a primeira vez que ameaça fundar uma nação inteira de energúmenos, indigentes e grunhos que alaparão por todo o lado, desde as terras de Entre-Douro-e-Minho até para lá da região demarcada do Sado.
Perdi o Afonso de vista (entretido que estava a tentar manter de pé, contra ventos e marés, o sistema educativo português), mas algo me diz que o pequeno e maroto Aluno número 1, Afonso Henriques, cumpriu o que prometera à mãe nas suas visões obsessivas
.


30 de janeiro de 2007

Cantar ao fado a dois tempos (mas desafinado)


O rictus ou a essência

Dois dias:
Sexta para aprender;
Sábado para saborear.
Aprender para apreender a prenda.
Saber, para saborear o sábado.
Que haja os dois.
Sábado só sabe ser,
Mas Sexta assesta a seta.

O risus ou a excrescência

- Ai Escola, ai Escola do verde eterno
Se sabedes da virtude (e do livro e do caderno)
Ai Deus, é o Zé?

Ai Escola, ai Escola do verde opaco
Se sabedes quem vos meteu neste buraco
Ai Deus, foi o Zé?

Ai Escola, ai Escola do verde frolido
Se já estamos a vir antes de termos ido,
Ai Deus, é o Zé?

É o Zé, é o Zé, ou a Maria,
Ou os profetas bazófias da academia?

- Sei lá, por bofé!
É a bisca lambida,
É o burro em pé.

28 de janeiro de 2007

Conjurações contra João Efémero

Nota introdutória:

O texto que se segue foi escrito ontem à noite, e rejeitado pelo autor, de forma liminar, esta manhã. Na verdade, relido à luz crua do amanhecer, parecia absolutamente impróprio, iconoclasta, malévolo.
À tarde, depois de almoço, o mesmo texto pareceu-me divinal e acabei por publicá-lo depois de algumas tentativas falhadas para acertar com a tecla “publish”. O meu almoço foi uma feijoada brasileira com tudo a que tem direito, incluindo a banana frita, a farinha deusa e a couve mineira.
Ah, o vinho foi Quinta do Mouro, um alentejano regional de 2002, de 14 graus, tão maravilhoso como o texto que se segue.

Diz João Efémero:

“Sou mais que Tu, Criador, porque Tu fizeste isto tudo errado e podias tê-lo feito bem, visto que és todo-poderoso, eterno, everlasting, almighty, omnisciente e whatelse.
Eu teria feito um mundo realmente de acordo com a minha vontade, se fosse todo-poderoso como tu és. Eu teria feito os homens eternos, se fosse eterno como tu és. Eu teria feito mais everlasts, se fosse everlasting como Tu és. Eu teria almightado a vida toda, se fosse o almighty que Tu és. Eu teria ensinado melhor, se fosse omnisciente como Tu és. Eu teria feito whatelses melhores, se fosse whatelse como Tu és.
Agora estás omnipresentemente lixado porque vais ter de deletar tudo e retaipar, desde o começo, este papiro enrolado da Vida. Hands on, Lord!”